Escalada esportiva: Uma reflexão sobre homens, montanhas, competições e olimpíadas

Em 2020 a escalada, bem como o skate e o surf serão apresentados nas Olimpíadas de Tóquio. Alguns comemoraram o fato, outros o repudiaram e a polêmica foi criada. O objetivo deste artigo é clarear algumas questões obscuras sobre o mundo do esporte competitivo, para que cada um possa refletir a respeito e formar opinião de forma racional, pois quando se fala em esporte a paixão costuma reinar.

Roger Caillois no início do século XX classificou os jogos em quatro categorias: agôn (competitivo), ilinx (vertigem), mimicry (fantasia) e alea (azar).

A escalada pode ser classificada como ilinx, porque se refere à atividade em que se desafia um ambiente arriscado que pode proporcionar o medo e a vertigem no caso de quedas. Assim se construiu o imaginário dos montanhistas como pessoas corajosas que enfrentam seus medos em geleiras, penhascos e montanhas.

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Os jogos competitivos (agôn) são aqueles que tiveram grande ênfase na Grécia antiga com a criação dos jogos olímpicos, em que se valoriza a vitória sobre um adversário. Essa forma de jogar deu origem na modernidade ao esporte que conhecemos, porque numa sociedade industrial e capitalista, vencer o outro é a meta principal.

Callois já dizia que os jogos podem se intercalar e se sobrepor, como por exemplo, vemos na criação da escalada indoor, que de treinamento, rapidamente tornou-se a forma competitiva de jogar com os riscos da altura. Mas ele já alertava sobre os problemas de misturar ilinx com alea, e qualquer escalador sabe disso, quando vê alguém com uma corda estática se atirando de uma ponte para fazer uma queda livre, na qual sua segurança será um amigo na ponta da corda.

Pois bem, a escalada como competição nas Olimpíadas trás vários perigos como muitos de seus críticos tem apontado, e aqui vou colocar alguns pontos que acredito que devam ser debatidos pela comunidade para evitarmos danos que podem ser previstos.

Foto: http://www.ifsc-climbing.org/

Foto: http://www.ifsc-climbing.org/

1 – COMPETIÇÃO : Competir não é algo ruim em si, o ser humano sempre compete e nem nas montanhas os escaladores estão livres disso. Basta ver o quanto se paga para chegar ao topo do Everest, ou a corrida, algumas vezes mortal, para atingir o cume sem oxigênio. Ou então, o desafio de subir os sete cumes de cada continente e por aí a fora. Portanto, devemos encarar a competição como algo próprio do ser humano, mas sem esquecer que valores como a solidariedade, a cooperação e a forma de se escalar, são ainda mais importantes do que o resultado em si. Isto está no código de ética da escalada, só não pode ser esquecido, ou deixado de lado por questões pessoais, ou corporativas.

2 – CRESCIMENTO : O aumento do número de praticantes na escalada deve ocorrer com a maior divulgação pela mídia, mas lembremos de que o tiro com arco, o pentatlo moderno e tênis de mesa, são esportes olímpicos e nem por isso, tem muitos praticantes no país. Portanto, é melhor observar que o crescimento do número de ginásios de escalada no Brasil nos últimos 20 anos foi 1.000% e que isso fomentou um número ainda maior de escaladores em rocha, pois além dos ginásios temos um número crescente de pessoas ministrando cursos em rocha. Hoje em dia é comum conhecer pessoas novas em falésias que antes eram frequentadas sempre pelos mesmos grupos. E nada disso, foi impulsionado pelos jogos olímpicos.

3 – MÍDIA : Tive oportunidade de assistir a canoagem slalom e o BMX nas Olimpíadas do Rio pela TV. E os espaços de prática custaram caro, mas trouxeram público e cobertura da imprensa. Não tenho dúvida de que no Japão a escalada terá uma parede sensacional, mas acredito que a divulgação na TV brasileira será predominantemente da prova de velocidade, pois é a mais interessante ao público leigo, mesmo que os escaladores e a IFSC não gostem da ideia. Para a TV tempo é dinheiro, e o formato da velocidade encaixa melhor nesse esquema. Claro que poderemos contar com mais tecnologia daqui a quatro anos e com uma mídia pela internet capaz de mostrar outras provas de forma integral, porém não sou muito otimista a esse respeito.

Foto: http://www.ifsc-climbing.org/

Foto: http://www.ifsc-climbing.org/

4 – DOPING : Entristece saber que os jovens escaladores que participarão dos jogos de Tóquio deverão tentar de tudo pela medalha de ouro e isso inclui o doping. Para quem acompanha o esporte hoje no Brasil e vê uma modalidade ainda limpa, podemos prever que nossos jovens atletas irão se submeter ao uso de substâncias que não fazem bem à saúde e que se distanciam do fair play. Em recente viagem ao Chile conheci um pessoal que tal qual no Brasil treina forte na escalada indoor, podem ter certeza, que se tivermos uma vaga para disputar na América do Sul para os jogos, deveremos disputa-la com eles, e como a diferença entre os atletas é pequena, qualquer ajuda externa pode fazer a diferença entre participar os não da Olimpíada. Quem será o primeiro?

