[EXCLUSIVO] Entrevista com Felipe Alves

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Foto : Naoki Arima

Que o esporte de escalada está crescendo a passos largos é inegável.

Entretanto há de lembrarmos que o esporte é construído de pessoas com humildade e humanidade.

São estas pessoas que fazem com que o esporte deixe de ser uma “moda passageira” e tenha um verdadeiro conhecimento e reconhecimento do público em geral.

Uma destas pessoas é Felipe Alves, escalador do estado do Espírito Santo.

Por sua índole singular é reconhecido por quem o conhece como um dos escaladores mais destacados do estado capixaba, e merecedor de todo e qualquer quer elogio acima descrito.

O Blog de Escalada procurou Alves para uma entrevista, no que fomos prontamente respondidos.

Foto : Naoki Arima

Foto : Naoki Arima

Leia abaixo à entrevista :

Felipe, hoje muitos escaladores do Espírito Santo tem conseguido marcas expressivas na escalada. Você saberia enumerar os fatores deste fato?

Acho que por muito tempo o Espírito Santo ficou guardado ou desacreditado de que aqui poderia ser um bom lugar para se escalar.

Por muito tempo foi construída a imagem das grandes paredes, das escaladas longas e tradicionais, o que de fato é, mas nunca se acreditou tanto que poderíamos ter vias esportivas de grande qualidade.

Nos últimos 5 anos tivemos um verdadeiro crescimento na quantidade de vias esportivas e com esse crescimento foi inevitável o surgimento de vias com graduações mais elevadas.

Poder provar essas vias é acreditar que podemos desenvolver e parear o Estado com outros lugares do país e eu responsabilizo a esse fator, as marcas expressivas que os capixabas têm alcançado, sem dúvida não poderíamos realizar nada do que fizemos se não tivéssemos aqui dentro do quintal de casa, essas marcas.

Não há academias grandes no Espírito Santo para treinar, como você faz para manter a forma?

Foto : Danilo Sant'anna

Foto : Danilo Sant’Anna

Bom, acho que antes de qualquer grande estrutura, primeiro é importante ter motivação.

Muito antes de termos o nosso singelo espaço de treinos, na sede da Associação Capixaba de Escalada, a ACE, eu já gostava de treinar, tenho grande apreço pelas horas de treino.

Hoje em dia, mantenho um treino duas vezes por semana no muro da Ace, alternando sempre a resistência e a força, uma corrida de 6km, uma vez por semana e outras coisinhas mais.

Tento buscar informações, e o mais importante, busco sempre treinar com os amigos, a final, sempre aprendemos alguma coisa com eles. (risos)

O ano de 2013 está muito próximo de acabar, você conseguiu realizar algum projeto?

Já havia algum tempo que vinha treinando para tentar alguma coisa que fosse ao meu limite, no começo do ano o desafio era mandar um 9c.

Foto : Naoki Arima

Foto : Naoki Arima

Para minha surpresa, a linha saiu mais rápido do que imaginava, daí suspeitava estar acima da graduação.

O projeto então era mandar algum 10a, mas o problema é que aqui no estado nós não tínhamos.

A solução seria abrir um 10a ou buscar alguma via mais conhecida fora das terras capixabas.

No caso, fiz as duas coisas.

Com a ajuda de alguns amigos, abrimos uma linha de preenchimento em um setor que já se mostrava muito forte e sem perder tempo, já fui escalando e fazendo o F.A. (First Ascent) da via.

Demos a ela o nome de Transatlântico e a via recebeu a honra de ser o primeiro 10a do estado.

Alguns dias depois, acompanhado de dois amigos, consegui em uma viagem para Minas Gerais, encadenar outros dois 10a´s em dois dias. É claro que a vontade de escalar outros não acabou, mas para esse ano, já considero uma realização e tanto.

Este ano até o final de novembro nenhuma federação se manifestou a organizar campeonatos. Qual o motivo deste desinteresse na sua opinião?

Foto : Danilo Sant'anna

Foto : Danilo Sant’Anna

Confesso que não sou muito de acompanhar os feitos realizados em campeonatos.

Realizo treinos no muro de escalada, mas a escalada de competição, para mim, não tem sido prioridade.

