Crítica do filme “Messner”

rpr_Messner_Movie[1]Realizar um documentário para enaltecer os feitos de uma personalidade é algo delicado e que deve ser pensado com muito cuidado.

Qualquer declaração ou omissão pode soar como ufanismo exacerbado ou autopromoção.

A prudência deve ser redobrada quando se trata de um mito.

O filme “Messner” que trada da história dos feitos do escalador Reinhold Messner chegou muito perto destes dois patamares descritos.

Alternando imagens de arquivo com cenas de atores dramatizando, “Messner” não é exatamente um filme de escalada e sim um retrato superficial dos feitos daquele que talvez seja um dos maiores escaladores de todos os tempos.

A produção procurou focar no mito e nada no ser humano Messner.

Documentando de maneira linear e centrado em depoimentos do próprio protagonista todos os seus acontecimentos relevantes na vida.messner_600x337[1]

Desde a primeira escalada até os dias atuais o filme passa de maneira superficial em pontos polêmicos da vida de Messner,o qual era conhecido por ter a personalidade forte e não ter papas na língua.

Característica esta deixada de lado no filme.

Os produtores entretanto optaram por não documentar pontos polêmicos de brigas e discussões.

Reinhold-Messner-leading--002[1]Algumas partes interessantes da vida do protagonista também foram suprimidas como sua vida particular.

Pontos importantes e que poderiam ter sido aprofundadas não foram apenas citadas como, por exemplo, o relacionamento com pais e irmãos (especialmente após a morte de seu irmão Gunter).

A passagem por Nanga Parbat que o marcou profundamente, e até mesmo foi retratada em outro filme, foi tratada como passagem sem muita importância em sua vida.

Pontos que poderiam mostrar o protagonista como uma pessoa foram relevados a um segundo plano como, por exemplo, seus relacionamentos amorosos e o fim de seu casamento (o qual não foi sequer descrito que tinha acontecido) .Reinhold-Messner[1]

Sobrou então apenas os feitos notáveis ,e indiscutíveis, a serem documentados no decorrer de toda a exibição.

Pela sucessão de feitos heroicos atrás de feitos heroicos o filme começa a se arrastar a partir de sua metade, tornando-se repetitivo.

O filme ainda peca em não marcar a linha do tempo e omitindo sua (repito: incontestável) notoriedade na imprensa europeia.

Esquivando-se ainda de captar as opiniões do escalador a respeito da escalada atual, o filme pasteuriza aquilo que poderia tornar o filme com mais profundidade e relevância.

Por tantas escolhas de manter a superficialidade “Messner” se comporta mais como uma reportagem de homenagem do que um filme documentário sobre a vida de uma pessoa.

Chama a atenção também a escolha de ter um filme todo falado em alemão mas com trilha sonora em inglês.

Um dos pontos a se destacar na produção é a grande quantidade de fotos e imagens do jovem Messner, que ilustra bem o quanto seus feitos são surpreendentes até para os dias de hoje.

Messner é um bom filme para a legião de fãs do escalador e que poderia, a título de curiosidade, ter se preocupado mais em mostrar um ser humano do que construir a idolatria já existente a ele.

Porém o desejo de não criar polêmica e tratar Messner como um “habitante de Kripton” tira muito do brilho que o filme poderia ter.

Apoiar-se em feitos somente, e deixar o lado humano em segundo plano foi o principal pecado do filme.

Nota do Blog de Escalada:

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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