Escalando com meias: É certo ou errado?

Segundo pesquisadores históricos, o ser humano começou a andar com duas pernas a aproximadamente 3,7 milhões de anos. Sendo assim, estima-se que protege os pés desde o começo das primeiras civilizações que se formaram a partir do descobrimento da agricultura. A partir disso, por volta de 4.000 a.C, o ser humano passou a ter uma vida mais sedentária. Neste sedentarismo, muitas pessoas passaram a proteger os pés com sapatos simples, maioria feitos de couro. As meias que cobrem o pé inteiro (como conhecemos hoje) vieram depois, no século X a.C.

Historicamente, a civilização grega e a romana já usavam meias, mas elas ainda eram acessórios de luxo. Mesmo na Idade Média (período da história da Europa entre os séculos V e XV), ter meias era coisa de rico, mesmo nas localidades mais frias. Já no século XVI, portanto na Idade Moderna, com o advento das primeiras máquinas de costura, as meias se popularizaram e começaram a ser usadas largamente.

Portanto, a meia é usada em calçados muito antes de que a própria escalada tenha se desenvolvido e consolidado como esporte. Natural que muitos escaladores tenham optado por utilizar o acessório para escalar junto da sapatilha de escalada.

Mas, como todos já devem ter reparado, as sapatilhas de escalada são largamente usadas sem meias. Por esta peculiaridade que muitos se perguntam: é certo ou errado usar sapatilha com meias?

Pré-história sapatilha escalada

As sapatilhas de escalada em rocha, incluindo todos os seus modelos, é uma novidade “recente” na história do esporte. As aspas se justificam por estarmos na segunda década do século XXI, e que a data da invenção da sapatilha de escalada é da década de 1950.

O termo recente é justificado apenas se comparado com a história do próprio esporte ao longo da vida humana na face da Terra. Especula-se que desde os protótipos, até o produto final, a sapatilha de escalada foi criada na década de 1950, quase na mesma época que a escalada em boulder estava se desenvolvendo em Fontainebleau.

O modelo, que foi popularmente chamado de “PA” (iniciais do nome do francês) por escaladores ingleses nos anos 1960, tinha a parte superior de couro bem fino (diferenciando das botas feitas à época) e uma sola de borracha flexível, macia e também bastante fina. Allain, apesar de ser bem habilidoso com ferragens, “apenas” idealizou e desenhou o modelo quando entregou nas mãos do sapateiro francês Eduard Bourdeneau, que residia em Paris.

O primeiro modelo comercial foi vendido em 1982 e de lá para cá foram criados vários modelos por quase 40 marcas diferentes de sapatilhas de escalada (para ver a lista completa dos fabricantes leia neste link).

Por que sem meia?

Mas por onde começou a “mania” dos escaladores usarem sapatilha sem meia? Não há uma data nem acontecimento que marque este tipo de prática, apenas há suposições que foram levantadas com o tempo pelos próprios escaladores. A principal delas, usada até os dias de hoje, é de que como os modelos mais apertados de sapatilhas de escalada se mostravam mais precisos e eficientes, especialmente em superfícies com micro-regletes, a meia tirava a sensibilidade no momento de escalar.

Quando grande parte dos escaladores começaram a usar sapatilhas sem meia, um pouco também era uma espécie de rebeldia com a geração anterior. Tida como mais “conservadora”, o uso de calçado com meia é considerado obrigatório até mesmo pela sociedade. Até os dias de hoje a discussão a respeito de usar calçados, sobretudo tênis, sem meia atiça os ânimos de ambos os lados. Para alguns consultores de moda, o ato de usar tênis sem meia é considerado até menso estiloso.

Mas e as sapatilhas de escalada? Para as sapatilhas de escalada, especialmente para quem necessita de precisão no momento de escalar, utilizar meia é um incômodo. Excluindo os vários exemplos pontuais de pessoas que usam algum modelo fino ou pequeno (modelos “invisíveis” de meias chamados de sapatilha), as sapatilhas de escalada somente conseguem entregar a devida precisão quando o usuário está sem meia. A justificativa de que utilizar sem meia aparecerá um chulé forte no calçado, é inversamente proporcional ao desejo de encadenar um projeto de escalada.

A questão do chulé pode ser confrontada com o uso de desodorante. Isso mesmo, nos pés é possível utilizar desodorante. De Adidas a Dr. Jones, existem vários desodorantes específicos para o pé, com ação antisséptica e bactericida. Eles são úteis para controlar a umidade da região (algo inevitável quando estamos sem meia) e matar as bactérias que causam o chulé. Para quem sua muito, o que atrapalha para que a sapatilha de escalada não escorregue como se fosse uma meia, há duas opções clássicas: polvilho ou talco antisséptico. Se você estiver com pressa, pode passar um lenço umedecido.

Um dos segredos de evitar chulé na sapatilha de escalada está no descanso do calçado. Por isso é que é interessante possuir mais de um par de sapatilhas de escalada em casa, para que dê ao calçado pelo menos 24 horas de descanso para secar completamente e ventilar direito.

Para quem escala em lugares com frio, como ascensões invernais na Patagônia, o uso de meia começa a ser interessante. Pois ele irá permitir que o pé não congele, tirando a sensibilidade no momento de procurar algum “pé mágico” no momento de um crux.

É certo ou errado?

Antes de decretar que usar meias com sapatilhas de escalada é certo ou errado, vale algumas perguntas antes.

  • É certo colocar o arroz por cima do feijão, ou o feijão por cima do arroz?
  • É certo colocar açúcar (ou adoçante) no café ou tomá-lo sem nada?
  • É certo colocar a camisa para dentro da calça ou usá-la para fora?
  • É certo usar o mouse com a mão direita ou a esquerda?
  • É certo falar “tim tim” ou “saúde” na hora de brindar?

Analisando estas perguntas fica óbvio que para cada uma delas, há a dependência da escolha do usuário. Algum purista, como sempre fazem, irá dizer que alguma das opções acima é mandatória em relação à outra. Mas, à luz da razão, não há certo ou errado. Pois depende muito do seu objetivo final. Para o uso de sapatilhas de escalada acontece o mesmo. Depende do objetivo do usuário.

Há, evidentemente, a questão da sensibilidade para o escalador mais experimentado. O bom desempenho na escalada com uma sapatilha com um ajuste perfeito e exija que a pele do seu pé esteja pressionada contra o interior do sapato. Escalar sem meias lhe dá uma “sensação” melhor para os poros da pele, mas também é realidade que as meias entorpecem a sensação. Seria o mesmo que como usar uma capa de chuva no chuveiro: como saber se realmente a água está na temperatura exata?

Para quem não necessita tanto de precisão, além de querer adotar um estilo próprio (chamando atenção logo de cara de todos à sua volta no lugar de escalada), o uso de meias não é “errado”, mas evidentemente denota que o compromisso com a cadena na escalada está em segundo plano.

Dentro da comunidade de escalada, há quem acredite que basta identificar um escalador usando meia com sapatilhas, para saber quem é iniciante ou não.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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