Escaladas em Frey – Como é escalar no paraíso da escalada em móvel na Patagônia

Pouco tempo depois de começar a praticar escalada em rocha me chegaram histórias sobre um lugar lendário escondido na Patagônia Argentina. Nas montanhas que cercam Bariloche estava escondida uma Meca da escalada tradicional, um pequeno refúgio à beira de um lago, cercado de agulhas de granito perfeito.

Para mim que havia apenas começado era um objetivo distante, que inspirava respeito e certo medo na mesma medida que acendia a vontade de buscar aventuras patagônicas. No meu imaginário esta era a verdadeira escalada, subir montanhas utilizando apenas equipamentos móveis para segurança, em um ambiente selvagem e isolado.

Escaladas El Frey

Vista do Refugio Frey | Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

Após alguns anos de preparo, aprendendo a utilizar os Camalots e Nuts nas falésias de São Luiz do Purunã e ganhando experiência neste estilo de escalada com outros escaladores, combinei com um amigo a primeira visita ao tão sonhado Frey.

Ao deixar o refugio no último dia da viagem eu carregava além da mochila pesada, uma tristeza profunda por deixar aquele lugar incrível e também uma certeza: “Voltarei!”

Um ano depois estava lá novamente, agora com outro amigo. Escrevo agora este texto para relatar um pouco das experiências vividas no Frey e para compartilhar algumas dicas para aqueles que querem realizar a mesma viagem.

Como chegar

O acesso ao Refugio Frey é relativamente fácil, ele se localiza próximo à cidade de Bariloche, que por ser uma cidade turística conta com uma boa estrutura, assim como preços altíssimos. Aconselho aqueles que chegam de avião a passar apenas uma noite na cidade, o suficiente para comprar provisões e se preparar para os dias nas montanhas.

Da cidade pode-se tomar um ônibus direto para o Cerro Catedral, que é a estação de esqui onde começa a trilha mais curta para o Refugio Frey, ou para o Lago Gutierrez, onde começa outra trilha um pouco mais longa.

Para o ônibus é necessário ter um cartão pré-pago que é comprado nos vários quiosques espalhados pela cidade, o SUBE. Ele sai de hora em hora do centro da cidade. O trajeto de ônibus é de menos de uma hora.

Já a trilha é de aproximadamente quatro horas, as duas primeiras leves e sem muito desnível e as duas últimas bem pesadas e cada vez em terreno mais íngreme.

Estadia

O refúgio é equipado com camas e uma cozinha, ambos pagos (350 pesos), porém há bastante espaço para acampamento, que é gratuito. O vento patagônico é realmente muito forte e o clima varia muito, então achar um bom lugar para armar a barraca e reforça-la com amarrações e pedras é imprescindível.

Recentemente iniciou-se uma política de reserva, portanto é bom garantir o seu lugar pelo site oficial do Refugio.

Escaladas El Frey

Três Marias vista do Cume Piramidal | Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

O refúgio fornece água quente em troca de levar algumas garrafas e latas para baixo, uma boa opção para economizar gás. Há alguns itens para venda como pizzas, vinhos e cervejas, que tem um preço justo considerando-se a localização, tudo que está ali chegou nas costas de alguém.

Há um banheiro com pias e vasos sanitários, só não se esqueça de levar o papel higiênico. Já duchas não existem, a única opção para o banho é o lago, porém apenas nos dias mais quentes é possível mergulhar nas suas águas gélidas. Desta forma uma boa opção são os lenços umedecidos, que ajudam a manter um mínimo de higiene e evitam que seu parceiro te abandone após alguns dias sem banho.

Os arredores do refúgio estão sempre movimentados, de manhã por escaladores se preparando e trocando betas e de noite pelos mesmos cozinhando e trocando histórias. Nestes momentos é possível procurar por um parceiro se você está sozinho, é comum haver grupos impares que estão dispostos a acolher mais um.

