Escala de dificuldade de escalada em rocha – Histórias, diferenças e questionamentos

Neste artigo analisaremos as diferentes escalas de dificuldades de escaladas em rocha a fim de conhecer historicamente o ponto de partida e suas diferenças para termos uma crítica comparativa embasada em alguns pontos e suas comparações.

Subjetividade é o problema encontrado em todas as escalas, pois a sempre a figura humana que estabelece o que é difícil e o que é fácil, cria assim a tal subjectividade.

Partindo do princípio que existem muitos critérios que precisam ser analisados ao se indicar qual a dificuldade de uma via, os principais são:

  1. Comprimento dos lances, ou enfiadas, entre as paradas
  2. Dificuldade do “CRUX” (ponto mais difícil da via)
  3. Tipo de rocha
  4. Exposição a altura (fatos principalmente psicológico)
  5. Intempéries (fatores como sol, chuva, vento etc)
  6. Água na via
  7. Altitude da via (em relação ao nível do Mar)
  8. Tempo para realizar uma via

E principalmente o que deve ser levado em consideração por quem vai classificar a via é a questão do costume, ou seja, se a pessoa subir 50 vezes a mesma via pode ser que tenha uma opinião leviana sobre a dificuldade.

Isso porque sabemos que se tiver alguém passando dicas de movimentos (“betas” no jargão do escalador) a escalada se torna consideravelmente mais fácil. A mesma lógica vale para quem está habituado com algum tipo de rocha ou clima.

Portanto hoje existe o critério de que uma via deve ser classificada pensando na primeira subida e com auxílio de croqui, um tipo de mapa das vias disponíveis em guias e catálogos no mundo todo.

Um pouco de história

Pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro.

Heródoto

Hans Dülfer – Foto: http://www.paretiverticali.it

Depois do nascimento do alpinismo foi preciso classificar a dificuldade. A princípio usava-se o critério de comparação, já que não existia nenhum tipo de escala.

Por isso os alpinistas usavam apenas os termos “minore” ou “maggiore” baixo ou alto.

Logo em seguida começaram a surgir outros termos para, digamos, uma melhor compreensão das passagens (movimentos) da via como “agevole”, “difficile” e “ardito” (fácil, difícil e ousado).

Em seguida começou a ser usado uma classificação usando números. Desta maneira usaram a princípio três níveis que, a partir de então, seriam chamadas graus.

No final do ano de 1800 começaram a melhorar cada vez mais os níveis dos escaladores. Por isso foi preciso adicionar um 4º grau (em geral já usando números romanos) que seria denominado IV grau.

A escolha tem uma justificativa: por conta de escaladores como Albert Frederick Mummery na parede oeste do Grépon maciço do Mont Blanc em 1881(Chamonix – França), de Georg Winkler na escalada da Torre del Vajolet em 1887, sozinho e com somente 17 anos (Dolomitas, Catinaccio – Itália).

Torre del Vajolet – Foto: https://www.gambeinspalla.org

A partir de 1900 outros escaladores como Hans Dülfer, Paul Preuss, Tita Piaz e Angelo Dibona introduziram o V grau em meio a muitas polêmicas sobre o uso de pinos como meio de proteção. Deste ponto em diante a classificação foi ficando cada vez mais conhecida entre os alpinistas. Portanto era somente esperado uma tabela oficial, o que aconteceu no ano de 1925 quando os alpinistas Emil Solleder e Gustav Lettenbauer conseguiram escalar a histórica parede norte-oeste do Monte Civetta.

Georg Winkler

Na ocasião classificaram com VI grau. A escalada trata-se de uma parede com quase 1.000 metros a uma altura que começa em 2.200 metros de altitude e vai até 3.200. Foi considerado por muitos anos o nível máximo que poderia ser atingido por um humano em uma escalada.

Ai então, com estes parâmetros, se constrói a primeira escala de dificuldade, que teve o nome de Willo Welzenbach feita por alpinistas de Mônaco da Baviera (Alemanha) e ficou popularmente conhecida como a “escala de Mônaco”.

Nos anos seguintes o Italiano Domenico Rudatis começou a utilizar os sinais de + e – junto com à escala de Welzenbach.

