O melhor é escalar pelo grau ou pela diversão ?

Por Stefi Tamburrino

A primeira vez que tive a oportunidade de escalar pensei : “Como é possível que perdi isso toda a minha vida ?!”.

Foi amor à primeira vista e nesse momento decidi que a escalada se tornaria parte da minha vida.

Obviamente que as primeiras vezes sabia somente que grau tinham as vias (todas fáceis, mas ainda assim sofria) mas na verdade não me importava.

Aproveitava da mesma maneira e era tanto o desafio que nem sequer me dava tempo para pensar em algo mais difícil.

Inclusive levou vários meses até internalizar o conceito “encadenar”. Escalar uma via, parar em algumas partes e retornar era algo igualmente bom e divertido do que fazer de uma vez só.

Não posso dizer quando exatamente foi, mas, assim como todos, o bichinho do “progredir e subir de grau” me picou.

Porque é tão importante o grau? Não digo que não reflita trabalho, constância, dedicação, mas qual a real importância do que somente uma simples satisfação pessoal?

Evidentemente encadenar um 7a, 8a, ou 9a não nos aproxima da salvação da humanidade, nem cura nenhuma doença.

Foto : Marcelo Diaz

Foto : Marcelo Diaz

A conquista é muito valiosa e nos gera uma satisfação incrível, mas é passageira pois o mais provável é que pouco depois de encadenar já estamos pensando no que queremos encadenar depois.

Ainda mais quando a satisfação e alegria desaparece no momento que estamos malhando uma outra via que nos custa : a nova via que estamos trabalhando é nosso ponto de concentração e a alegria da via encadenada fica no passado.

Não é mais escalador quem encadena vias mais difíceis

Não quero ser mal interpretada e acreditem que não considero valioso e com mérito superar o grau, porém creio que não tenha de supervalorizar.

Este tipo de conquista não nos define como pessoas. Não somos melhores ou piores que nenhum colega escalador.

Independente do grau que escalamos, sempre haverão escaladores mais fortes.

Acredito que colocar um grau como objetivo é completamente válido sempre, desde que a ideia não seja obsessiva, a ponto de deixarmos de nos divertir e aproveitar o mundo da escalada (todos sabemos que a escalada é muito mais que uma simples via)

Constantemente fala-se que a escalada é uma meditação em movimento.

J. Krishnamurti (1895-1986) foi um conhecido escritor e orador em matéria filosófica e espiritual em seu livro “Esta luz é uma só” se refere à meditação assim :

“Em primeiro lugar, a mente deve estar calada, prestando a máxima atenção, mas sem qualificar, comparar nem desejar nada. Quando este estado de atenção existe, e o ‘eu’ se encontra totalmente ausente, é meditação”.

Acredito que é muito fácil começar a escalar com uma mente inquieta e em uma não-meditação. Mas sempre estamos comparando tudo.

Comparamos a via (é mais fácil ou difícil que a outra), nos comparamos nós mesmos (antes isso me custava muito, antes era mais forte, etc.) e nos comparamos com o resto (sou menos ou mais forte que outra pessoa).

Se pudéssemos escalar uma via sem estes julgamentos, concentrados e em sintonia com a ideia de aproveitar, cada escalada seria prazerosa e seguramente as cadenas chegariam facilmente.

Foto : Marcelo Diaz

Foto : Marcelo Diaz

Realmente estaríamos falando de uma meditação em movimento. É provável que já tenham vivido esta experiência, creio que o esforço real (mais que tornar-se muito forte fisicamente) é que cada tentativa, independente das características e grau da via seja uma meditação em movimento.

Lembremos que tudo é passageiro, tudo muda, o qual implica em um constante trabalho de desapego (incluindo as conquistas). Se já não pode voltar a encadenar tal via – pelo motivo que seja – isso não tem nada a ver com o “valor” da pessoa.

Por conta de uma lesão não estou escalando e o único que desejo é voltar a aproveitar a escalada como nas minhas primeiras saídas, sem preocupações, sem exigências pessoais, comparações e sem autocrítica.

Acredito que a parte fundamental de todo escalador e escaladora é ter presente que , como muitas coisas na vida, a escalada também deve ser um jogo. Um jogo sem perdedores e de pura diversão.

Nunca está demais lembrar que esta é uma reflexão completamente pessoal que simplesmente quero compartilhar.

Talvez não é aplicável a “todo mundo (se você é escalador profissional pode não estar completamente de acordo com o que falei), porém gostaria de imaginar que para muitos outros escaladores pode fazer sentido.

Tradução autorizada de : http://soloboulder.com/

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