[EXCLUSIVO] Entrevista com Marcio Cesar – Academia Primata de Brasília

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Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

Localizada no planalto central, e no centro geodésico da América do Sul, a cidade de Brasília pode aparentar se um local que repele escaladas.

Engana-se quem acredita nisso, a cidade possui duas academias (mesmo número da cidade de São Paulo por exemplo) as quais estão sempre cheias.

O motivo é que próximo à capital federal há um dos melhores locais e boulder do mundo, além de um fantástico local de escalada de calcário chamado “Belchior”.

Uma das academias, a “Primata Escalada“, é capitaneada por um dos escaladores mais ativos e preocupados com a comunidade de montanha: Márcio Cesar.

Márcio também foi um dos integrantes do filme ganhador da Mostra de Filmes de Montanha do Rio de Janeiro com seu “Quanta Patagônia“.

Conhecido por ser um fanático escalar, bom administrador e bastante sincero, Márcio César tem opiniões fortes e polêmicas sobre a escalada e o rumo que a prática tomou no Brasil.

Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

Para saber sobre esta personalidade singular da escalada brasileira o Blog de Escalada procurou Márcio para uma conversa que resultou em uma das mais interessantes entrevistas que fizemos este ano.

Leia tudo abaixo.

Márcio você administra uma das principais academias de escalada do Centro-Oeste brasileiro. Como é esta experiência?

Apesar das dificuldades como: alto índice de impostos e todas as outras taxas,  fiscalizações e exigências que temos que nos enquadrar e que nos transformam em “mico-empresários”.

Como me disse uma vez meu camarada Chiquinho, é ótimo poder trabalhar com o que gostamos.

Você acredita que o esporte de escalada vem crescendo de praticantes nos últimos anos como vem sendo alardeado?

A escalada vem crescendo sem dúvida, principalmente aqui em nossa região temos trabalhado bastante para que este esporte seja reconhecido como uma atividade física regular do dia a dia.

Isso para que possa ser praticada por todos, mas o mercado ainda é muito restrito.

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Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

 Você realizou um filme vencedor do Festival de Filmes de Montanha, como foi esta experiência?

A criação do “Quanta Patagônia” assim como a participação e a premiação no Festival foi totalmente inesperada, já que nunca tivemos nenhuma pretensão.

Tudo começou quando eu e o Guilherme Pahl levamos uma filmadora para o Frey apenas para registrar nossas escaladas e os momentos de diversão, tipo para nossos netos verem no futuro!!  

Depois passei as imagens para a Luciana Melo que estava com tempo de sobra, mas que acabou também não mexendo em nada por 4 meses.

Somente uma semana antes do encerramento das inscrições no Festival é que liguei para o Guilherme “botando pilha” nas imagens e na sequência para a Luciana, que acabou virando algumas noites fazendo mágica e deu no que deu, uma “loucura louca”…

Ficamos todos muito felizes.

 Existe algum planejamento para realizar algum outro filme retratando desta vez a escalada no planalto central?

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Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

Sim, temos um projeto em fazer o “Trad Cerrado”, uma série de capítulos com o principal objetivo de mostrar o potencial que nossa região oferece para as escaladas de aventura.

Claro que esbarramos na dificuldade em montar uma equipe de filmagem e produção comprometida, já que são poucas pessoas escalando tradicional, e ainda dispostas a pendurar por aí para filmar e sem dinheiro envolvido.

Mas acredito que até o meio do ano que vem conseguiremos, pois já temos alguma coisa filmada e muito planejamento.

Você possui alguma rotina de treinos? Qual é?

Treino em escalada claro que não…

Foto: Guilherme Pahl

Foto: Guilherme Pahl

Escalada para mim é diversão e aventura…

São 19 anos de escalada, meus objetivos exigem muito mais do psicológico do que do treino em ginásio, campus ou algo bitolado do tipo;

Tenho feito minha preparação física com treinos diários de canoagem e com sessões de agachamento, abdominal e outros exercícios funcionais; escalada mesmo só se tiver fenda…

Não me lembro a última vez que fui pra pedra escalar esportivo, acho puro ego e perda de tempo.

Você como professor de escalada como visualiza o crescimento de acidentes de escaladores neste ano de 2013?

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Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

Trabalho com cursos de escalada a mais de 15 anos.

Como falei antes, particularmente acho que a forma como as pessoas vêm praticando a escalada esportiva, a “competição” que firou grampear novas vias, 8a.nu etc…

Enfim, parece que perdeu a essência, tudo virou puro ego…

Ninguém quer aprender técnicas corretas, nós, auto-resgate, nada…

A “moçadinha” já inicia querendo mandar v10, 9b mas não sabe se encordar direito!

Vejo muita gente gritando para o amigo pendurado “ensinando” a desequipar…

Muito perigoso, enfim…

Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

Divulgamos os cursos de escalada, mas são poucos que entendem a importância em aprender e a reciclar técnicas de prevenção de acidentes.

Antes até de comprar equipamentos para saber o que é preciso né?!!

São 15 costuras, uma corda fina de 60m, sapatilha, atc e cadeirinha… e o capacete?

Anel de cordelete?: “Pra que véi”?…

Evito ir para lugares muito frequentados.

Tenho visto muita gente fazendo caquinha na pedra, então prefiro não estar presente.

Se você vê alguma coisa errada e fala é pretensioso.

Se não fala é omisso!!

Então prefiro nem ver, quando vejo que pode dar merda saio logo de perto.

Muitos escaladores não possuem patrocínio de marcas e empresas de escalada. A que você atribui esta triste realidade?

Ao Futebol, FIFA, Coca Cola, Mac Donalds…

E à politicagem é claro.

Muitos escaladores provocam incidentes em locais de escalada como deixar sujeira ou derramar produtos químicos. Qual a sua opinião a respeito disso?

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Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

Triste…

A cultura de fazer dos picos de escalada nossa “casa” é cruel.

A moçada faz banquinho de pedra, cerquinha, marca” trilhinha” de 30 minutinhos com totem de pedra a cada 50 metros, fita colorida pra todo lado, deixa garrafão de água, saco de broca, grampo…

Alegando que é para não carregar peso da próxima vez, pura preguiça! Inacreditável!

O péssimo hábito em deixar vias esportivas equipadas na minha opinião é o grande responsável por pequenos atos de desrespeito.

Tudo começa quando os que estão iniciando vêm as vias equipadas, e na maioria das vezes com equipo podre… emendados…

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Foto: Acervo Pessoal Márcio Cesar

Se torna normal largar as coisas nos picos e aí não para mais…

É revoltante ver pessoas com vários anos de experiência dando mal exemplo.

Escalada em rocha não é igual ginásio que tem cadeira, sofá, bebedouro e agarra marcada.

Estamos no ambiente natural e mesmo em falésias de fácil acesso e áreas de blocos que da pra ir de chinelo ou para o carro do lado, devemos deixar tudo como encontramos… 

É ambiente natural e assim acho que deve ficar.

 

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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