[EXCLUSIVO] Entrevista com Luciola Gomes Selia

Danilo Monstro4

Foto : Monstro Fotografia

O lugar que mais cresceu no universo da escalada, ao menos em termos de projeção de escaladores, é o estado do Espírito Santo.

Um crescimento com uma característica interessante : grande maioria está engajada no objetivo não somente de praticar o esporte, mas também em contribuir com a comunidade a qual faz parte.

Alguns escaladores mostraram por terras capixabas uma espécie de “terceira via” na política da escalada.

Uma destas pessoas que é “gente que faz” é a capixaba Luciola Gomes.

Sempre acompanhada pelo seu sorriso carismático e uma presença marcante, Gomes é uma das personalidades do estado capixaba que ainda irá seguramente ser reconhecida como referência para o cenário nacional da escalada.

Luciola é além de tudo uma pessoa com um brilho especial pois é sempre simpática, dedicada e com uma resposta educada e firme na ponta da língua para cada tipo de pergunta;

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Foto : Layla Rostoldo

Não fosse tantas características positivas o bastante, Luciola também participou do filme “Amigo Imaginário”, o qualarrebatou três prêmios no Rio Mountain Festival , divulgando as opções infinitas de escalada que existem em Pancas, cidade do interior do estado do Espírito Santo.

Para saber um pouco mais desta especial escaladora , o Blog de Escalada procurou a capixaba para uma entrevista, e para nossa surpresa nos presenteou com respostas surpreendentes e interessantes.

Leia abaixo a entrevista completa com um dos destaques da escalada no cenário brasileiro.

Luciola, você escala frequentemente no Espírito santo. Em termos de variedade, como está a escalada no Espírito Santo hoje?

Foto : Naoki Arima

Foto : Naoki Arima

O Espírito Santo é um estado lindo e que possui um grande potencial para a escalada em suas diversas modalidades.

Em todo o estado encontramos muitas montanhas com vias incríveis e cumes lindos para a escalada tradicional, muitas ainda a serem conquistadas, além de vias clássicas na historia do montanhismo brasileiro.

Possuímos também setores de escalada esportivas de fácil acesso dentro e nas proximidades da região metropolitana e outros no interior do estado.

E ainda encontramos Boulders em algumas regiões, como em Guarapari e em Viana.

Percebo que essa diversidade tem proporcionado um crescimento muito saudável para o esporte, uma vez que novos e experientes escaladores podem se identificar com o estilo de sua preferência e nos encontros em confraternizações trocar muitas experiências.

Constantemente mulheres reclamam da falta de parcerias para escalar. Qual seria seu conselho para estas pessoas?

Bom, em parte, eu sou uma delas (risos).

Foto : Naoki Arima

Foto : Naoki Arima

Não por reclamar, mas por as vezes sentir falta.

No meu caso, os compromissos do dia a dia com família, esposo, trabalho e amigos maravilhosos fora do esporte, me cria a necessidade de socializar com estes e isso não me permite estar tanto no esporte como gostaria.

E isso também ocorre com algumas amigas escaladoras, o que faz nossa disponibilidade oscilar e nem sempre conseguimos conciliar os horários.

Foto : Oswaldo Baldin

Foto : Oswaldo Baldin

Ultimamente eu e minha amiga Fernanda estamos procurando ajustar nossos horários e tem dado muito certo, sempre uma ajudando e apoiando muito a outra com as metas na escalada.

O que procuro fazer também é sempre estar em contato pelas redes sociais, whatsapp, e telefone com os amigos da escalada. Sempre tem alguém indo para a pedra e com uma vibe super boa.

Desde quando começou a escalar até hoje o que mudou na sua escalada?

Bommm..

Foto : Xerxes Zampier

Foto : Xerxes Zampier

Quem me conhece sabe que adoro falar…

Então vamos lá…(risos)

No inicio, em 2010, passei por aquela clássica febre pela escalada, onde queria o tempo todo compartilhar tudo o que estava fazendo, superando, as fotos, as cadenas, enfim…

Tive um desempenho muito bom no ano seguinte, pois pude estar mais presente na escalada com o término da faculdade.

Consegui trabalhar vias na casa dos sétimos e até mandar algumas linhas que me apaixonei e batalhei bastante nelas.

Já no ano de 2012 foi um ano complicado com muitos estresses profissionais, conflitos pessoais e fui deixando de fazer coisas que gostava e mesmo na escalada não me sentia bem como antes, estava sem foco e sem conseguir me reorganizar.

Essa sensação foi de impotência como se algo me travasse. Apesar da situação, tive a incrível experiência de uma conquista aqui no estado com três amigas escaladoras, orientadas pelo Oswaldo Baldin (que foi um paizão) nos ensinou muito e documentou tudo no filme “Amigo Imaginário” que participou este ano no Rio Mountain Festival e para nossa surpresa foi premiado em três categorias.  Foi uma superação imensa estar “afastada” do esporte e entrar numa conquista e valeu cada segundo.

Naoki Arima 2

Foto : Naoki Arima

No inicio deste ano, 2013, procurei ajuda e em abril descobri que me encontrava em um quadro de depressão.