Na França, mais precisamente no ano de 1936, Lucien Devies começa a falar sobre a classificação de dificuldade fazendo uma média da dificuldade da escalada e não o ponto mais difícil (“crux”) e o mais técnico.

Esta graduação também levou em consideração outros fatores importantes de cada via.

Foi então que em 1943 o grupo GHM (Groupe Haute Montagne) oficializou a escala de classificação de Devies como o nome de D’insieme (conjunto) usando as siglas F, PD, AD, D, TD e ED (Fácil, pouco difícil, etc…) para vias normais e para escalada artificiais (com ajuda de equipamentos como grampos, pinos etc) como A1, A2, A3 e A4.

Monte Civetta

No ano de 1967 a famosa escala de Welzenbach se torna a escala oficial da UIAA (Unione Internazionale Associazioni Alpinistiche). A escala era composta com os números romanos de 1 a 6 ( I, II, III, IV, V e VI ) seguido dos sinais “+” e “–”, e também usando a classificação utilizada por Devies das artificiais A1, A2, A3 e A4.

Esta escala foi utilizada desde então, porém já foi atualizada algumas vezes por conta de grandes alpinistas como Reinhold Messner, que introduziu o VII grau e que a UIAA colocou na escala somente em 1985.

O “Boom” da escalada nos anos 80 fez com que a UIAA ampliasse vez a escala para cima, sem um teto, e introduziu na escala a classificação de Devies ED (excepcionalmente difícil). A exigência de quantificar graus acima do VI já vem desde a escala de Devies que utilizou em sua publicação (Guida Vallot no ano de 1978 ) o VIa e VIb.

Foto: http://altitudini.it/

Foto: http://www.arbuturian.com

Na cidade de Chamonix na França (considerada a Meca do Alpinismo) nos anos 1980 a escala UIAA era vista como ultrapassada. Esta linha de pensamento abriu espaço para o francês François La Bande, em sua publicação Guide Delphinè, apresentasse a escala Francesa a qual confrontava a UIAA substituindo os números romanos por numerais Árabes ( 1,2,3,4 etc.).

Até hoje a escala de François Labande é muito conhecida e largamente utilizada na Europa. Porém, na maior parte dos casos, os escaladores não usam corretamente nenhuma das duas escalas, que as vezes são até esmo utilizadas em conjunto. Esta “união” provoca uma verdadeira bagunça ocasionamento uma sopa de letrinhas ininteligível.

As classificações em outros lugares

Nos Estados Unidos, sobretudo na década de 1960, o nível de escaladores era muito mais forte do que os Europeus, já que utilizavam materiais diversos e inovadores. Na época os americanos utilizavam uma escala aberta, sem teto limite e assim estava sempre sendo atualizada. Este tipo de filosofia (não há limite) começou então em todo mundo a se existir uma outra ideia de escalada.

Paralela ao alpinismo, tendo com a ideia principal a diversão, não necessariamente ir ao alto de uma montanha, movimento conhecido na Europa por “Nuovo Mattino”, capitaneada por Gian Pietro Motti, e com “Gioco Arrampicata” liderada por Ivan Guerrini, introduziram o prazer de escalar por escalar. Sempre tentando superar os limites de dificuldade, seguindo assim o exemplo dos californianos.

Giancarlo Grassi

Até hoje na escala americana usa-se números que vão de 5 até 5.9 e, após este nível, recebem as letras a,b,c e d. Atualmente o maior grau alcançado é 5.15c.

No Reino Unido inicialmente em suas torres de arenitos ao longo do Rio Elba foi criado uma classificação diferente. Esta diferença justifica-se pelo tipo de rocha e desta maneira serviu de exemplo a ser seguido por diversos países. Isso porque cada qual possuía sua peculiaridade, tipos de rocha e outros fatores que, para muitos entendedores, dificultaria o uso das escalas europeias.

Ainda existem classificações diferentes para o tipo de escalada “Boulder”.

A escala Brasileira de dificuldades

Foto: http://www.cef.org.br/

Vale lembrar que um dos primeiros clubes de alpinistas do brasil, que contém grande relevância em nossa história, é o Centro Excursionista Friburguense – CEF. O clube data de 1935 e, muito provavelmente, já existiam atividades do tipo na região que datam de 1814.