Cerro Tronador | Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

O que levar

Devido à grande variação de temperatura é bom levar um saco de dormir de pluma, assim como as famosas três camadas (segunda pele, fleece e corta vento). Se tiver uma jaqueta de pluma melhor ainda, quando o vento bate a temperatura cai mesmo.

Para a escalada, dois jogos de completos de Camalots (0.3 ao 4)  e mais um de nuts (10 peças) é o suficiente para a maioria das vias. Em algumas pode-se utilizar até um Camalot número 5 ou 6, porém estes podem ser substituídos por um pouco mais de coragem no seu rack. Micro peças como TCUs e Camalots x4 são aconselháveis em algumas vias porém não levamos nenhuma.

Escaladas El Frey

Escalando a Diedro de Jim | Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

Para estender as proteções levamos cerca de 20 mosquetões de gatilho, 16 fitas de 60 cm e 3 de 1,20 m, estas últimas são particularmente úteis para proteções naturais como bicos de pedra. No fundo da mochila é sempre bom ter uns 10 metros de cordelete para improvisar pontos de rapel pois a maioria das agulhas não tem paradas fixas para a decida. Algumas das vias contam com proteções fixas e pítons, desta forma é bom sempre carregar pelo menos 5 costuras.

Uma corda de 60 metros é suficiente para a maioria das vias, porém em ambas as viagens levamos cordas duplas para termos mais opções, de qualquer modo é melhor realizar rapéis curtos para evitar que as cordas se prendam.

Escaladas El Frey

Chaminé na Principal Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

Com relação à comida normalmente só fazíamos uma refeição pesada por dia, a janta. Durante o dia nozes, chocolates e torrones mantinham o mínimo de energia necessária para realizar as escaladas. Para economizar peso na trilha uma boa opção são as refeições liofilizadas, que além de leves e fáceis de preparar garantem uma boa nutrição.

Para uma estadia de 10 dias a carga ficou entre 25 e 30 quilogramas dividas em uma mochila grande nas costas e uma pequena na frente.

A Escalada

Finalmente o mais importante, o motivo pelo qual escaladores do mundo inteiro vem passar de alguns dias até meses neste lugar.

Existem diversas agulhas em todas as direções, algumas a apenas alguns minutos de caminhada, e outras que exigem horas de aproximação. Cada uma tem suas particularidades, porém o estilo que predomina é o de escalada em fendas. Em geral o granito é de extrema qualidade, muito sólido e bastante abrasivo, por isto recomenda-se o uso de luvas especiais para fendas ou o uso de esparadrapo para cobrir as costas das mãos.

Escaladas El Frey

La Vieja, Del Frente à esquerda, Sudafricana no meio | Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

Em frente ao refúgio fica a agulha Frey, uma das mais frequentadas e que conta com algumas vias obrigatórias, como o Diedro e fissura de Jim e a Sifuentes Weber, ambas podem ser feitas numa tarde para sentir o estilo da escalada e entender um pouco melhor a graduação, que é a francesa e um pouco dura se comparada a outros lugares.

Na agulha El Abuelo também há vias boas para se aclimatar, como por exemplo a Nhaca Nhaca Crunch Crunch, que embora relativamente fácil não possui paradas fixas e proporciona uma boa aventura para quem não está acostumado à escalar em móvel. Nesta agulha também é recomendável a via Del Techo, uma fenda memorável que como se pode subentender pelo nome, passa por um pequeno teto.

Logo ao lado encontra-se a agulha M2, com várias vias curtas porém de extrema qualidade, a mais clássica é a Del Diedro. Devido à proximidade do refúgio e ao baixo nível de comprometimento é uma boa opção para dias mais leves.

