[EXCLUSIVO] Entrevista com Andrey Romaniuk

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Ao contrário do que pensam pessoas que não vivem o universo de esportes de natureza o universo da escalada é povoado por pessoas interessantes de conhecer.

Andrey Romaniuk é uma destas pessoas do esporte outdoor que apesar de ser discreto, vive intensamente sua paixão pelo esporte.

Romaniuk é um  apaixonado escalador de escalada com proteções móveis, e procura vive-la na sua maior intensidade, e maior grau de paixão possível.

Andrey correu atrás de seu sonho, e foi o único brasileiro a participar do “International Climbers Meeting” que iria acontecer em Yosemite (porém por problemas políticos foi transferido de lugar).

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Para conhecer um pouco mais deste apaixonado escalador o Blog de Escalada procuramos Andrey Romaniuk para uma conversa que resultou em uma interessante entrevista, leia abaixo:

Andrey, você é um escalador fanático de escalada em móvel. De onde vem esta paixão?

Primeiramente gosto de deixar claro que todas as modalidades de escalada são complementares, e não existe uma modalidade “melhor” que a outra.

Cada uma delas tem suas peculiaridades, algumas são mais complexas e outras de abordagem mais simples.

O ideal seria que todos escaladores praticassem de boulder a big wall, mas muitas vezes acabamos tendo preferência pelo estilo que escalada que nos adaptamos melhor.

Pessoalmente gosto muito de escalar fendas e fazer entalamentos, e me encaixo melhor neste estilo.

AndreyIsto já é um fator que conta muito para minha preferência, porém existe também a questão mental/psicológica que me atrai, pois é peculiar na escalada em móvel.

Outro quesito é a ética da escalada “limpa”, ou seja, quando se procura causar o mínimo impacto no ambiente vertical. Estes são alguns dos fatores que dão certa complexidade a esta modalidade, e que talvez acabam me fascinando.

Existe algum treinamento específico para quem deseja escalar neste estilo?

O melhor treino para qualquer modalidade de escalada é escalar.

Para a escalada em móvel podemos levar em conta dois aspectos que considero importantes:

Fisicamente, é preciso aprender a adaptar seu corpo a rocha, e isto significa entalar mãos, dedos, joelhos e outras partes do corpo.

Muitas pessoas não gostam de fazer isso, pois como já falei, temos uma tendência a não gostar do que temos dificuldade em fazer.

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Algumas vezes há de se lidar com a dor, porém em outras pode se descobrir uma gratificação imensa.

Mentalmente, é importante ter uma percepção sobre os aspectos de si mesmo.

Muitas das maneiras as quais reagimos no meio de uma escalada/via refletem as mesmas respostas que damos em nossas vidas cotidianas, durante outras situações.

O escalador que consegue dar-se conta de seu funcionamento neste sentido já está um passo além para a evolução, não só em sua escalada, mas também em sua vida pessoal.

No Brasil hoje quais são os melhores lugares para escalada em móvel?

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Aqui no Paraná temos lugares excelentes, como o Setor 3 em São Luiz do Purunã, e novos setores sendo desenvolvidos atualmente em Piraí do Sul.

São locais com escaladas de alta qualidade, com vias que não deixam nada a dever as fendas gringas.

Também não posso deixar de mencionar o Marumbi, que dispensa maiores apresentações.

Fora do Paraná conheço alguns locais com escaladas mais longas, como São Bento do Sapucaí (SP), Andradas (MG) e Salinas (RJ).

Também tenho ótimas referências que gostaria de visitar em breve, como Rio dos Cedros e Serrinha, em SC, e também a Serra do Lenheiro e Cipó, em MG.

Você parece sempre estar na estrada vivendo o sonho de estar sempre escalando. Há algum segredo para isso?

Yosemite - via Separate Reality

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Como todo trabalhador tiro férias apenas um mês por ano, e é o tempo que tenho para realizar algumas viagens maiores.

Também trabalho com venda informal de equipos, que satisfaz um pouco meu desejo em trabalhar com algo relacionado a Montanha.

Os equipamentos utilizados para a escalada em móvel são caríssimos. Você acredita que é possível reverter este quadro?

No Brasil, o preço alto não se restringe somente aos equipamentos móveis.

Pagamos alto para adquirir qualquer bem, devido às grandes taxas de impostos e outros problemas que não convém detalhar aqui.

Atualmente os materiais móveis são muito mais acessíveis do que há alguns anos atrás, e existem diversas maneiras de adquiri-los de maneira informal, sendo peças novas ou usadas com preços mais justos.