Talvez por isso eu não tenha uma opinião formada, quanto à organização de campeonatos por parte das federações.

Muitos dizem com orgulho que escalda é um estilo de vida. Você saberia definir o que seria o estilo de vida do escalador?

Em minha opinião, quando você se propõe fazer alguma coisa com muita dedicação e envolvimento isso acaba se tornando seu estilo de vida.

Por exemplo: quando você acaba de ser admitido numa empresa, você passa a participar das reuniões, seus horários giram em torno das propostas que a empresa assume, você tem um horário de almoço e um horário pra sair e na escalada, na minha opinião, não é diferente.

Programações para o final de semana, preparações para mandar aquela via, adaptações de treinos, logísticas para viagens, mais treinos, chegar cedo na pedra e ir embora mais tarde, treinar mais, mudar a alimentação enfim esse envolvimento que temos e que a escalada nos proporciona é que eu considero o estilo de vida do escalador.

Muitos eventos de escalada aconteceram este ano de 2013. Você acredita que o esporte esteja crescendo com número expressivo de iniciantes?

De um modo geral, acredito sim, pelo menos é o que tem acontecido aqui no nosso estado.

Foto : Naoki Arima

Foto : Naoki Arima

A galera, com muito esforço, tem realizado eventos bacanas por aqui.

A clássica abertura de temporada de escalada desse ano, contou com a participação de 110 pessoas e a grande maioria era de iniciantes.

Acho que nós aqui no ES, estamos presenciando uma das melhores épocas da escalada capixaba, em termos de praticantes.

Os incidentes com escaladores que desrespeitam locais de escalada sempre acontecem, a que você deve este fato?

A falta de conhecimento, da educação ensinada.

Qualquer um que se comprometa a buscar um pouco mais de informação, sobre a área de escalada que for frequentar, já vai reduzir consideravelmente o numero de incidentes.

Se alguma pessoa tiver vontade de iniciar no esporte, qual seria o seu conselho a ela?

O meu conselho é para que essas pessoas se aproximem primeiro, mas se aproximar de uma forma mais passiva, como observadora.

Vejo muitas pessoas entrando no esporte sem conhecer absolutamente nada, conheça o esporte antes, pergunte, leia sobre o assunto, participe, assista. E num segundo lugar, meu conselho é que essa pessoa se dedique à escalada o máximo que ela puder, que ela possa se divertir, que escalar seja prazeroso, seja desafiador para você, que seja intrigante.

Maioria das marcas de equipamentos outdoor existentes no Brasil não investem em atletas nem no crescimento do esporte. Qual motivo você credita esta omissão?

Bom, o pouco que tenho acompanhado tenho visto algumas marcas apoiando eventos e atletas, uma realidade totalmente diferente da que existia há 10 anos.

Hoje, temos sim, algumas marcas efetivando o “apoio” para alguns atletas, agora se tratando de patrocínio e investimento, realmente não temos. Acredito se tratar de um alinhamento de interesses entre empresas e atletas, talvez. Apenas especulação. (risos)

Se fosse para você enumerar quais são os melhores lugares de escalda do Brasil, quais seriam?

Bom, não conheço muitos, mas vamos lá:

  1. Serra do Cipó (clássico !!) ||
  2. Falésia dos Olhos, em São Bento do Sapucaí ||
  3. Calogi, ES (precisava puxar a sardinha pra minha terra.)
Foto : Danilo Santa´Anna

Foto : Danilo Santa´Anna

Não tenho dúvidas que existem muitos outros lugares fascinantes e incríveis, e não posso desmerecer lugares como a Pedra da Divisa, Lapa do Seu Antão, Lapinha, Gruta de Passa Vinte, enfim…difícil enumerar quando no final o objetivo é escalar.

Algumas pessoas valorizam em excesso o valor do escalador pelo grau que escala. O que você pensa deste tipo de filosofia?

Acho que existe um horizonte muito maior quando olhamos para o escalador como pessoa, até porque, são duas coisas completamente diferentes, o escalador e a escalada.

Sinceramente, pensar dessa forma, é tornar esse universo da escalada mais diminuído, menos amplo, menos conhecido, menos apreciativo, menos belo.

Não sou muito fã dessa filosofia.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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