Irmãos Pou publicam carta aberta sobre tragédia no Fitz Roy

O grande número de óbitos no Fitz Roy (3.359 m) este ano vem mobilizando cada vez mais vozes relevantes na comunidade de montanhismo em todo o mundo. Por ter grande parte dos escaladores espalhado versões falsas de fatos sobre o acidente no Fitz Roy, os irmãos Eneko e Iker Pou, que estavam na região para tentar escalar um projeto de longa data, resolveram divulgar o que pensam sobre a tragédia. Somente este ano de 2019, pelo menos três escaladores faleceram, sendo o maior número de óbitos em tão curto espaço de tempo dos últimos 26 anos.

Dentre estes estão os montanhistas brasileiros Leandro Ianotta e Fabrício Amaral, ainda considerados desaparecidos mas sem esperança de serem encontrados com vida pelas equipes de resgate. Não se sabe o que pode ter motivado os irmãos Pou a publicar esta carta aberta, mas especula-se que seja pelo volume de informações falsas despejadas por muitos escaladores em redes sociais. Para se ter uma ideia do nível de desinformação provocado pela comunidade de escalada, um jornal do Espírito Santo realizou reportagens com várias informações incorretas, pois somente contou com informações não oficiais, as quais eram em grande parte falsas. Posteriormente à publicação, o veículo sequer se preocupou em retratar-se, mesmo tendo dados incorretos. Estas mesmas informações falsas foram replicadas, sem haver nenhuma preocupação de checagem com as autoridades locais.

 

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Os irmãos Pou são dois montanhistas de alto desempenho que constantemente estão quebrando recordes e estabelecendo marcas importantes no esporte. A lista de ascensões dos irmãos Pou é extensa e corrobora o fato de que a dupla faz parte da elite do montanhismo mundial. A dupla é respeitada e considerada por vários meios de comunicação de todo o mundo, como escaladores de vanguarda, tendo estabelecido escaladas de alta dificuldade nos sete continentes, incluindo expedições complexas a locais inóspitos do planeta como Himalaia, Polo Norte e Polo Sul.

A carta aberta publicada pelos irmãos Pou foi amplamente divulgada no dia de ontem e foi autorizada pelos autores a ser traduzida para o português e publicada na íntegra na Revista Blog de Escalada. A carta pode ser lida na íntegra abaixo.

 

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Tragédia no Fitz Roy: “A Patagonia em debate”

Porque estávamos lá, e vivemos em primeira mão os trágicos acontecimentos há uma semana no Fitz Roy, vamos dar nossa opinião.

  • Cronologia dos acontecimentos

Durante todo o mês que passamos em El Chaltén, ao pé dos maciços do Fitz Roy e Cerro Torre, tivemos somente um dia (9 de janeiro) que realmente se pode considerar como uma jornada de muito bom tempo por esta região. Antes e depois, houve janelas de tempo curtas, que sempre vieram acompanhas de vento.

A última janela de bom tempo foi em 16, 17 e 18 de janeiro, dias que aconteceu a tragédia.

A previsão falava de muito bom tempo para o dia 16 de janeiro, praticamente aberto e sem vento, mas repetindo-se para os dois dias seguintes.

Nos últimos anos tem sido tentado uma desmistificação do maciço: agora a previsão meteorológica melhorou muito e também há um guia de escalada da região muito completo e com todo o luxo de detalhes de autoria de Rolando Gariboti. Além disso, faz duas ou três temporadas que foram boas e que se escalou coisas incríveis, mas a Patagônia segue sendo Patagônia. Como bem demonstram os acontecimentos que nos propusemos narrar.

O caso é que nós também tentamos escalar na mesma janela de bom tempo, na companhia de Fernando Irrazabal “Capi”.

Na quarta-feira, dia 16, nos aproximamos durante 8 horas até a base do Piergiorgio. Fez um dia muito bom, mas não deixou de soprar o vento durante todo o dia. Esta noite bivacamos e colocamos o despertador às 2:00, 4:00, 6:00 e 8:00, para as 9:00 desistir. Sequer estávamos encordados. Nas outras 8 horas do dia voltamos para Puente Eléctrico. Na nossa opinião, ainda que seja verdade que nosso vale estava muito exposto e as tempestades que vêm do oeste (do gelo patagônio sul), fazia demasiado vento para escalar com certas garantis de segurança.

Quando chegamos de volta ao Puente Eléctrico, o vento era tão forte que jogava-nos de um lado a outro.

Na sexta-feira, dia 18, não melhorou: Na cidade de El Chaltén, o vento castigou com força durante todo o dia, com o detalhe de que à tarde piorou de maneira evidente, antecipando-se à forte nevasca que se esperava para o sábado pela manhã.

Quando amanhecemos na cidade no sábado, dia 19, o vento era fortíssimo e não se via nenhuma montanha importante (nem sequer o Cerro Solo que é avistado quase sempre) do tanto que tudo estava nublado, a temperatura tinha caído vários graus e se adivinhava que havia começado a nevar nas partes altas como havia sido previsto anteriormente.

Então, apesar de que em 16,17 e 18, não foram dias excepcionais por culpa o vento. pelo que sabemos, ao menos duas duplas de escaladores experientes conseguiram o cume do Fitz Roy e do Cerro Torre. A primeira dupla era italiana e a segunda francesa. Mas foi um feito excepcional já que, na nossa opinião, somente duas equipes tão fortes e rápidas como eles, podiam conseguir algo assim.

