[EXCLUSIVO] Entrevista com Manoel Morgado

Foto: arcauniversal.com.br

Foto: arcauniversal.com.br

Escalar em alta montanha é uma disciplina que exige alto conhecimento de técnicas de montanhismo.

O desafio exige preparação física, psicológica e tenacidade acima do normal.

Um dos maiores ícones do montanhismo brasileiro e considerado verdadeira lenda dentre os praticantes de alta montanha é sem dúvida Manoel Morgado.

Sempre com o pé na estrada, Morgado se destaca não somente pelos seus inúmeros feitos, mas também por sua relação espiritual que possui com a montanha.

A Revista Blog de Escalada procurou Manoel Morgado para uma entrevista, e foi presenteado com uma das melhores realizadas pelo site.

Acompanhe abaixo:

 Manoel, a escalada em alta montanha no Brasil é hoje a modalidade de escalada mais reconhecida pela mídia tradicional. Na sua opinião qual o motivo disso?

Acho que a ideia de um homem ou uma mulher chegando ao cume de uma grande montanha após semanas ou mesmo meses de trabalho árduo enfrentando perigos reais, mantendo o foco e desafiando um ambiente hostil é uma coisa que capta a imaginação das pessoas e da mídia.

Foto: Acervo pessoal Manoel Morgado

Foto: Acervo pessoal Manoel Morgado

Talvez seja o fato de ser uma coisa tão difícil de entender para pessoas que não façam isso.

Porque expor sua vida a riscos incríveis para alguns momentos no cume? o mistério deste empreendimento causa curiosidade.

Você já escalou diversas montanhas no mundo. Como você escolhe seus projetos?

Foto: Acervo Pessoal Manoel Morgado

Foto: Acervo Pessoal Manoel Morgado

Acho que Everest sempre esteve em minha mente desde que eu comecei a fazer trekkings, embora naquela época eu não imaginasse que um dia seria capaz.

Para quem ama escalada e as montanhas escalar o Everest é um chamado difícil de recusar.

Então, este projeto que incluiu 2 anos de treino e escaladas na América do Sul, no Alaska e o Cho Oyu, sempre esteve presente apenas esperando o momento certo.

Foto: Acervo Pessoal Manoel Morgado

Foto: Acervo Pessoal Manoel Morgado

Já outras montanhas também dependem de me sentir pronto para elas.

É o caso do Ama Dablan com quem venho sonhando há anos, mas somente no próximo ano acontecerá. é uma montanha bastante técnica e difícil.

Outro fator é ter a companhia certa. conviver por semanas em uma situação de stress físico e psicológico é muito difícil então com quem você vai escalar faz toda a diferença entre ter ou não uma experiência agradavel.

Outro fator para mim é o desafio.

Após escalar o Cho Oyu e o Everest com o auxílio de Sherpas e com oxigênio suplementar, eu queria ver se conseguiria escalar sem os dois. por isso fui ao Manaslu no ano passado.

Uma das barreiras para a prática de alta montanha é o seu alto custo. Você acredita que no futuro esta barreira pode ser suavizada?

Não creio que irá mudar. São expedições muito comercias.

Mas, para isso, é necessário experiência e isso também exige um gasto considerável.

A massificação de escaladas ao Everest desvalorizou o feito de escalar a montanha,já que existem muitas facilidades?

Foto: Acervo Pessoal Manoel Morgado

Foto: Acervo Pessoal Manoel Morgado

Eu creio que a montanha ficou mais segura, não mais fácil.

Hoje em dia existe mais gente na montanha, mais Sherpas das diversas empresas, mais cordas fixas. 

O helicóptero pode te resgatar o campo 2 a 6300 metros.

Mas, o Everest ainda é o Everest com seus 8850 metros, e ninguém pode escalar ele por você ou te levar ao cume.

Ainda é o escalador que tem de manter-se saudavel em um ambiente agressivo por mais de 2 meses, que tem de manter a mente clara e tranquila apesar das constantes dúvidas se será capaz de chegar ao cume, se a tão esperada janela chegará, se não acontecerá algum acidente.

