A comunidade escaladora interditada: Sempre culpados até que se prove o contrário?

Há cerca de duas semanas houve uma grande revolta com o fechamento (aparentemente definitivo) do lugar de escalada Arrayán no Chile (saiba mais aqui). Para quem não sabe, o local é um lugar próximo a Santiago do Chile, que começou a ser conquistado no final de 2005 e chegou a ter aproximadamente 60 vias.

Um cânion de rocha, com árvores e muito bonito. Apesar de estar praticamente na beirada de uma cidade gigante como Santiago, a sensação era de estar muito longe da civilização. Este lugar sempre foi de livre acesso. Na estrada viviam pessoas do interior, que sempre houve mudanças. Antes de conquista as vias de escalada, foi conversado com estas pessoas, especialmente com Eduardo, que vivia aí usufruía do lugar.

O acordo de escaladores com ele, foi permitir o acesso por meo de pagamento de uma taxa que, naquela época, tinha um valor de menos de um euro (R$ 5,00 aproximadamente). Logo após começar a abrir as vias, aglutinando escaladores, o Arrrayan conseguiu uma fama escalada para neo-hippies (ou “micróbios” endinheirados pregadores da “vida simples”) e de escaladores que não necessariamente tiveram uma “educação” adequada das normas de segurança.

Pela entrada liberada, fácil acesso e estar praticamente dentro da cidade, Arrayan passou a ficar lotado de escaladores todos os dias da semana. O lugar ficou bastante concorrido entre os escaladores que a usaram como campo escola, especialmente para que chegassem mais amigos que queriam escalar, ou mesmo para os “micróbios” que, entediados com a vida luxuosa de seus pais na cidade, passavam horas na escalada, tomando um mate e fumando a sua maconha no lugar.

Arrayan se convertia no refúgio de muitos, realmente MUITOS, sendo assim também o início de muitos problemas.

Os problemas

Em pouco tempo, escaladores que NÃO tinham sequer conquistado uma via de escalada, muito menos feito a gestão para o acesso ao lugar, começaram a criar conflitos com Eduardo. Conflito por não querer pagar valor equivalente a 1 euro. Estes mesmos “micróbios” (que ironicamente são endinheirados) se sentiram donos do lugar (mais precisamente os que não conquistavam vias) e começaram, inclusive, a ameaçar a quem ia e, descaradamente, “proibir” de publicar guias e croquis.

Além destas práticas (que demonstravam ausência total de caráter), deixavam restos de comida, mate e outros no pé da via. Os escaladores inexperientes e inconsequentes, começaram a proliferar como erva daninha. Fogueiras, batucadas, além de outras coisas que nem vale a pena relatar, eram constantes. Obviamente que o lixo se multiplicou de maneira exponencial.

No meio disso tudo, também apareceram grupos de escaladores mais comprometidos com o lugar, implementando uma campanha série e contínua de proteção. Este grupo começou a pregar o cuidado com o lugar, respeito por quem vivia na região, etc. Fizeram campanhas públicas de bons costumes, investindo tempo e dinheiro para arrumar asa coisas. Videos sobre como cuidar do lugar, sem deixar rastro de sujeira, recolher o lixo e etc, foi a bandeira levantada por eles.

Posso afirmar que este tipo de propaganda foi vista em todo o país, inclusive um dos videos criados por eles viralizou e se fez conhecido no mundo da escalada fora do Chile. Desta maneira, Arrayan se transforava em um exemplo para muitos de que existem escaladores dispostos a cuidar dos lugares.

O vídeo você pode assistir abaixo (com legendas em inglês).

Então, o que passou de tão sério para o lugar fechar?

Sei que muitos que lerão este texto já esperam uma infinidade de insultos e desqualificações da comunidade escaladora. Mas não, apesar, claro, da introdução que leu acima.

A mentira da comunidade escaladora

A comunidade escaladora não existe, e sigo afirmando isso. Isso porque não existe uma coesão entre os próprios escaladores. A escalada não é um esporte que une as pessoas. Muito pelo contrário. Poder-se-ia dizer que até mesmo as divide, especialmente quando se trata de gerar projetos. Não à toa já existem duas federações de escalada no Chile (assim como acontece no Brasil!) e nas redes sociais ainda existem pessoas que ameaçam uns aos outros de criar outra.

Os escaladores são um coletivo, isso não resta dúvida. Gente que se une para uma atividade, no caso a escalada, mas é só isso. Apenas um bando de pessoas dividindo o mesmo espaço. Isso significa que dentro deste grupo heterogêneo existe de tudo.

No momento que se espalhou a notícia de Arrayan, as tochas logo foram acesas e a turba ensandecida saiu de suas tocas para o linchamento. Havia a necessidade de buscar culpados e açoita-los em praça pública. Mas a falta de culpados, apenas gerou uma frase que está se repetindo cada vez mais: “a comunidade, ou mesmo o coletivo (grupo) escalador era o culpado”. Havia então a necessidade de chicoteá-lo, humilhá-lo e fechar todos os lugares para que ninguém nunca mais escale.

