[EXCLUSIVO] Entrevista com Débora Nasciutti

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Dentro do universo outdoor brasileiro, e mundial, há sempre “escondidas” pelos mais diversos lugares pessoas interessantes.

Ao contrário do que pensam alguns com visão míope de qualquer esporte todos os praticantes de qualquer nível de dificuldade são representantes dele.

Cada escalador representa sim a escalada, assim como cada corredor representa o universo de corridas, cada trekkeiro representa o mundo do trekking e assim por diante.

Cada um é responsável pela imagem que o público não praticante tem do esporte

Por conta deste fato, procuramos a simpática Débora Nasciutti para conversar.

Nasciutti é escaladora fanática e reside em Belo Horizonte sendo reconhecidamente “figurinha carimbada” nos locais próximos Lapa do Seu Antão, Lapinha e Serra do Cipó.

Sempre muito simpática segue antenada em assuntos de escalada e aspectos da vida.

Com respostas precisas e interessantes Débora esbanjou inteligência, opinião e maturidade.

Acompanhe a entrevista abaixo:

Débora , o numero de mulheres que escalam no Brasil cresceu muito nos últimos anos. Para você qual o impacto deste novo perfil do praticante de escalada?

PAIXÃO DE CRISTO- 7B ANTÃO - BY THALYTA

Foto: Acervo pessoal Débora Nasciutti

Independente de qual seja, elas estão descobrindo que podem ir além de uma academia, que podem ser fortes o bastante para praticar um esporte que “rotulam” ser para homens.

E não só no quesito força, mas mostramos que somos capazes de praticar um esporte radical sem perder nossa feminilidade, nossa delicadeza e leveza ao escalar.

Ou seja, estimulamos mais mulheres a praticar esportes, a competirem, se tornarem até grandes atletas, onde até então o foco eram somente homens.

Acredito que a escalada ganha mais força.

Somos admiradas pelo mundo todo por fazermos parte dessa tribo e como é bom saber que a escalada acolhe não só mulheres, mais crianças, idosos, deficientes físicos, etc.

Quanto mais pessoas acreditarem que são capazes de enfrentar seus medos e concluir desafios cada vez mais difíceis, mais força e visibilidade a escalada terá!

Ser escaladora e residir em Belo horizonte facilita a vida de quem pratica o esporte?

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Foto: Helia Prates

Claro que existem outras cidades incríveis para praticar escalada, mas Belo Horizonte está repleta de picos a sua volta.

São muitas opções e em todas elas possuem uma quantidade de vias e boulders inacreditáveis.

Além disso, os escaladores mineiros não param, sempre abrindo novos desafios em todas as modalidades de escalada, para que cada vez mais pessoas possam visitar e conhecer essa diversidade de pedras que possuímos.

Aqui eu vejo paixão pelo esporte, organizamos cada vez mais festivais reunindo gente do mundo inteiro!

Quem quer tradicional encontra lugares paradisíacos, quem quer esportiva ou boulder encontra picos para todos os gostos e dificuldades.

É eu tenho orgulho de morar aqui!

No ano de 2013 não houve a organização de campeonatos de escalada. na sua opinião, você acredita que as competições de escalada são viáveis?

Sim.

Para mim não teve por falta de interesse das academias.

Nós escaladores fazemos de tudo para organizar cada vez mais festivais de escalada e as academias deveriam fazer o mesmo.

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Foto: Acervo pessoal Débora Nasciutti

Tenho certeza que apoio não falta, é importante que as competições aconteçam, não só para estimular o esporte, mas para promover um encontro entre escaladores, a união é muito importante para ganharmos visibilidade e reconhecimento.

Se isso não acontecer, nossa escalada jamais ganhará foco como no exterior.

Você acredita que “amigos” e “parceiros de escalada” são duas coisas diferentes?