5 – DINHEIRO : De todos os aspectos analisados é aquele que mais me preocupa. A escalada como modalidade olímpica deverá receber verbas governamentais para o fomento do esporte, sem as quais não será possível uma participação efetiva. Mas os casos de corrupção no COI, no COB e nas diversas Confederações esportivas que já participam do processo olímpico devem nos deixar alertas para o fato que de pessoas sempre são alvo fácil para o dinheiro, que é usado para obter vantagens políticas, poder e enriquecimento pessoal. Até o momento nunca ouvi nenhum caso desse tipo na escalada brasileira, e conhecendo algumas das pessoas que participam da institucionalização formal do montanhismo brasileiro, acredito que posso confiar nelas. Mas que no futuro haverá pressão para o favorecimento de determinadas pessoas, grupos e situações, disso não tenho dúvida, e os dirigentes terão a dura missão de defender os interesses da comunidade escaladora acima de qualquer outro interesse.

Muito bem, mas apesar de enxergar diversos desafios para a escalada na Olimpíada, vejo que há oportunidades e tenho algumas propostas para a comunidade pensar e se entender como viável colocar em prática.

Há três pontos essenciais para o desenvolvimento do esporte de alto rendimento e se fizermos um planejamento podemos conseguir bons resultados e evitar os desgastes que os problemas anteriores apresentam:

1 – OPORTUNIDADE : Se acreditarmos que a escalada pode ajudar no desenvolvimento das pessoas e queremos resultados no alto rendimento precisamos dar oportunidade das pessoas de praticar. Isso remete a colocar muros de travessias nas escolas; capacitar professores para desenvolver atividades de subir, escalar, trepar em equipamentos adaptados que promovam a força de membros superiores e tronco das crianças; oferecer paredes de escalada em locais públicos; criar eventos competitivos em ginásios para que muitas pessoas possam participar ao mesmo tempo, mesmo que o formato seja diferente das competições oficiais (festivais); planejar o desenvolvimento esportivo de longo prazo e não apenas treinar um pequeno grupo para uma competição específica.

Foto: Flavia dos Anjos

Foto: Flavia dos Anjos

2 – INVESTIMENTO : O investimento privado está acontecendo por parte dos amantes da escalada com a criação de ginásios, mesmo com retorno menor, do que em outro tipo de comércio. A Olimpíada pode trazer mais investimento de empresas de equipamentos, ou mesmo aquelas de outros segmentos, pela maior visibilidade do esporte, porém os atletas precisam ser responsáveis por imagem pública e precisam valorizar seus patrocinadores. Situação como do nadador dos EUA no Rio deve servir como exemplo de como não agir, ele perdeu mais de cinco milhões de dólares em patrocínio e ficou sem o apoio da Federação de Natação do país que não quis associar seu nome ao comportamento do atleta. Mas devemos pensar também no investimento público, afinal é o governo quem mais coloca dinheiro nas modalidades olímpicas no Brasil. E temos um problema. A CBME é quem pode receber verba do COB, mas quem representa o esporte competitivo no Brasil hoje e é filiada à IFSC é a ABEE, portanto o diálogo entre as partes deve ocorrer, talvez com um convênio para que o dinheiro possa ser investido nos atletas de competição, na formação de base e nas ações sociais e ambientais as quais a CBME sempre mantém seu foco, vejo uma oportunidade de utilizar o investimento do governo efetivamente nos três aspectos que podem beneficiar as duas entidades.

3 – CIÊNCIA : A formação de atletas de alto rendimento e seu resultado efetivo em competições internacionais passa necessariamente pelo emprego da tecnologia e do conhecimento científico no treinamento. Copiar treinos da youtube na busca de rendimento em geral pode ajudar na evolução de uma pessoa que apenas quer fazer uma via especifica, pois qualquer coisa é melhor do que nada, mas também causa lesões e não serve quando se fala de competições com os melhores do mundo. A associação entre treinadores com formação acadêmica e a experiência de escaladores é essencial para atingir esse objetivo. Um especialista em treinamento, mas que não conhece da escalada precisa entender as especificidades do esporte e o escalador precisa saber como os aspectos fisiológicos, biomecânicos, nutricionais e psicológicos influenciam na prática. Promover eventos com atletas e profissionais de Educação Física, Fisioterapia e Nutrição é uma forma organizada de obter resultados.

Finalizo apontando que a escalada será um esporte olímpico e devemos ter consciência de nossa ação, organização e participação coletiva para colher frutos para o esporte.

Aproveito para dizer que a escalada tem pessoas compromissadas com seu desenvolvimento, que há mais de 15 anos se dedicam para esse momento, são pessoas sérias, honestas e que acima de tudo querem o melhor para o esporte, como por exemplo, Janine, Anderson, Nishimura, família Shirawa, Belê, Linha, entre outros.

Agora é momento de conversar, planejar e agir junto com eles.

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