A maioria dos escaladores restantes, optou por ascensões menores em metros, como Aguja Guillaumet, S ou Mermot.

Foto: Irmãos Pou

Mas voltemos ao Fitz, porque durante o descenso da via “Franco-Argentina” (via que conhecemos muito bem, porque em 2006 tivemos de fazer até seis tentativas) no dia 18, a equipe italiana, enquanto rapelava, cruza com a dupla brasileira que se encontrava algumas poucas enfiadas da La Silla (base da via).

A dupla tcheca havia passado pelos brasileiros, mas se perderam na linha da via “franco-argentina”, ficando apoiados na via francesa. Parece que ambas as duplas persistiam na sua escalada, apesar das condições meteorológicas, já que não acompanhavam o tempo e que a previsão era piorar no dia seguinte.

As consequências, mais ou menos, todos nós já sabemos: apesar de nossa indignação que tenha acontecido, destes quatro escaladores, somente um dos tchecos puderam chegar de volta à cidade. O que ele sofreu para sobreviver, podemos saber. O que sofreram os outros três, observando como fica lá em cima quando o tempo fica ruim, não queremos nem imaginar.

Ao que parece não houve nenhum acidente. Os três escaladores faleceram por hipotermia. O tcheco sentado em uma parada na parte alta do Fitz e os dois brasileiros, mesmo que ainda desaparecidos, tudo aponta que estariam congelados na altura da La Silla. Aquilo é uma linha de neve e se imagina que eles sejam os dois objetos inertes que não parecem fazer parte da parte branca.

A noite de 21 e 22, a comissão de Socorro de El Chaltén inicia uma operação de resgate, usando seus voluntários e o resto dos montanhistas que se encontravam na cidade. Apesar de lamentar, não pudemos ajudar, já que no dia 22 às 7:00 deixaríamos a cidade para pegar nosso voo em El Calafate.

Mas vivemos em primeira mão tudo o que aconteceu, já que foi Leo Viamonte – um dos maiores responsáveis do grupo de Socorro junto a Carolina Codó – que nos levou até El Calafate. Tanto para ele, como para nós, não foi fácil ficar no rádio do carro, enquanto tudo ia acontecendo nas montanhas e nos afastávamos dela.

Pelo que falavam, não foi uma noite simples. Já que os italianos Claudio Migliorini, Luca Schiera, Ed Albrighi y Jacopo Zezza (os mesmos que apenas três dias antes haviam subido o Fiz Roy e na descida encontraram os brasileiros), que eram os líderes do resgate. Eles não puderam chegar até La Silla por culta do mal tempo. Além disso Jesús Gutiérrez “Susi”, companheiro de Pedro Cifuentes e Rubén Crespo, sofria um impressionante acidente, que o fez com que caísse na Laguna de los Tres, tendo um monte de ossos quebrados e o pulmão perfurado.

Portanto um duplo resgate para a Comissão de Auxílio, que dava tudo de si junto aos acontecimentos, mas, como sempre, solucionando os problemas com solidariedade e a ajuda de todos estes voluntários que não duvidaram em arriscar suas vidas para salvar as dos outros companheiros em apuros.

O espanhol Jesús Gutiérrez se recupera dos graves ferimentos sofridos durante a queda no hospital de El Calafate. Seu gesto o faz honrado.

  • As conclusões

A primeira, é que patagônia segue sendo um lugar muito exposto à rigidez meteorológicas e portanto um lugar perigoso.

A segunda, é que suas montanhas e suas agulhas estão entre as mais difíceis do mundo e, portanto, para escalá-las haveria de ter este fator em muito claramente na cabeça.

A terceira, é que um lugar em que um resgate, da maneira como conhecemos na Europa (Helicóptero e guincho) atualmente é inviável. Assim a maioria dos casos de resgate tem de chegar a pé pelo glaciar para efetivar o resgate.

A quarta, é que a equipe de socorro tardará muitas horas em chegar com a maca até o acidentado, já que as aproximações nesta área são muito longas e de difícil acesso.

A quinta, é que a equipe de resgate são todos guias de montanha que deixam seu trabalho para, em um ato altruísta, tratar de salvar a vida de pessoas em apuros. Eles e os montanhistas voluntários que nesse momento estão na cidade (como já fizemos em várias ocasiões) arriscam suas vidas para salvar a vida do próximo.

  • Temos que refletir

Levando em conta tudo isso, acreditamos que a primeira responsabilidade cai sobre nós mesmos no momento de escolher o dia e lugar onde pretendemos realizar nossa atividade.

Seria bom também que antes de sequer planejar nossos objetivos, pensemos em todos os entes queridos que deixaremos para trás se tudo der errado e todas estas pessoas que sem conhecermos arriscam suas vidas para tratar de salvar as nossas.

Os montanhistas de todo o mundo sempre foram muito solidários. Tratamos de ser, inclusive, antes de colocar as botas escolhendo um objetivo de acordo com as condições da montanha. Partindo da meteorologia e de nossas possibilidades reais, porque apesar de fazermos assim, sempre existirá a possibilidade de tudo que modifique e tenham de vir para nos ajudar.

Damos nosso mais sincero pesar aos familiares e amigos dos falecidos e desejar a Jesús Gutiérrez uma rápida recuperação. Tragédias desta magnitude são muito difíceis de superar.

Eneko e Iker Pou

Foto: Irmãos Pou

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