Proibir todo tipo de informação, esconder os lugares e conquistar secretamente. Todos da turba eram ativos (e imperdoáveis) no momento de julgar. Mas quantos destes (que agora acusam) haviam sido ativos antes, quando o problema estava acontecendo?

Então olhei ao meu redor e me dei conta que não encontrava culpáveis e que praticamente todos meus amigos e conhecidos que escalavam comigo eram pessoas de bem. Para a surpresa de alguns (especialmente os invejosos) são muitos. Pessoas que respeitavam a natureza e que, em sua grande maioria, sabiam usar corretamente o equipamento e se preocupavam em realizar uma escalada segura. Sabia também que muitos deles haviam participado na conquista de vias em muitos lugares. Tanto no Chile, quanto em outros lugares do mundo. Sabia que não deixavam lixo e, muito pelo contrário, muitos deles recolhiam o que encontrava jogado.

Portanto, o coletivo da escalada não era culpado. As bobagens que falei na introdução deste texto, eram por erro de poucos, muito poucos, de um grupo que cresce muito e, por esta mesma razão, faz com que estas pessoas ignorantes se façam mais perceptíveis. Talvez a estas pessoas bastaria alguém os ensinar como fazer as coisas de maneira correta, especialmente quando visitam um lugar de escalada que não pertencem a eles, aprendem a aproveitar mais. Isso porque não se pode colocar todos no mesmo saco, porque inegavelmente existem MUITOS escaladores que estão tratando de fazer as coisas corretas.

Em épocas passadas não foram melhor, foi diferente e nada mais que isso. Já escutei e li de como os escaladores “das antigas” criticam as novas gerações e de como se esquecem de que nos “velhos tempos” também houve brigas e pessoas sem cuidado com os lugares. Obviamente que antes os escaladores eram 100 e que se alguém fosse um porcalhão, não fazia diferença. Mas agora são milhares de escaladores e, por isso, não é apenas um cara porcalhão pois a proporção se manteve. As pessoas de 20 ou 30 anos atrás foram a mesma coisa, muitos destes escaladores que vivem no conforto, sempre com vontade de se dar bem não importa como. Uma característica típica da juventude… (ou não?)

Esconder e equipar às escondidas não é uma opção de diminuir pessoas nos lugares. Os lugares de escalada acabam sendo descobertos de qualquer maneira. A falta de informação (guias, sites, notícias, etc) prejudica principalmente aos escaladores que somente desejam ir aos lugares para escalar e, consequentemente, passar um tempo sem atrapalhar ou sujar os lugares que visitam. Além disso, evita que as pessoas proativas sejam parte destes lugares.

Existem muitos grupos na escalada, que querem fazer as coisas de maneira certa. Este tipo de notícia (abertura de um lugar) lhes dá mais vontade e desejo que assim seja, sem que isso signifique que esconder, ou dizer que todos são marginais, porque eles não são. Nem todos os escaladores são monstros destruidores do patrimônio ambiental dos lugares de escalada. Muito pelo contrário. Estão dispostos mais que nunca a protegê-lo, diante da massificação do esporte que chegou para ficar.

E você leitor?

Foto: http://rocanbolt.com

Mas e você, caro leitor escalador, que lê incrédulo estas palavras… Que pode fazer? Uma coisa aconselho: deixar de ser passivo. No próprio documentário sobre o Valle de Los Cóndores existe um questionamento sobre isso.

As pessoas que jogam lixo, possuem mau caráter e péssimas maneiras e sempre faz imbecilidades: É O DE MENOS!

Escrever nas redes sociais e listas de whatsapp, ou mesmo linchar uma comunidade em específico, não tem o menor sentido. Quase todos os comentários que são realizados nestes meios, atrevo a dizer que a grande maioria já está de acordo com questões como lixo e respeito das regras dos lugares que visitam.

O seu trabalho fica por conta de não deixar somente em palavras, mas em ser um exemplo ativo de como cuidar dos lugares. Cumpra o que escreve nas redes sociais!

Recolha o lixo que não é seu, não deixe que outros danifiquem a propriedade privada ou mesmo pública. Não fique calado se ver pessoas passando por cima de qualquer recomendação de segurança. Não seja covarde. Nem deixe que aconteçam situações que coloquem em perigo o lugar (como por exemplo, fazer fogueiras). Se ficar calado, ou mesmo ser passivo, o único que sairá prejudicado será somente você e seus amigos, nem mesmo a “comunidade”. Faça por sua própria vontade de seguir aproveitando o lugar, pois se fecham um setor é óbvio que estarão fechando a você.

Se não fizer nada para evitar algo, no momento que aconteça, você será o maior culpado. Porque cretinos sempre existirão no mundo (poucos, felizmente). Mas as coisas acontecem porque alguém não fez nada para evitar e isso, infelizmente, é a grande maioria.

Tradução autorizada: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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