MURO DE BERLIM - 7B - LAPA DO SEU ANTÃO BY THALYTA

Foto: Acervo pessoal Débora Nasciutti

90% dos meus amigos são escaladores, pessoas que confio minha vida na pratica do esporte.

O “parceiro de escalada” é aquele que te da segurança, que te motiva a ultrapassar seus limites, que te faz companhia nas viagens, não tem como, acabamos nos tornando uma família. Onde dividimos conquistas, momentos difíceis…

Não me imagino pedindo seg a uma pessoa que considero meu “coleguinha de climb” rsrs.

É preciso ter confiança nessa pessoa e se você confia sua vida nela, serão amigos pra vida toda!

O esporte da escalada ainda é um esporte predominantemente masculino. Você como mulher como administra as inevitáveis cantadas de escaladores?

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Foto: Helia Prates

Cantadas são inevitáveis em qualquer lugar, mas nós mulheres somos muito unidas na pedra e deixamos claro que viemos pra escalar, levamos na brincadeira e eles respeitam principalmente as comprometidas.

Se a cantada não funciona acaba crescendo uma grande amizade de respeito e parceria!

Confesso que vejo muita amizade entres homens e mulheres na escalada e isso tem se fortalecido cada vez mais.

Na sua opinião qual seria o estilo de vida de um típico escalador?

Escalador é aquele que morre de preguiça de acordar cedo pra trabalhar, mas pula da cama as 5h da manhã no sábado pra ir para a pedra. Rsrs

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Foto: Helia Prates

Brincadeiras a parte, a escalada é um estilo de vida.

Viajar, conhecer novos picos, dar mais valor a natureza e o que se pode ter dela.

E sem essa que escalador não trabalha e não ganha dinheiro.

Acredito que tudo pode ser casado.

Trabalhamos, ralamos a semana toda, mas não abrimos mão da evolução e curtição no esporte.

Tornamo-nos pessoas mais calmas, valorizamos um ambiente sem estresse, optamos por termos qualidade de vida!

Quais são os melhores lugares de escalada que já visitou? Porque?

Não tive a oportunidade de escalar fora do Brasil ainda, e os poucos picos que conheço pra mim são os melhores.

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Foto: Acervo pessoal Débora Nasciutti

Prefiro valorizar o que tenho aqui pertinho de mim, a Serra do Cipó é referencia mundial, não tem como.

A quantidade de vias é quase interminável, você pode passar a vida morando e escalando ali do lado e ter sempre via nova!

Bocaina também está cada dia mais conhecida, pela diversidade de vias esportivas longas.

Sem contar com a infinidade de boulders em Ouro Preto e seus tetos perfeitos, Sabará considerada a Rock Lands brasileira e Conceição do Mato dentro que é a paixão dos escaladores mineiros.

Santa Catarina também é incrível, é uma escalada mais dura, menos repetição, mais dor na mão! Kkk

Gosto de lá pelo clima, totalmente diferente de MG, as pedras abrasivas deixam o desafio ainda mais difícil, e tem muito a crescer ainda!

Rio de janeiro não preciso nem comentar, um visual completamente diferente, as tradicionais pra mim são as melhores do Brasil.

Muitos escaladores procuram patrocínio para se dedicar mais ao esporte. Na sua opinião porque as marcas brasileiras se esquivam de patrocinar atletas de escalada?

jONNY QUEST CIPÓ. BY BARÃO

Foto: Acervo pessoal Débora Nasciutti

Não é um esporte popular…

A escalada ainda tem muito o que conquistar pra ganhar visibilidade.

E também por falta de querer impulsionar o esporte. As marcas não têm interesse em investir como no exterior, não tem verba pra manter um atleta e muito menos pra torná-lo conhecido mundialmente.

Acho o cúmulo as marcas brasileiras não impulsionarem os atletas a participarem de campeonatos fora do Brasil.

Já vi atleta tendo que vender equipamento pra conseguir comprar passagem aérea!

Um absurdo!

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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