[EXCLUSIVO] Entrevista com Douglas Sawaki – Administrador do site “Turismo Backpacker”

216397_1963137993336_2368287_n[1]No ano passado o mochileiro e administrador do site Turismo Backpacker realizou a mais completa pesquisa a respeito do perfil do mochileiro brasileiro.

Sawaki realizou a pesquisa junto de sua esposa Júlia.

A imortância disso para o público entusiasta de esportes de natureza se justifica por se um mochileiro em potencial.

Dormir em albergues, acampar em lugares que rende muitas histórias divertidas e emocionantes, viajar por meio de transportes não convencionais estão entre as inúmeras características em comum de mochileiros e amantes da filosofia de vida outdoor.

O resultado completo da pesquisa foi publicada recentemente e o Blog de Escalada foi atrás de Douglas para saber mais sobre os detalhes dela.

Leia a entrevista abaixo :

Douglas, viajar de mochilão é a melhor e mais prazerosa forma de descobrir o mundo?

Para mim é! 189708_1868099737439_7024999_n[1]

A mochila dá uma sensação de liberdade maior e traz um ar de aventura. 

Muitas pessoas tem aversão à viajar de mochilão e para essas pessoas, eu sempre digo que devem pelo menos experimentar uma vez.

Mas eu também viajo com mala de rodinha, depende da situação.

Qual foi o seu primeiro mochilão? E o melhor?

O primeiro mochilão de colocar o pé na estrada por um longo período foi em 2007, antes disso foram só viagens de final de semana ou de feriado prolongado, por questão ou de tempo ou de dinheiro.

O primeiro mochilão foi também o melhor.

mochilao-6Eu e minha esposa passamos quase 5 meses viajando pela Ásia, sem pressa, sem aquela busca desenfreada por muitas carimbadas no passaporte.

A intenção era mergulhar na cultura e fazer descobertas, por isso, viajamos sem pressa.

Viajar correndo de um destino a outro não nos permite perceber as pequenas sutilezas de cada destino e cultura, pois apenas dá tempo de passar rapidamente o olho e seguir adiante.

Conhecemos 8 países, alguns de forma mais profunda (Indonésia, Tailândia, Vietnã e Índia) e outros de forma mais rápida (Singapura, Malásia, Camboja e Emirados Árabes Unidos).

Como você visualiza a popularização de realizar viagens de mochilão?

O turismo de mochilão tem no Brasil uma característica interessante. mochilao-5

Aqui é comum pensar que basta uma grande mochila para ser mochileiro, enquanto que em outros países a cultura mochileira tem muito mais a ver com um estilo de viajar que transcende as viagens e se torna um estilo de viver.

Algumas empresas brasileiras perceberam há anos a forte fatia do mercado que é esse segmento.

Aqui, uma parcela dos mochileiros faz mochilão com pacote de viagem comprado de operadoras de turismo, porque aqui o conceito é que ‘basta viajar de mochila ao invés de mala de rodinha’.

Não acho que isso seja certo ou errado, só estou dizendo que é diferente.

Até pode ser que esse seja o caminho para acabar com o preconceito no Brasil com relação aos mochileiros.

mochilao-4Os diferentes perfis (chamados de nichos) de mochileiros são muito mais perceptíveis aqui no Brasil, e isso pode ser bom para o desenvolvimento desse tipo turismo no país, pois a visão que se tem sobre os mochileiros ainda é muito distorcida da realidade.

Essa popularização das viagens de mochilão vai expor a força consumidora desse mercado e assim, cada vez mais, a cultura mochileira poderá ser mais aceita no Brasil.

Como surgiu a sua iniciativa de realizar um estudo tão minucioso sobre a prática de turista de mochila no Brasil?

Eu e minha esposa somos formados em Turismo e Hotelaria. 

Quando fomos morar no Japão, nós trancamos a matrícula da universidade aqui no Brasil.

O mochilão na Ásia aconteceu na volta ao Brasil, antes do destrancamento da matrícula.mochilao-3

Durante a viagem, nós vimos como o turismo mochileiro movimenta muito a economia dos lugares por onde passamos e vimos que, ao contrário do que se pensa no Brasil, o turismo de luxo não é a melhor opção de desenvolvimento econômico, pois esse tipo de turismo é excludente e não proporciona benefícios equilibrados à todos que trabalham no setor.

Já o turismo mochileiro é mais igualitário, proporciona benefícios econômicos à uma gama maior de empreendedores, comerciantes e prestadores de serviços, além de proporcionar atividade turística em lugares fora do eixo turístico, espalhando mais e melhor os benefícios.

mochilao-2Isso foi uma observação empírica, que precisava ser estudada para ser afirmada como verdadeira. Foi então que quando voltamos à universidade, começamos a estudar o fenômeno mochileiro.

Pesquisamos em livros e artigos científicos, quase todos do exterior, pois no Brasil não havia quase nada sobre o assunto.

