[EXCLUSIVO] Entrevista com André Neres

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Conciliar família, trabalho e escalada é uma tarefa difícil e nem sempre é possível.

Ser escalador profissional, destaque no esporte do seu país mesmo sem possuir um ginásio de escalada na sua cidade é tarefa mais árdua ainda.

Porém o português André Neres conseguiu com maestria realizar todas estas tarefas com maestria.

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Sempre esbanjando simpatia, educação e humildade o escalador luso é sem dúvida referência em seu país, figurando como o primeiro 9a Francês (11c brasileiro) .

Sempre carismático Neres protagonizou o filme “9a Road” sobre a sua busca pela cadena, e que contou um pouco sobre sua vida e maneira de ser.

André é um exemplo cristalino de como um escalador jovem deva se espelhar.

Tanto que é patrocinado por grandes marcas (algumas existentes no Brasil mas que menosprezam sistematicamente atletas e eventos).

Por tantas qualidades a Revista Blog de Escalada procurou o escalador para uma entrevista a qual ele esbanjou simpatia, e contou um pouco mais sobre sua vida, leia abaixo.

 André você entrou para a história de seu país como o primeiro a encadenar um 9a, o que representa isso para você?

Poucos meses antes de eu encadear a estado critico o Leopoldo Faria fez a primeira ascenção de uma via no sul de Portugal, á qual ele propôs 9a, todavia sem repetições nem confirmações essa será sim a primeira proposta de 9a em Portugal.

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Foto: Ricardo Alves

Em seu filme você cita o fato de não existir ginásios para você treinar. Como se mantém motivado e em forma para a escalada?

Faço muitas viagens para Espanha e França, a Cataluña fica a 1200 kms da minha casa.

Perto de onde vivo existe também uma zona de escalada com potencial enorme (Meio Mango), equipo muito por lá e tenho vários projectos duros que me vão motivando e mantendo ocupado, mas sim, sinto muita falta de um local para treinar e poder evoluir fisicamente.

­ No Brasil as competições de escalada definharam a ponto da federação não mais pagar a taxa do IFSC. Como estão as competições de escalada em Portugal?

Em Portugal temos outro problema, existem duas federações que não se entendem.

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Uma tem o dinheiro e a outra os escaladores, é uma longa história mas basicamente vão havendo algumas competições mas com poucas condições, as estruturas são de fraca qualidade e há pouco dinheiro para organizar eventos melhores.

Por exemplo há 2 anos que não se faz uma competição de vias, ultimamente apenas se organizam de boulder pois é o que as poucas estruturas existentes permitem.

Se eu quiser ir competir na Copa do Mundo tenho de pagar todas as minhas despesas e ir sozinho, ou seja, o panorama federativo também não está famoso aqui em Portugal.

Você possui hoje vários patrocinadores. Existe algum segredo para que um escalador conseguir patrocínio?

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Foto: Ricardo Alves

Criar esse “interesse” é sim talvez o “segredo” e o nosso trabalho enquanto atleta, todos nós conhecemos escaladores extremamente fortes que não se promovem logo não têm os apoios que gostariam e também conhecemos o inverso, pessoas que nem são tão bons assim a escalar mas que são muito dinâmicas e conseguem dar o feedback que uma marca procura para patrocinar alguém.

­ Existem algum planejamento seu para visitar e escalar no Brasil?

Apesar de já ter estado duas vezes no Brasil não escalei, cada vez mais tenho vontade de voltar e fazer uma rock trip, tenho ouvido várias opiniões positivas sobre o potencial e beleza dos locais, não só por isso mas também porque é um país e um povo que me encanta.

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Estamos a planear uma viagem grande juntamente com um patrocinador meu, em breve terei certezas de datas.

No Brasil temos vários incidentes com escaladores que não respeitam regras dos locais de escalada e acabam por fechar para escaladas. Existe o mesmo problema em Portugal?

Por enquanto não tivemos grandes problemas, a comunidade escaladora aqui penso que também seja mais pequena e mais fácil de controlar, o “núcleo” de escaladores mais velhos que acabam por dar o exemplo têm uma boa ética e temos muitos hábitos dos nossos vizinhos Espanhóis e Franceses, nisso temos muita sorte felizmente, toda a gente se tem portado bem.

Você realizou um filme que foi amplamente visualizado na internet. Existe plano de algum outro filme?

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Foto: Acervo Pessoal André Neres

Sim, já estamos a trabalhar no novo filme, o formato será parecido, na verdade a essência do filme é apenas capturar o processo sem um mega planejamento, acredito que por isso é que acabou por ter algum sucesso.

Não queremos fazer apenas mais um vídeo de escalada fanático mas sim acompanhar uma história de trabalho e conquista com emoção e sentimentos reais, como qualquer ser humano na sua luta por alcançar algo na vida.

Foto: Havista

Foto: Havista

Para o ano de 2014 já está em prática a busca para o 9a+?

Neste momento estou a recuperar alguma forma para voltar em força, mas sim, já estou no processo e o objectivo é esse, 9a+.

Breve breve já estarei a provar alguma das vias que tenho em mente.

 Ser escalador demanda muitos sacrifícios. Quem são as pessoas que mais apoiam você?

Foto: Havista

Foto: Havista

Ser escalador nas minhas condições por vezes não é fácil, tenho duas filhas, contas para pagar e nem sítio para treinar agora.

Os patrocinadores são fundamentais, tais como a TMN, Petzl, Top30, The North Face.

Existem algumas pessoas que têm feito toda a diferença no meu caminho de escalador, são bons amigos, a minha família, Rui Pimentel, Miguel Catita, José Ferreira e Alexandre Calvário (Hands Up Creations) Mário Almeida (The Summit Sports Agency), entre outros.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

There is one comment

  1. Pedro

    Siga os seus sonhos, siga o seu espírito, ame a aventura, viva suas paixões, blah blah…mostrem me o primeiro “expert” de montanha que seja um cidadão afectado pela crise econômica, ou um empregado de shopping, ou um empregado do café ou um desempregado da classe “proletaria”. Vá. Honestamente: aventura=bom emprego ou ajuda da familia. Você é engenheiro? Chefe de departamento? Não? Ganha pouco? Sem isso, pode meter os seus sonhos no caixote do lixo, sem dinheiro ná nada pra ninguem…sonhos? montanhas? Pode ter jeito, mas e a grana? Ah eu amo escalar, esquiar e isso. Cara, se é desempregado, a crise está aí para te f****, você ama escalada e esqui e caminhada? Não esquecer que para isso precisa de grana para pagar a sua carona ou o avião, por isso…não sonhe alto. Não interessa o quanto ce ama a montanha, você NAO pode ir porque o governo não deixa. Fica lutando quando não tem chance de ter emprego que lhe pague essas paixões…Você pode amar muito a nature, tanto quanto o engenheiro ou outro assim, você pode lutar mas se não tem emprego, fica no seu canto. Meu amigo, só com grana, só com pilim. Mal-pago, precário ou desempregado a caminho de pobre, só pode escalar, viver e morrer na maior montanha do mundo = a da pobreza.

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