Exploração Urbana – Um mundo diferente, bem ao seu redor

K2? Everest? Esqueça.

As maiores montanhas do planeta já foram conquistadas, e as ainda virgens estão a boas léguas de distância da sua poltrona. Isso porém não é motivo para ficar resmungando em frente à TV. Centenas de excitantes

lugares ainda esperam para serem visitados e redescobertos, alguns com certeza pertinho de você. Metrôs, túneis, sistemas de esgotos, prédios abandonados, guindastes, e até mesmo navios abandonas podem ser excitantes destinos.

A exploração urbana veio para ficar.

Não há muito espaço para ficar em pé, então caminhamos curvados, agachando quando necessário, arrastando e puxando nossas mochilas logo atrás. Sou o último da fila e os próximos estão me esperando ao final do corredor. Ao alcançá-los noto que minha lanterna reserva caiu do cinto, e preciso voltar pelo estreito túnel para encontrá-la. Eu estou no subsolo de Paris por apenas alguns poucos minutos, e já estou odiando cada segundo.

Após pequenos ajustes, continuamos nos movendo pelo túnel, cada vez mais fundo no labirinto. Mais algumas esquinas dobradas aqui e ali e seguimos à esquerda. A minha frente, a batida da música eletrônica ecoa a todo volume, confirmando que estamos no lugar certo.

O som cresce e cresce, passando pelo fim do túnel que seguimos e desaparecendo na escuridão. Vozes de um grupo mais adiante indicam que chegamos no primeiro marco, uma escultura de concreto de um homem que parece emergir da parede. Tiramos as mochilas, sacamos as câmeras para uma breve sessão de fotos e seguimos, de repente noto que o lugar começa a crescer ao meu redor.

O ar é fresco, existe espaço para nos esticarmos, e as complicações iniciais de entrar em um enorme túnel de uma antiga mina já foram esquecidas. Diversas pessoas esparrama-se pela ampla sala iluminada por leds e lanternas, rindo, conversando e bebendo. Estamos em uma festa em uma das várias galerias subterrâneas da cidade.

As catacumbas de Paris são um dos cemitérios mais famosos da cidade, durante o império romano essa complexa rede de túneis e quartos era uma enorme mina de calcário, que foi transformada em cemitério ao final do século XVIII.

Um enorme ossuário embaixo da terra, composto por centenas de quilômetros de túneis, galerias e corredores.

Ainda é cedo, começamos nossa primeira jornada propriamente dita, uma longa caminhada pelo chamado Quarto do Carneiro.

É quase um quilômetro de labirinto para chegar lá, colocamos tudo nas mochilas e confiamos a liderança a meu amigo John, ele tem o mapa e a missão de navegar-nos e evitar que vaguemos perdidos por uma rede centenária de túneis e cavernas de calcário que se estende por quilômetros e quilômetros debaixo das ruas de Paris.

Em certos trechos o teto do túnel é tão baixo que temos que nos agachar novamente. As botas e calças impermeáveis provam seu valor quando nos enfiamos em profundas poças d’água até quase a cintura.

Apesar de inicialmente sentir-me desconfortável ao fato de estar tão embaixo da terra, meus nervos começam a desistir de tensionarem e vão relaxando após tanto tempo no subterrâneo, gradualmente estar abaixo das ruas começa a ficar um pouco menos desagradavel.

Ao contrário de outros túneis que já explorei, onde inesperadamente encontrar alguém seria uma situação no mínimo enervante, encontrar um grupo de franceses ‘catáfilos’ – exploradores urbanos apaixonados pelas catacumbas – é uma agradavel experiência.

Era comum sermos saudados por coros de ‘Salut!’ ao qual prontamente respondíamos. Esse pessoal passa muitas horas por aqui, verdadeiros espeleólogos urbanos dedicados a explorar e conhecer uma Paris que passa desconhecida para a grande maioria do mundo “normal”.

A exploração urbana, ou UrbEx (de Urban Exploration) como é conhecida, é a exploração de áreas urbanas e industriais normalmente não vistas ou de acesso restrito.

A atividade também é conhecida como infiltração, porém muitos praticantes consideram infiltração como sendo a exploração de locais ativos ou habitados. Outros nomes também são usados para melhor definir e especificar o local onde a exploração ocorre, tais como “hacking de prédios”, a exploração de prédios e arranha-céus, “cavernismo urbano”, a exploração de dutos e túneis, ou ainda “escalada urbana”, a exploração de marcos e guindastes.

Curiosos e aventureiros das mais diversas profissões e idades vem cada vez mais adotando esse hobby e suas vertentes, (re)descobrindo um “novo velho mundo”, e produzindo vídeos e fotos de rara beleza.

Muitas das atividades associadas a exploração urbana podem violar leis locais e regionais, e em muitos lugares até mesmo leis mais abrangentes e séries como medidas anti-terroristas podem estar sendo quebradas pelo simples acesso a determinados locais.

Isso sem mencionar os perigos físicos de espremer-se por dutos de esgoto cheios d’água, cabos descobertos e metais pontiagudos e enferrujados. Para muita gente, isso apenas torna o hobby mais interessante.

