O perigo de comprar equipamento de escalada usado: O barato que pode sair caro

O equipamento de escalada é caro, não há dúvida a respeito disso. Se estiver começando no esporte, não tendo nenhum, sai mais caro ainda. Talvez uma das coisas mais caras que necessitará será, por exemplo, uma corda. Só o preço de uma boa corda, significa quase o mesmo montante de seu equipamento todo (sapatilhas, cadeirinha, bolsa de magnésio e freio). Aliado a esta situação, existe escaladores novatos dispostos a tudo para adquirir seu equipamento.

Nas redes sociais, a venda de coisas usadas está cada vez mais frequente. Neste ponto é quando a ganância encontra a falta de bom senso do comprador. O problema fica sério quando esta mesma venda de equipamentos de escalada é de algo que pode matar uma pessoa: corda, cadeirinha, pitons caseiros, equipamento de escalada em móvel, costuras, etc. Sapatilhas de escalada, sacos de magnésio e coisas similares, por inocência do comprador pode ser que te vendam uma sapatilha usada ruim, com a promessa de que escalará igual aos profissionais.

Não faz muito tempo, chegou a mim um anúncio de uma venda de uma corda usada. O anúncio dizia que era “pouco uso” (na verdade todo vendedor usa esta afirmação) e o preço era a metade de uma corda nova. Observando as fotos (as quais eram de má qualidade) não se podia ver como estava a corda, mas o vendedor (que se intitulava de “confiança”) jurava que tinha poucas quedas significativas. Por um acaso do destino, tive a sorte de ver a corda ao vivo. O comprador a tinha como um grande troféu de compra, pois acreditava que tinha economizado metade do dinheiro de uma corda nova.

Neste ponto aqui, deste comprador que inocentemente acha que é mais esperto que os demais, é que reside a questão chave da compra e venda de equipamentos de escalada usados. A corda, pelo modelo e marca, tinha facilmente uns 10 anos de idade. Era explícito que a corda já tinha sido, inclusive, cortada em uma parte. Além disso, quando medida tinha 57 metros de comprimento. Tinha partes que já estavam despelando (conhecido no jargão como “taturana”), mas felizmente estavam bem longe da metade da corda, embora dificilmente passasse despercebido a um olhar atento.

Me deu a impressão de que o vendedor a havia usado algumas vezes e a guardou por anos até o momento que concluiu que era melhor vendê-la. Era isso ou usa-la como algum outro uso caseiro, como balanço ou guia de cachorro. Adverti ao comprador que a melhor opção era pedir a devolução do dinheiro, ou simplesmente ter na cabeça de que poderia acidentar-se por acreditar ser mais inteligente que os demais economizando dinheiro. Uma economia que iria custara sua vida e até mesmo do parceiro, caso fizesse uma escalada tradicional.

Parece mentira? Mas não é. Este tipo de situação é vista largamente pelo mundo afora. Quanto mais anos de escalada uma pessoa possui, mais casos como este testemunha. A mesma coisa acontece com as cadeirinhas. São vendidas cadeirinhas que possuem, no mínimo, 10 anos de uso, todas ultra gastas e, obviamente, o vendedor tenta se desfazer dela a todo custo. Costuras usadas, com as fitas já bastante peludas e as borda dos mosquetões bem gastos pela corda, são colocados à venda com “nunca aconteceu nada, apenas estão usadas”.

Mosquetão Daniel Woods | Foto: Alex Khan

Apesar de que muitos acreditam que aconteça, na escalada não existe uma obsolescência programada. Isso porque as empresas fazem seus produtos para durar, dentro, claro, de limites de segurança. A grande maioria dos equipamentos de escalada possui uma data de validade e quando atinge esta data o que deve ser feito é colocar de lado, para que ninguém mais as use. A atitude de tentar tirar um pouco de dinheiro de equipamentos usados fora da data de validade é uma atitude irresponsável e que demonstra falta de caráter da pessoa. Para roupas usadas é até compreensível fazer negócio de usados, mas costuras, equipamentos de segurança e cordas não. Roupas e mosquetões são duas coisas diferentes.

O pior de tudo é que os grandes compradores de equipamentos usados são escaladores iniciantes, onde a possibilidade de acidente é maior e, por causa da sua falta de conhecimento, são capazes de comprar as coisas mais inúteis para escalar.

Com isso, uma característica assusta a quem tem maturidade, juízo e, claro, inteligência: grande parte dos equipamentos de escalada usados que são vendidos, são de qualidade ruim. É largamente visto em redes sociais e grupos de whatsapp, costuras que foram feitas recall (nem falarei a marca) ou freios de segurança pouco confiáveis. São vendidos por estes “espertinhos” cadeirinhas de iniciantes muito incômodas e que machucam o usuário. O raciocínio deste “espertinho” é quase o seguinte: “Comprei, descobri que era um lixo, vou ver se vendo a algum otário por aí”.

É tão óbvia a situação que um dia resolvi perguntar a um destes vendedores. A mensagem que recebi, que parece ser padrão a estes vendedores, foi a seguinte: “Talvez a alguém que está começando possa servir”. Pode até parecer altruísta, mas seria mesmo se ao invés de vender doasse a algum clube. Mas como o objetivo é ganhar dinheiro de maneira fácil, o melhor que encontram a faze é vendendo a algum desavisado.

Vender ou comprar equipamento de escalada usado pode ser perigoso. Está economizando dinheiro, mas pode estar colocando em risco a sua escalada. Este tipo de coisas afirma que os acidentes são por falha humana, pois se escolher escalar com equipamento caducado, ou mal usado, sua escolha pode sair realmente muito cara.

Se você, que está lendo este texto, fique atento às críticas. Embora muitas pessoas pensem o contrário, toda pessoa é inocente até que se prove o contrário. Portanto, as críticas acima tomem como uma advertência real de que outras pessoas sem caráter estão vendendo. Pode até parecer exagerado, mas ninguém quer ficar de criminoso quando tiver de se defender em um acidente, ao vender um produto de má qualidade.

Tradução autorizada: http://rocanbolt.com

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Gonzo Rocanbolt é chileno, médico, escalador e indiscutivelmente uns dos mais completos autores de artigos sobre treinamento de escaladores existentes no mundo. Respeitado em todo o mundo é o organizador do Simpósio de Medicina de Montanha no Chile e palestrante de eventos de escalada no Chile, Argentina e Espanha

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