Atividades estas realizadas com a chegada dos colonizadores suíços e alemães, que trouxeram sua grande paixão por escalar montanhas nas malas.

Para quem quiser se inteirar mais do assunto existe um site bem legal e com bastante informação

No ano de 1974 a Federação Carioca de Montanhismo (FCM), já usava um sistema de graduação com sua própria escala. Em 1975 o FCM transformou-se na Federação de Montanhismo do Estado do Rio de Janeiro (FMERJ) a qual viria a ser extinta no início dos anos 80.

A FMERJ publicou em 1975 uma relação das conquistas com seus respectivos graus de dificuldade já usando sua própria escala.

No Brasil a primeira publicação que “formalizou” o que viria a ser a primeira escala brasileira de graduação de vias, que na verdade era um aperfeiçoamento das já existentes no mundo e adaptada à realidade Brasileira, foi o escalador André Ilha em sua publicação de 1984 Catálogo de Escaladas do Estado do Rio de Janeiro (A. Ilha, L. Duarte).

Este sistema foi reconhecido no livro “Mountaineering – the Freedom of the Hills” (The Mountaineers, EUA) considerado uma importante referência para a atividade de alpinismo em todo o mundo.

No ano de 1999 foi realizado um seminário sobre alpinismo no Brasil com exposições de autores dos guias e catálogos de escaladas todos grandes alpinistas no Estado do Rio:

  • André Ilha (Catálogo de Escaladas do Estado do Rio, 1984 e Guia de Escaladas de Guaratiba, 1999 )
  • Flávio Daflon (Guia de Escaladas da Urca, 1996)
  • Alexandre Portela (Guia de Escaladas dos Três Picos, 1998).

Foi então neste seminário que iniciou-se os primeiros debates de uma escala oficial brasileira, pois já usavam uma metodologia diferente das estrangeiras.

Foram feitos dois outros seminários no ano de 1999, acertando o que seria o sistema brasileiro de escala de graduação de vias. O resultado desta “oficialização” é o texto publicado em 1984 por André Ilha e Lucia Duarte . No texto ambos descrevem todos os sistemas aqui citados anteriormente.

Oficialmente temos o seguinte no Brasil: no ano de 2000 foi fundada a FEMERJ (Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro) que provavelmente já adotava o sistema discutido por praticantes do montanhismo em 1999. Provavelmente porque não foi possível localizar as atas de reunião, além de não existir nenhum documento oficial desta época que possa ser considerado oficial e disponível na internet, como é de praxe que instituições deste cunho disponibilizem, que até hoje haja “localismos” em graus de escalada no Brasil.

Atualmente o que se tem como representação do esporte escalada e montanhismo hoje no Brasil é o CBME ( Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada ) que foi fundado com a União da FEMERJ (Federação de Esportes de Montanha do Estado do Rio de Janeiro ), FEMESP ( Federação de Montanhismo do Estado de São Paulo ) e FEPAM ( Federação Paranaense de Montanhismo ) em 15 de Julho de 2004 no Rio de Janeiro. Esta instituição é membro da UIAA desde 2005.

Em seu site está disponível o SISTEMA BRASILEIRO DE GRADUAÇÃO DE VIAS DE ESCALADA com data de criação de 3 de dezembro de 2016 e consta o número de revisão 00.

Nele está descrito que este texto substitui o sistema de graduação aprovado por Assembleia Geral em 25/08/2007 e o sistema antigo consta na ata de 2007 disponível no site deles.

Porque existir uma classificação

O principal e inicial motivo de se criar escalas de dificuldade é a questão da segurança para que o alpinista/escalador não entre em uma via a qual ele não esteja preparado. Um outro motivo é por conta de existirem diversos fatores que tornam muito complicado qualificar uma via.

Imaginem o seguinte cenário, brasileiro para uma melhor compreensão: a grande maioria dos escaladores estão escalando grau 6, 7 ou 8. Será que uma pessoa que escala uma via classificada com grau 6 localizada em uma academia de escalada, escalaria esta via a 2.500 metros de altitude?

