Fazer um curso do NOLS vale a pena? – Parte 2

POR+DO+SOL+LAGO+URIAU+-+AMAZONAS[1]Para você que não leu a introdução com as principais dicas de como ganhar uma bolsa do NOLS, e mais detalhes do curso acesse o primeiro artigo : http://blogdescalada.com/fazer-um-curso-do-nols-vale-a-pena-parte-1/

2° etapa – “cultural section” (Comunidade Lago do Antônio – AM, 12h viajando pelo rio Madeira de “gaiola” saindo de Humaitá, 6 dias morando com uma família de Ribeirinhos)

Nessa etapa cada aluno fica hospedado com uma família diferente e vive a dinâmica da casa que se encontra.

Os alunos ajudam os membros da família com os afazeres diários, trocando experiências através de mímicas, sons e sorrisos tímidos. Senhora-Nazare-Lago-Testa-empreendimento_ACRIMA20120916_0057_21[1]

Entre essas atividades estão o preparo da farinha de mandioca, a pesca, o garimpo, manufatura de canoas, artesanato e agricultura de subsistência.

O povo brasileiro pode ter inúmeros pontos fracos, mas certamente a falta de hospitalidade não é um deles.

Eu sou nascido e criado na cidade de São Paulo, mas sou de família mineira e confesso que não esperava encontrar uma alegria e acolhimento tão sinceros das famílias que hospedaram os 14 estrangeiros totalmente desconhecidos, falando uma língua incompreensível e com costumes muito diferentes.

4514448987_cd252653b8[1]Os moradores do Lago do Antônio são pessoas muito simples, verdadeiras e felizes.

Constantino, o patriarca da comunidade, conhecido por todos como seu Tantã, é um senhor de sorriso fácil, amável e muito religioso. Ele fala com muito orgulho da comunidade que ajudou a criar e cuida até os dias de hoje.

Os contos e histórias de onça são parte da cultura popular e a cada roda de conversa surgia um “causo” que entretinha por vários minutos todos os interlocutores, com direito a detalhes minuciosos e suspense, dignas de uma superprodução cinematográfica.Derrubada-Lago-Aleixo-moradores-comunidade_ACRIMA20120706_0013_15[1]

Posso dizer sem a menor hesitação que esse é o auge do curso pra maioria dos alunos.

Através da relação humana eles transcenderam o campo racional e se entregam para uma das mais fantásticas experiências da vida, se entregando de corpo e alma para viver um momento único e sublime, sem distinção de classe social, cor, credo ou religião, apenas seres humanos interagindo com o coração e da maneira mais verdadeira que se pode ser.

Existia um abismo cultural enorme separando esses dois mundos de realidades muito distintas, aonde de um lado vinham todas as experiências oriundas do ambiente urbano e impregnado com tudo o que ele carrega, do outro a cultura dos povos ribeirinhos, uma mistura da herança dos povos da floresta com as influências do homem branco da cidade.

O resultado desse encontro de apenas 6 dias foi um intercâmbio cultural riquíssimo, comprovado no momento da despedida ao ouvir crianças arriscando palavras em inglês e jovens falando um português cortado e arrastado, verdadeiramente felizes entre as lágrimas sinceras que agradeciam mais do que qualquer palavra, pela oportunidade única de estar ali.

 3° etapa – “hiking section” (28 dias, parque estadual Ricardo Franco – MT)

6718224669_1454edbaab_z[1]Após um mês e meio de convívio diário acabamos inevitavelmente nos adaptando ao funcionamento de cada um e o grupo já trabalhava de forma muito mais eficiente.

Já não era preciso designar pessoas para fazer as tarefas, alguém sempre tomava a iniciativa na solução dos problemas e já não era mais um peso se dedicar em qualquer atividade para a grande maioria dos alunos.

Foi muito bacana perceber o rápido processo de amadurecimento de alguns daqueles jovens, aprendendo a importância da responsabilidade, o valor do comprometimento e realizando conquistas permanentes no processo de aprendizagem.

Nessa última etapa tivemos a oportunidade para aplicar todas as técnicas aprendidas ao longo do curso e foram raras as vezes onde os instrutores precisaram fazer alguma intervenção. RiodoCongo-luninha[1]

As técnicas de camping estavam afinadas, os nós já estavam profissionais e as lonas mais robustas, a rapidez para desmontar acampamento e preparar a bagagem era infinitamente menor e o rodízio das tarefas na cozinha aconteciam de forma quase que automática.