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Foto: Acervo Pessoal Andrey Romaniuk

Além disso, se pensarmos que a durabilidade de uma peça móvel é normalmente a mesma que qualquer ferragem, isto é, pode ser usada por vários anos, veremos que o investimento não é tão alto quanto parece.

Apesar disso, não acho que o fator “preço” seja o maior motivo pelo qual muitas pessoas não pratiquem escalada em móvel no Brasil.

Ainda existe uma grande mitificação de que escalada em móvel é algo perigoso, arriscado ou assustador.

Desde que o indivíduo saiba o que está fazendo, é possível ter praticamente todo o controle sobre o nível de risco que está disposto a encarar.

Da mesma maneira que na escalada com proteções fixas é possível escolher as vias mais seguras ou expostas, existem tantas vias em móvel bem protegidas nos diversos graus de dificuldade que você pode passar sua vida toda escalando somente as mais seguras.

Muitos dizem com orgulho que escalada é um estilo de vida. Você saberia definir o que seria o “estilo de vida” de um escalador?

A escalada “pode” ser um estilo de vida.

Não significa necessariamente que todos os praticantes vivam este estilo.

Há pessoas que gostam de escalar, alguns esporadicamente, possuem também outros objetivos de vida, e são felizes desta maneira.

Outros tem a montanha como tema central de suas atividades, e planejam seus objetivos de vida em torno deste tema.

De qualquer maneira, todos estão buscando um modo de viver felizes com o que lhes satisfaz.

Muitos eventos de escalada aconteceram este ano de 2013. Você acredita que o esporte esteja crescendo com número expressivo de iniciantes?

Acredito que a tendência é de crescimento sim.

Porém é importante que este crescimento não venha somente em número de participantes, mas também com o desenvolvimento nas diversas modalidades de escalada e na cultura de montanha, com evolução da ética, abertura de vias, publicação de textos, livros/guias de escalada, organização de eventos, etc.

Os incidentes com escaladores que desrespeitam locais de escalada sempre acontecem, a que você deve este fato?

Falta de conhecimento, de postura ética, e de respeito ao próximo e a natureza.

Maioria das marcas de equipamentos outdoor existentes no Brasil não investem em atletas nem no crescimento do esporte. Qual motivo você credita esta omissão?

Penso que este é um tema complexo. São muitos fatores envolvidos, e é preciso ver os dois lados da moeda.

Muitas empresas realmente se preocupam em incentivar o esporte, mas acabam esbarrando em outros problemas que dificultam ou até impedem esta prática.

É importante lembrar que um investimento objetiva um retorno.

Também existem empresas que não levam isto tão a sério, pois nem ao menos respondem um projeto de apoio.

Apesar da parte individual do atleta sofrer mais dificuldades neste sentido, vejo que em eventos e publicações de montanhismo/escalada as marcas outdoor estão sempre presentes apoiando de alguma maneira.

Algumas pessoas valorizam em excesso o valor do escalador pelo grau que escala. O que você pensa deste tipo de filosofia?

Como diz um parceiro de escaladas que admiro muito: “Cada um sabe do seu mérito”.

Atualmente a mídia, especialmente brasileira, explora muito esta questão do grau, e esquece outros aspectos da escalada, como a ousadia ou “aventura”.

Diversos feitos importantes estão sendo realizados pelo país sem grande cobertura da mídia, como abertura/repetições de vias duras e ousadas ou mesmo escaladas em solo integral.

A escalada não pode ser desconectada totalmente da aventura, esta é a essência da Montanha.

O escalador mais valioso é o que tem o Espírito da Montanha, e que contribui para o desenvolvimento desta atividade.

O ano de 2013 está por acabar, você conseguiu realizar algum projeto pessoal neste ano?

Este ano foi um pouco conturbado, pois passei por uma cirurgia no joelho que me afastou por quase 2 meses das Montanhas.

Aproveitei este tempo para trabalhar bastante no guia de escaladas do Morro do Canal, que estou escrevendo junto com Josman De Marchi Alves, e deverá ser lançado em breve.

Apesar da cirurgia consegui me recuperar bem, e na verdade o ano vai começar agora pra mim, pois estou indo novamente ao Yosemite em Outubro.

Irei passar o mês todo por lá, e também participarei pela segunda vez do Encontro Internacional de Escaladores promovido pelo American Alpine Club, como único representante Brasileiro.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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