O crescimento da popularidade da atividade pode ser diretamente atribuída ao aumento da atenção da mídia sobre o assunto. Programas de TV como Exploradores Urbanos, e Ghost Hunters no Canal Discovery trouxeram o hobby para uma audiência popular.

O filme After (2006), rodado no subterrâneo do metrô de Moscou retrata um grupo de exploradores pegos em situações extremas. Palestras e exibições sobre explorações urbanas apareceram na 5o e 6o Conferência do Hackers on Planet Earth, e já fizeram manchetes em diversas revistas e jornais.

O historiador e explorador urbano Steve Duncan, 33, fotografou bueiros, rios perdidos e túneis de metrô de inúmeras cidades, com foco particular na infraestrutura subterrânea hidráulica e de esgoto das cidades de Nova York, Los Angeles, Paris e Londres.

Ele foi apresentador do show Arqueologia Urbana no Discovery Channel, e já apareceu no History Channel e em outros programas como expert nos espaços subterrâneos de Nova York.

“Como historiador urbano e fotógrafo, eu tento descascar as diversas camadas da cidade para ver o que há embaixo. Do topo de pontes a profundeza dos túneis de esgoto, essas explorações do ambiente urbano me ajudam a montar e compreender o intrincado quebra-cabeça da interconectada e multi-dimensional história das complexas grandes metrópoles do mundo”, diz ele.

Steve sabe bem do que está falando, e aproveita o fato de estar na crista da onda para capitalizar em cima de sua paixão. Além de vender suas famosas fotos em seu website, ele da palestras e agora oferece através tours pelos subterrâneos de Nova York.

Nem todos veem o crescimento da popularidade da UrbEx com bons olhos.

Uma regra não escrita diz que “nunca leva-se mais do que fotografias, e deixa-se apenas pegadas”, mas devido a grande exposição recebida recentemente, muitas pessoas com intenções além da simples exploração estão começando a trazer preocupações a proprietários e responsáveis por tais locais.

Isso faz com que fique cada vez mais difícil e perigoso infiltrar-se, o que ao invés de repelir, apenas aumenta a ambição de certos grupos mais dedicados.

O Shard, é um arranha-céu em Londres, com 309.6m. Aberto em Julho de 2012, é o maior prédio completado até agora na Europa.

Mesmo quando essa gigantesca pirâmide ainda estava fechada ao público, um grupo de exploradores urbanos obteve acesso ao topo do prédio e conseguiu um visual digno do homem-aranha sob o Rio Thames.

A expedição do Silent UK, um dos mais ativos grupos de exploradores urbanos do Reino Unido, foi notícia em todos os jornais da Inglaterra, e incluiu burlar a segurança do prédio e muita vertigem.

“Nós tínhamos uma regra não escrita, esperar até que o prédio chegasse a 72 andares, o último andar não habitável antes do nível dos radiadores. Isso por apenas uma razão, para exploradores o Shard é muito mal posicionado.

Ele fica ao desconfortavelmente perto de uma das mais movimentadas estações de metrô de Londres, apenas dois dos seus lados são expostos e esses são cercados por uma cerca de 15fh e coberto de câmeras. Isso significava que sem um nível considerável de técnicas de escalada e sorte, só haveria uma forma de entrar e sair.

Nós tínhamos apenas uma chance, se alguém fosse pego havia uma grande possibilidade de nunca mais conseguirmos a oportunidade, então porque desperdiçar a oportunidade tão cedo?”

Após 30 minutos de cansativa escalada, perdendo um membro para um dos vigias do Shard e lutando com fortes ventos que balançavam o guindaste do prédio, o grupo capturou magníficas fotos que podem ser vistas diretamente no webiste do próprio, em http://www.silentuk.com.

“Nós somos pessoas como você, nós temos trabalho, vamos pra escola, assistimos TV, e vamos a bares aos finais de semana. Porém, de tempo em tempo somos levados pela vontade e nos vemos escolhendo passar nosso tempo andando por bueiros, escalando arranha-céus, acessando prédios abandonados e nos infiltrando em estruturas.”

Não existe uma única razão para porque exploramos: Alguns em uma busca por conhecimento, outros gostam da ideia de explorar o desconhecido e esquecido e outros apenas pela diversão. Não existe uma atitude certa ou errada, desde que você sinta que está tirando algo positivo da experiência, você está fazendo certo! É apenas isso.”, dizem eles.

Crack The Surface – Episode II from SilentUK on Vimeo.

Referências / Para saber mais:
Silent UK, exploracao urbana na Inglaterra
Canal Vimeo do Silent UK, vários vídeos muito interessantes
Estórias e fotos de aventuras no mundo moderno
Guerrilla History & Urban Exploration, by Steve Duncan
Um dos vários sites de Catáfilos de Paris

Murilo Lessa é natural de Piracicaba e desde 2008 mora em Londres, na Inglaterra. Analista de Sistemas, também pratica canyoning, trekking, e é piloto de paraglyder. Se dedica a escalada e ao montanhismo desde 2009, e faz mil malabarismos para balancear treinos e ambições egoístas com a família e o trabalho.

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