Muitos estavam apreensivos e queriam mostrar serviço, pois de acordo com o rendimento do grupo nessa última etapa nós teríamos a oportunidade de guiar a nossa própria expedição de 4 dias pelo parque, sem a presença de nenhum monitor.

Para isso precisaríamos dominar o princípio LNT, saber incorporar os papéis de liderança e liderados, clareza no processo de tomada de decisão e obviamente dominar as técnicas de camping.

cachoeira_do_jatoba[1]Novos procedimentos como orientação e navegação foram inseridos, além da familiarização com a bússola e mapas, pois durante os dias da caminhada seríamos os responsáveis pela navegação.

O parque Ricardo Franco tem a maior cachoeira do estado do MT (cachoeira do Jatobá) está localizado numa região de serras, cânions e cachoeiras, e tem um clima relativamente instável, portanto o risco de tempestades, e consequentemente raios e trombas d’água era iminente, deixando todos em estado permanente de alerta.

Mesmo com essas preocupações fomos aprovados para fazer a nossa expedição independente e fomos divididos em dois grupos. Tudo correu muito bem, conseguimos manter a rota determinada e acampamos em todos os pontos programados, quando no último dia fomos cruelmente castigados por uma tempestade de raios por mais de 3 horas ininterruptas, nos obrigando a ficar sentados nas nossas mochilas em “lightning position” (posição de proteção no caso de raios) por todo esse tempo. lightning_pose[1]

Certamente esse inconveniente não superou a decepção de chegar na barraca e encontra-la parcialmente alagada  com boa parte dos sacos de dormir molhados.

Como era a última noite que passaríamos naquele local magnífico a sensação de desânimo diminuiu um pouco, mas não mudou o fato que teríamos uma noite de sono úmido pela frente.

O último dia raiou nublado mas sem chuva e pelos nossos cálculos, tínhamos uma caminhada de aproximadamente 5 horas do ponto onde estávamos até a cidade.

Tínhamos a rota da saída do parque e nos programamos para sair cedo e fazer a descida o quanto antes.

Acontece que num ambiente selvagem a imprevisibilidade é o desafio e a sagacidade a ferramenta e ainda não tínhamos sido colocados à prova.

NOLS Stickers2Já estávamos no meio do caminho, num ponto crítico da descida, quando fomos subitamente atacados por abelhas africanas vorazes, ferroando impiedosamente e debandando todos os membros do grupo em diversas direções na esperança de salvar a pele das temíveis abelhas.

O problema é que as abelhas não desistem e defendem ferozmente qualquer atitude considerada como um ataque à sobrevivência da colmeia.

Para fazer de uma longa história um pouco mais curta, o aprendizado que tiramos dessa experiência foi muito particular para cada um de nós.

Eu fui o felizardo que levou menos picadas e foram mais de 40.

A garota do nosso grupo que teve a infelicidade de levar mais ferroadas levou mais 300 e ficou deformada. nols_brand[1]

Após esse incidente a informação que tive foi que a escola estava revendo os procedimentos para lidar com abelhas e estavam avaliando quais mudanças seriam feitas para tentar evitar, ou pelo menos minimizar, acontecimentos como o do nosso grupo.

Após o término do curso retornei à São Paulo e recomecei a minha vida “antiga” de trabalho, relacionamento e estudos.

Sinto, porém, que ocorreram transformações internas muito marcantes num campo muito sutil e já não consigo ter o mesmo olhar para a sociedade e as pessoas, questionando cada vez mais os meus padrões de consumo e qual é o verdadeiro aprendizado que quero buscar na minha vida.

Sinto que vivendo nosso modo de vida das cidades acabamos nos desumanizando e matando a floresta que vive dentro de cada um de nós, deixando a cobiça sobrepujar aquilo que é mais importante enfraquecendo o sentimento de cooperação e contribuindo para um desastre iminente.

Se você pensa em fazer um curso da Nols esteja preparado para desafiar a sua resiliência e capacidade de lidar com situações adversas, expandir a sua zona de conforto, aprender a valorizar as pequenas coisas e aprender muito, mas muito, sobre você mesmo.

Caso tenham mais perguntas ou informações sobre os cursos da Nols – www.nols.edu

Leonardo Oshiro, é educador físico e profissional certificado no NOLS (National Outdoors Leadership School) , professor de pilates, personal trainer e é mochileiro desde os 17 anos.

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