A partir daí escrevemos um artigo entitulado “Mochileiros: um segmento a ser explorado no Brasil” (que apresenta os benefícios econômicos, sociais e ambientais) e apresentamos em um seminário em 2008 na Universidade de Caxias do Sul.mochilao

Em 2010, realizamos o estágio final da universidade na EMBRATUR, órgão do governo que planeja e executa as ações de marketing do Brasil para atrair turistas estrangeiros.

Na ocasião o tema do meu TCC foi “Inserção do segmento mochileiro no Plano Aquarela do Instituto Brasileiro de Turismo – EMBRATUR”, no qual estudei o perfil e as motivações dos mochileiros, analisei o mercado interno e externo do turismo mochileiro, apresentei dados de países que consideram os mochileiros como mercado-alvo.

Analisei como outros países trabalham a divulgação da imagem como ‘destino para mochileiros’ e apresentei perspectivas para o Brasil.

mochilao-7Baseado nisso o trabalho sugere a inclusão do segmento no plano de marketing do Brasil.

Nesse momento, já tinha certeza de que o Brasil precisa se desenvolver para o turismo mochileiro, de forma estruturada e bem planejada.

Percebi que poderia contribuir para isso com o trabalho de consultoria.

Porém, praticamente tudo o que havia estudado a respeito do mercado backpacker se referia aos mochileiros estrangeiros, por isso houve a necessidade de conhecer a fundo o perfil dos mochileiros brasileiros.

Alguma empresa se interessou pelos dados coletados por você?

Sim.

Em 2012, alguns dados foram apresentados no “Encontro anual de proprietários de albergues da juventude’, realizado pela Federação Brasileira de Albergues da Juventude (FBAJ), representante no Brasil da rede mundial de hostels, a Hosteling International (HI Hostels). entrevistabackpacker

Agora em 2013 algumas universidades com curso de turismo e hotelaria estão entrando em contato para apresentarmos os dados aos alunos.

Há ainda dados não publicados, analisados de forma segmentada.

Por exemplo, perfil das mulheres mochileiras, perfil dos mochileiros de renda mais elevada, perfil dos mochileiros de cada faixa etária, perfil dos mochileiros residentes em cada região do país, entre outros.

Quais foram as surpresas descobertas por você quando obteve o resultado final da sua pesquisa?

entrevista-2Já imaginávamos algumas características específicas, que foram observadas durante a viagem de 2007, mas sempre que falávamos sobre isso despertávamos certa desconfiança.

A pesquisa confirmou essas hipóteses e mostrou que o conhecimento geral que se tem dos mochileiros no Brasil é baseado em preconceitos e generalizações.

Por exemplo, 60% dos mochileiros brasileiros tem graduação universitária, 21% tem pós-graduação/especialização e 5% fez mestrado ou doutorado. 20% tem renda entre 6 e 10 salários mínimos e 11% tem renda mensal acima disso.

Durante as viagens, 20% preferem lugares mais caros e exclusivos, seja nos restaurantes, seja nos meios de hospedagem.

Esses dados mostram que os turistas mochileiros não podem ser generalizados como pessoas de renda baixa, de baixa escolaridade e que não gastam nada ao viajar.

O mercado consumidor é forte e precisa ser considerado pelos planejadores e gestores do turismo no Brasil.

Você também mantém um dos mais visitados blogs de mochilão do Brasil. O quanto isso ocupa do seu tempo?

Hoje meu trabalho se divide entre o blog e a consultoria em desenvolvimento do turismo backpacker, que inclui planejamento destinos turísticos, de empreendimentos turísticos, de plano de marketing, entre outros.mochilao-8

Eu e minha esposa trabalhamos com o blog todos os dias, algumas horas escrevendo os artigos e outras realizando outros trabalhados provenientes dele, intercalando com a consultoria.

Você tem algum projeto de viagem para o ano de 2013? Qual seria?

Apesar de ter uns destinos em mente, por enquanto não temos nada planejado.

Estamos juntando informações para tentar viabilizar ainda esse ano.

O que dizer a uma pessoa que nunca praticou mochilão a fazê-lo?

Digo sempre para fazer um mochilão nem que seja uma vez.

Se você só tem mala, pegue uma mochila emprestada e use na próxima viagem. 

Tente fazer um roteiro independente, sem pacote de viagem e explore sua natureza desbravadora.

Viaje com a intensão de se auto-descobrir, você vai se surpreender.

Se fosse para você listar 5 destinos dos seus sonhos a se realizar um mochilão (caso ganhasse ne mega-sena por exemplo)?

mochilao-9Listar 5 destinos é muito difícil, se fossem 5 roteiros incluindo alguns países ficaria fácil, afinal como você disse, eu ganhei na mega-sena, certo?

Dois países que estão na bucket list faz tempo é a Austrália e a Nova Zelândia, não só pelos atrativos, mas também pelo que representam no cenário do turismo backpacker mundial.

Espero poder passar um bom tempo por lá, inclusive estudando esse tipo de turismo.

Os outros 3 destinos são Bolívia, Peru e Cuba.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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