A pressão emocional é enorme e isso não mudou desde o tempo do Hilary.

Para quem estiver interessado em praticar alta montanha, qual seria o conselho que daria?

Muita gente me pergunta isso e minha resposta sempre é a mesma.

Foto: Acervo Pessoal Manoel Morgado

Foto: Acervo Pessoal Manoel Morgado

O passo inicial é fazer um curso de escalada em neve e gelo e se possível também um de escalada em rocha.

Isso te da os instrumentos necessários para começar a trajetória com segurança.

Depois disso escalar montanhas progressivamente mais altas e mais difíceis se mantendo por algum tempo em montanhas ao redor de 6000 metros para depois disso pensar em ir mais alto.

E sempre com a ajuda de pessoas mais experientes, sejam guias ou amigos.

Se fosse para você enumerar um curriculum de sucesso a um escalador de alta Montanha, qual seria?

Como disse acima começaria com um curso de escalada em neve e gelo.

Depois uma ou duas montanhas na Bolívia ao redor de 500 a 6000 metros como a região do Condoriri e o Huayna Potosi via francesa.

Depois disso talvez o Aconcagua ou o Lenin na Asia Central. em seguida o McKinley que é uma excelente escola apesar de ser uma montanha dificílima em termos físicos.

Pronto: em seguida o Cho oyu e o Everest.

Sem dúvida escalar em Alta Montanha há o risco de morte. Como você administra esta pressão?

Nunca considerei escalar uma montanha como o Annapurna ou K2 com taxas de mortalidade de 25%. não creio que valha a pena o risco.

Mas, mesmo nas outras existe um risco e quando você é a vítima de uma avalanche estatísticas não valem nada. creio que cada vez que voc6e entra em uma expedição você tem de estar ciente de que existe um risco e ter respeito pela montanha.

Este é o medo saudavel que te faz saber quando desistir. no ano passado estava no campo 2 do Manaslu quando teve uma enorme avalanche 300 metros acima de onde estava, no campo 3.

Dos 300 escaladores que estavam na montanha ao redor de 250 abortaram a escalada e foram para casa.

Eu resolvi continuar.

Eu sabia do risco de avalanches no Manaslu.

Não foi uma surpresa, não havia por que voltar.

Mas, também creio que com todos esses anos que escalo e estou na montanha, aprendi a conhecer meu corpo e saber o que posso e o que não posso fazer.

E isso é a coisa mais importante para deixar a minha taxa de risco um pouco menor.

Na escalada esportiva há escaladores que medem a qualidade de um escalador pelo grau. Na alta montanha existe o mesmo tipo de raciocínio?

Os grande escaladores de alta montanha tem feito vias mais difíceis, em estilo alpino ou então em escaladas invernais.

Acho que esses são os objetivos dos escaladores que estão querendo ampliar os limites do esporte.

Você ministra cursos e expedições à alta montanha. Como começou esta prática?

Minha motivação sempre foi dividir os incríveis momentos que tenho nas montanhas com outras pessoas.

Guiar para mim é uma maneira de ajudar as pessoas a experimentar o prazer de estar nas montanhas, de se superar, de aprender uma infinidade de coisas que este esporte te ensina, de poder sentir a indescritível emoção de estar em um cume sonhado para o qual demos mais de nós do que em qualquer outro momento de nossas vidas.

Ao estar ao lado de um cliente quando ele chega em seu objetivo, seja o cume de uma alta montanha, seja ao final de um trekking de poucos dias é extremamente gratificante.

Na sua opinião qual a importância para o esporte de montanhismo e escalada de federações e associações?

Acho que as associações podem ser a porta de entrada de muita gente que tem vontade de conhecer mais sobre o esporte.

Pessoalmente como estou há muito tempo fora do Brasil nunca tive grande contato com elas, mas sei do trabalho do CAP e do CEU e de muitas pessoas que começaram suas experiências em montanhismo através delas.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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