Onda de Calcário: O momento de efervescência da escalada em Minas Gerais

Por: Philippe Lobo

O estado de Minas Gerais tem um importante papel na história da escalada brasileira. A Serra do Cipó possui grande reconhecimento, por parte da comunidade de escaladores no Brasil e em todo o mundo, sendo considerada por muitos como a “Meca” da escalada esportiva no Brasil. Este grande destaque da Serra do Cipó, no entanto, acaba deixando em segundo plano outras regiões extremamente interessantes e que possuem enorme potencial de desenvolvimento.

Um exemplo disso é o complexo de áreas de escalada em rocha de calcário, no eixo norte da região metropolitana da capital mineira, que envolve, entre outros, os municípios de Lagoa Santa, Pedro Leopoldo e Sete Lagoas. A região está muito próxima ao Aeroporto Internacional de Confins, justamente entre o centro de Belo Horizonte e a Serra do Cipó. Num Raio de 50 km da capital, encontramos grande variedade de graus e estilos de vias de escalada, com fácil acesso, diversos guias publicados e crescente organização de estruturas de hospedagem e apoio técnico aos escaladores.

Escalador André Portugal na via “Gigante de Bronze”, Maciço da Lapinha | Foto Luiz Hibino

Com mais de 500 vias catalogadas, mas com potencial para abertura de novas vias, novos setores e áreas inteiras para a prática do esporte, esta região tem voltado a ter destaque no cenário nacional e internacional. As áreas mais visitadas atualmente são o Maciço da Lapinha e Sítio do Rod em Lagoa Santa; a Lapa do Seu Antão e a Gruta do Baú em Pedro Leopoldo; e a área conhecida como “Sinuosa” em Sete Lagoas.

O Maciço da Lapinha é o berço da escalada esportiva mineira. Primeiro campo escola da região, teve as primeiras vias conquistadas no início dos anos 1990. Após um período problemático no início dos anos 2000, quando a escalada foi proibida no local devido a problemas com a gestão municipal, a escalada volta a florescer ali a partir de 2011. Este processo ficou marcado pela criação da Associação Mineira de Escalada (AME) e do Parque Estadual do Sumidouro. Isso possibilitou a regulamentação de um plano de manejo para a área, processo que contou com a participação do Instituto Estadual de Florestas (IEF), da AME e pesquisadores de diversas áreas que realizam trabalhos nas áreas rupestres da região, que também é rica em sítios arqueológicos.

Um ótimo documentário produzido em 2010 com direção de Aulus Assunção Baía e Walfried Weissmann registra o conflito: “E As Vias Da Lapinha”. O Filme está disponível no Youtube.

Escaladora Branca Franco na Lapa do Seu Antão | foto: Portugal Braga

Foi neste contexto que os escaladores do estado de Minas Gerais começaram a se organizar e perceber que, mais do que desenvolver pessoalmente a qualidade da escalada, era preciso amadurecer o seu relacionamento com o poder público e a sociedade como um todo.

Assim inicia-se uma nova fase, na qual a escalada mineira se fortalece em busca da expansão do esporte e da conscientização de todos acerca da responsabilidade da comunidade com a preservação do meio ambiente e das riquezas científicas e culturais na região.

Escalador francês Louis Gerald na via “Atretas do Crimbe”, Sítio do Rod. | Foto: Portugal Braga

Para o escalador e psicólogo Leandro Iannotta, conhecido como Mr. Bean, a região foi muito importante para o seu desenvolvimento pessoal como escalador e também para toda a comunidade, atraindo inclusive escaladores de alto nível de outras regiões. Leandro tem se destacado tanto por sua atuação como escalador, quanto pela sua participação em associações.

Iannotta é membro da AME e da Associação de Escaladores da Serra do Cipó (ASEC) e foi membro por dois anos do Conselho do Parque Estadual Serra do Intendente, trabalhando no processo de regulamentação da escalada na Cachoeira do Tabuleiro, uma das mais incríveis áreas de escalada do estado, 185 km ao norte de Belo Horizonte.

 

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Neste ano realizou expedição à Patagônia e a incrível escalada free solo da via “Sinos de Aldebaran” (8c brasileiro), com cerca de 40 metros de extensão na Serra do Cipó, além de outros solos em vias da Lapinha.

Não sei falar, com relação aos clubes e associações, de uma articulação… Eu não vejo” comenta Leandro. “Não vejo articulação por parte dos clubes, dos clubes com a Federação. Acho que deveria, sou a favor disso“.

 

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O escalador e geógrafo Diego Contaldo de Lara, também membro da AME, destaca que existe hoje uma portaria do IEF regularizando as atividades de escalada no Maciço da Lapinha e considera que a tendência atual aponta melhoria na gestão deste espaço e no diálogo com os escaladores. Entretanto, Lara também aponta a falta de articulação das associações e clubes:

Sinto que Minas Gerais é muito desarticulada, há muito pouco diálogo entre as entidades… falta muita coisa que precisa ser organizada, há muito trabalho a ser feito.