Por coincidência, ou não(rs), uma semana após saber disso tive o prazer de receber em casa a Robertinha Resende, que conversou muito comigo e me contou como lida com seus momentos complicados.

E também pude ler a entrevista da Ana Ligia onde ela conta sobre seu transtorno bipolar.

Muitos amigos me ajudaram, meu marido Xerxes com sua paciência e dedicação, minha família com o carinho, mas os exemplos das meninas foram de uma ajuda incalculável para a forma com que eu estava vendo as coisas e comecei a me conhecer melhor.

Foto : Monstro Fotografia

Foto : Monstro Fotografia

Cito tudo isso, pois o exemplo delas me ajudou e quem sabe eu também ajude outra pessoa.
Hoje estou super feliz, me reencontrei na escalada e o quanto ela me faz bem.

O gostinho de compartilhar com todos os que acontece na pedra ainda é bom (sempre é bom receber um “curti”, não é verdade?..rs), mas o que realmente esta me trazendo satisfação hoje é o autoconhecimento e a auto superação sendo absorvidas por todo o meu corpo e mente.

Então o que mudou na minha escalada?

Bom, minha escalada por enquanto mudou pouca coisa, pois apesar do momento complicado que passei, a empolgação e o brilho nos olhos é a mesma.

Porém considero o que mais mudou na minha escalada, fui eu como pessoa.

No Espiríto Santo não possui academias de escalada. A que você credita este tipo de ausência?

Foto : Fernanda Salomão

Foto : Fernanda Salomão

Sabemos que o custo para manter uma academia de escalada não é baixo e acredito que a escalada por aqui ainda não é algo visto comercialmente para a abertura de academia visando lucro.

Mas hoje temos sim uma academia funcionando que é a Sede da ACE , onde temos um muro para treino e o espaço para reuniões e atividades voltadas ao esporte.

O valor cobrado na mensalidade do muro é para arcar com o custo da Sede, mas mesmo assim o numero de mensalistas ainda é baixo.

Esse espaço que abrimos só foi possível devido a muito trabalho em equipe, pois não temos apoios de marcas e nem governos.

Muitos dizem que o esporte de escalada está crescendo no Brasil, porém são raros os atletas com patrocino; apoio e os campeonatos minguaram. Na sua opinião porque existe este paradoxo?

Bom, não conheço muito sobre os campeonatos que acontecem.

Foto : Layla Rostoldo

Foto : Layla Rostoldo

Com o pouco tempo que tenho na escalada vejo que o crescimento dela no Brasil é real e vejo muita divulgação de eventos no estilo de festival.

Nós da ACE sempre conseguimos apoio para os nosso eventos, principalmente brindes para os sorteios. Mas não sei como está a situação nas demais regiões.

E sobre os campeonatos estarem minguando acredito que a escalada como um todo esta evoluindo, mas ainda se firmando aqui no Brasil. E enquanto isso não acontece, essas variações são naturais do processo.

Você possui uma rotina rígida de treinos? Como você se prepara para seus projetos?

Há alguns meses retornei para o Muro da ACE e iniciei um treino mais disciplinado, com ajuda dos meninos, principalmente do Naoki Arima.

Sempre fui de frequentar o muro para procurar manter o corpo acostumado com a atividade, mas essa é a primeira vez que sigo um treino programado 2 vezes por semana e está sendo maravilhoso.

Além do muro de escalada há pouco mais de 2 meses comecei a praticar Yoga e já sinto evolução no conhecimento dos meus movimentos trabalhando junto com a minha respiração.

Sobre os meus projetos, até então nunca fiz nada diferente em treinos, apenas foco na via e sempre que possível entro para batalhar ela. Tenho uma imensa facilidade em gravar os movimentos, então a melhor forma de treinar um projeto para mim é entrando nele..(risos)

Existe algum projeto a cumprir para este no de 2013?

Meu projeto é me firmar novamente na escalada, recuperando minha confiança e concentração. Até aparecer uma via de apaixonar para batalhar novamente.

Porque, sinceramente…

Amoooo ter aquela via para deitar a noite pensando nos “movs” e até sonhar esperando ansiosa para o próximo dia de escalada.

E me parece que encontrei ela!!

Mas vamos ver…rs

Para as mulheres que estão pretendendo começar a escalar, ou até mesmo iniciando, você tem alguma mensagem a elas?

Foto : Monstro Fotografia

Foto : Monstro Fotografia

Meninas, para quem pretende começar, comece!

Escalada é algo único, algo que para mim palavras não conseguem expressar.

Vá e sinta o que ela significará para você!

E para as iniciantes, se encontre!

Encontre seu estilo, encontre seu movimento, encontre suas motivações!

E quando aparecer alguma dificuldade, pode acreditar, que não haverá sensação melhor de ver que passou por ela.

E isso você levará contigo para sua vida dentro e fora do esporte.

E será algo que ninguém poderá te tirar.

Agradeço muito ao blog de escalada pelo espaço e oportunidade.

Nos encontramos nas escaladas.

Abraços Bons ventos!!!

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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