E se for uma via exposta ao sol do Rio de Janeiro? Se esta via for em Itatiaia (Parque Estadual) e estiver ventando a mais de 50 km por hora? Se for na serra gaúcha e estiver muito frio? Se está via estiver localizada em um local de difícil acesso no meio da floresta? Ou com muitos insetos?

E além do mais sempre vai existir a subjetividade humana e o que julgo ser o pior dos aspectos e a fogueira de vaidades, um querendo ser melhor que o outro, algo comum em muitos esportes porém muitos mais simples que trata-se de ser mais rápido ou fazer mais pontos com critérios e regras bem definidas o que ainda não existe no que se pode chamar de esporte escalada, se é que um dia vai ser possível!

Considerações

Para o grau de dificuldade ser algo sem a subjetividade, seria preciso fazer um livro de regras no qual constasse todos os tipos de movimentos, tipos de rochas. Nele fosse subdividido em categorias, por peso ou idade. Assim poderíamos desconsiderar alguns outros fatores como por exemplo intempéries. Da mesma forma que não é levado em consideração no futebol, porém é algo muito complicado de ser feito.

Ao meu entendimento sobre estas classificações é que poderiam ser mais enxutas e universalizadas já que existe a UIAA. Porém, por conta de todos aqueles fatores já tratados, há quem defenda estas escalas a níveis nacionais, pois cada país teria suas peculiaridades. Seria o caso do Brasil, que é um país continental e bem diversificado, aplicar esta filosofia?

No que se diz respeito a paredes artificiais de escaladas seria algo mais bem igualitário se construíssem uma parede com alguns tipos de agarras que permitam ser apoiadas da forma “X” e assim dizer que aquela é uma parede de tal grau. Cada pessoa assim poderia segurar onde quiser, como acontece nas paredes naturais, e não traçar vias com número limitado de agarras. Isso porque as diferenças de tamanho, peso e elasticidade entre pessoas são muitas.

Já vi muitas crianças subirem com mais facilidade em falésias do que adultos, por conta de sua altura permitir mais pontos de agarras. Tive a oportunidade de observar também muitas pessoas, que dentro de ginásios escalam somente determinadas vias de 6º, por exemplo, e não todas as demais existentes.

Precisamos parar para refletir sobre o quanto é importante saber este desempenho em ginásios e se com isso não estamos perdendo a essência do alpinismo. O Alpinismo é o que atrai muitas pessoas ao esporte e o principal motivo de se usar uma escala e estabelecer a segurança de quem entra nela.

International Climbing and Mountaineering Federation – (UIAA)

Criada em 1932 com 20 associações de montanhistas em reunião em um congresso alpino, dos quais já faziam parte alguns clubes como o CAI (Clube Alpino Italiano que á época já existiam há 69 anos).

Hoje a UIAA possui como membros 92 federações em 69 países diferentes.

Mais informações: http://theuiaa.org

International Federation of Sport Climbing – IFSC

A International Federation of Sport Climbing foi criada em 2007 por 57 federações, que já vinham trabalhando em campeonatos desde 1985 e sempre em parceria com a UIAA.

Fazendo um paralelo com o futebol, hoje o IFSC é a FIFA da escalada esportiva, assim como o UIAA é o International Football Association Board (IFAB).

Mais informações: http://www.ifsc-climbing.org

Bibliografia

Alexandre “Francês” Gazinhato é paulistano, Técnico em Segurança do Trabalho, Jornalista, Alpinista Industrial IRATA, escalador esportivo e membro do Clube Alpino Italiano e Gruppo Speleologico de Marche da Itália.

There are 3 comments

  1. Fernando Marcos Jr

    Pessoal, as matérias do Blog em geral são bem bacanas, como esta por exemplo. Mas a grande maioria contém erros de português incríveis, coisas muito simples, publicadas aparentemente sem qualquer tipo de revisão textual. Para mim, como leitor, a credibilidade das informações acaba prejudicada quando erros básicos são cometidos. Enfim, não me levem a mal, mas fica aqui um “beta” para que o Blog continue crescendo em acessos e qualidade! Grande abraço.

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