Escaladas El Frey

Anoitecer | Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

Há aproximadamente uma hora de caminhada fica a Agulha Piramidal, um paraíso de fendas de diversas dificuldades, aí escalamos a Shiva de los cuatro brazos, cuja última enfiada é inesquecível. Há varias outras opções, com diversas vias saindo uma do lado da outra. Na sua parede frontal tive a oportunidade de escalar também a Del Frente, que conta com uma fenda larga na segunda enfiada, ela estava molhada e com limo devido à neve que derretia em cima da montanha, portanto aconselho apenas para aqueles que realmente gostam de sofrer.

Com um tempo maior de aproximação se destaca a agulha La Vieja, na qual esta a disputada via Sudafricana, uma vida de dificuldade 6a+Fr que inicia em fendas de mão, passa por um grande teto, segue por um offwith que se transforma em uma irregular fenda de punho e termina com um positivo de agarras invertidas. Uma escalada completa. Há também a Del Frente, uma via de escalada delicada em placa que ganhou seu status mítico por ter sido conquistada com a colocação de apenas uma chapa. Hoje ela está bem mais protegida. Ambas podem ser escaladas num único dia se houver energia suficiente.

Muitas das vias mais famosas do Frey podem ser escaladas apenas após longas aproximações pois se encontram num segundo vale à esquerda do refúgio, por isso muitos escaladores escolhem bivacar por alguns dias no Plateau Superior. Se o tempo estiver bom e estável não hesite em fazer o mesmo, nas suas proximidades estão as agulhas Cohete Lunar, La Tapia, Cara Banana e El Campanile para citar apenas algumas. Me foram recomendadas a Objectivo Luna e Bananarama porém infelizmente não tive tempo de fazê-las. No Campanille pude escalar a via Bush Goin, via relativamente tranquila porém com lances inesquecíveis como uma travessia que se faz caminhando por uma estreita faixa de pedra com centenas de metros de queda em ambos os lados.

Escaladas El Frey

Principal vista do Cume da Piramidal. | Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

Frey está repleto de opções, porém não se pode negar o apelo quase hipnótico exercido pela La Principal, esta que é mais alta de todas as agulhas, pode ser vista desde o aeroporto de Bariloche e até mesmo de Cochamó, no Chile. A mais clássica das vias nesta agulha é a Clemensó, dos seus 200 metros os melhores estão da metade para o final onde há lances delicados de placa protegidos com nuts até uma chaminé. Ao chegar ao cume somos agraciados com uma linda paisagem: lagos, infinitas montanhas e o Cerro Tronador, eternamente coberto de neve reinando soberano no horizonte.

Em dias de pouco vento há opções mais aventureiras na face Oeste, como a Siniestro Total, considerada uma das melhores vias longas de fenda no Frey e a Fonrouge-Insúa, via de 250 metros de fendas de dedo, diedros e oposições que tive a oportunidade de fazer no meu último dia.

Estas são apenas algumas das diversas opções que podem ser exploradas neste maravilhoso lugar, conversas com outros escaladores no refúgio e consultas ao guia escrito por Rolando Garibotti e Dörte Pietron revelarão os objetivos que se encaixam melhor na sua vontade e capacidade.  O guia pode ser comprado no Clube Andino de Bariloche porém também há um exemplar para consulta no refúgio.

Escaladas El Frey

Final da Principal | Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

Conclusão

Frey é um destino obrigatório para aqueles que gostam de escalada tradicional e de uma boa aventura, não importa se é a primeira experiência patagônica ou uma preparação para objetivos maiores como El Chaltén.

Os dias passados nestas paredes e as noites no refúgio com os camaradas ficarão gravados para sempre na memória.

Escaladas El Frey

Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

Escaladas El Frey

Refúgio com a Principal ao fundo ! Foto : Antonio Carlos Grossl Júnior

Sobre o Autor

Antonio Carlos Grossl Júnior

Antonio Carlos Grossl Júnior

Antonio Carlos Grossl Júnior é escalador fanático de vias com proteções móveis e reside na cidade de Curitiba

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