Diego defendeu neste ano de 2018, uma dissertação de Mestrado a respeito das atividades de escalada na região. O trabalho mostra, por exemplo, o expressivo fluxo turístico existente em função das atividades de escalada. Com importante levantamento de dados de valor geográfico e histórico. O trabalho busca fazer uma síntese da Geografia da Escalada em Minas Gerais e pode ser acessado na íntegra através do site da PUC Minas.

Gráfico elaborado pelo autor com dados de Campo
LARA, Diego Contaldo de. Geografia, montanhismo e escalada: o caso do Maciço Lapinha em Lagoa Santa, Minas Gerais. Belo Horizonte, 2018, p 113.

Os dois escaladores expressaram um sentimento de pertencimento a uma comunidade e que, apesar das diferenças de concepção ou objetivos pessoais, é possível fortalecer esta noção de comunidade e união entre os escaladores.

Foi percebendo este momento de efervescência e de abertura, que o escalador e cineasta André Portugal Braga criou o Espaço “Escalarte” no coração da Lapinha, em Lagoa Santa. Juntamente com outros escaladores e empreendedores locais, está realizando o 1º Festival Escalarte de Cultura e Montanha da Lapinha que acontecerá nos dias 14, 15 e 16 de dezembro. O evento pretende iniciar uma maior aproximação entre produtores culturais, os escaladores, suas associações e os gestores públicos.

O Festival tem em sua programação uma série de atividades interessantes, como a mostra regional de filmes de escalada comentados pelos produtores, exposições, shows e performances.

No dia 14, sexta-feira, a abertura do Festival contará com uma sessão única em Minas Gerais para a exibição do filme “The Dawn Wall”, um dos mais importantes longas sobre escalada já realizados e, inclusive pré-indicado ao Oscar de Melhor documentário.

A exibição é realizada pelo Freeman Festival Brasil em parceria com a empreendedora local Paula Souza, administradora do Sítio do Rod, e com a produção do Festival Escalarte.

Os ingressos estão à venda pelo link: https://www.eventbrite.com.br

Leandro Iannotta comenta a importância deste momento:

“A Escalada vem crescendo demais. Agora com a visibilidade nas olimpíadas a escalada de competição está tomando um corpo e isto traz mais adeptos para a escalada de aventura. Então vai ter o festival aí agora, coincidiu o filme na sexta no cine de Lagoa Santa… isso fortaleceu o Festival! Acho que a gente tem que aproveitar isso. Mas é um filme que trata de escalada tradicional na montanha, que vai se passar em Yosemite, que é uma realidade diferente da realidade local aí. Mas olha como uma coisa vai fortalecendo a outra: com isso tudo, os apoios, a estrutura, mídia, reconhecimento: isso está em evidência!”

No dia 15 de dezembro, acontece a programação principal do festival, iniciando com um debate que terá a participação de representantes das principais associações, clubes de escalada e montanhismo de Minas Gerais, gestores públicos, produtores, representantes da cultura local da região da Lapinha e da imprensa especializada. Será um encontro inédito, essencial neste momento em que a articulação da comunidade carece de maior atenção.

O Festival está sendo viabilizado através de um crowdfunding (financiamento coletivo). As pessoas podem garantir seu ingresso com o preço promocional de R$ 15,00 pela campanha. E há cotas de participação maiores que oferecem recompensas muito interessantes. Para participar basta acessar o link, onde o visitante pode conferir toda a programação e escolher a cota com que deseja participar.

O escalador André Portugal Braga, produtor do festival, comenta que a receptividade dos escaladores tem sido boa e que é importante a participação na campanha para mostrar que este tipo de iniciativa é viável e que através de financiamentos coletivos a comunidade pode realizar muitos projetos importantes e necessários para o desenvolvimento das atividades de escalada.

A ideia é tentar juntar todo mundo nesse processo coletivo e colaborativo. A gente está acreditando muito nesse nessa vaquinha virtual, o crowndfunding, que é uma coisa nova. Queremos sensibilizar as pessoas, mostrar que é possível realizar eventos importantes sem depender de grandes patrocinadores ou editais públicos“, comenta André. “Também é uma forma de comprar o ingresso mais barato e ter acesso a várias recompensas e produtos culturais. Acredito que assim cada um pode contribuir um pouco. Quem puder, entra com uma cota maior e tem mais recompensas. No fim, o festival é viabilizado e todos podem se sentir realizadores“, acrescenta Braga.

Este movimento evidencia uma especial abertura da região para o desenvolvimento da escalada e sua divulgação junto à sociedade. Momento que deve ser aproveitado pela comunidade para se estreitar os laços, aproximar os clubes e associações e pensar os próximos passos no sentido de melhorar as estruturas, políticas, calendário de eventos e, consequentemente, o apoio aos escaladores profissionais e amadores.

Escalador Lucas Castro na via Sou Fria Sinuosa – Sete Lagoas | Foto: Jean Carlos

Referências

Philippe Lobo é músico, professor, produtor audiovisual e escalador residente em Lagoa Santa – MG, região polo de escalada esportiva em rocha de calcário. Atualmente é diretor da escola de música online Domínio da Música.

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