Quanto de ecológico é um equipamento de escalada? Uma análise racional

Por estar em contato direto com a natureza, os praticantes de esportes de natureza, como escalada e montanhismo, naturalmente batem no peito e se dizem protetores do meio ambiente. Mas assim como tudo na vida, existem dois lados da mesma moeda, uma pergunta é bastante válida. Quanto de ecológico é um equipamento de escalada? A prática do esporte, caso ele cresça em popularidade como muitos apostam, após ter a escalada indoor alçada à condição de esporte olímpico.

Notadamente, muitas pessoas ainda utilizam a tática de repetir uma mentira mil vezes, até que ela tenha cara de verdade. Portanto, é muito importante que a cada assunto da moda, não importando a área, é essencial apreciar todas as variáveis antes de comprar alguma filosofia. Sob a couraça dos militantes, muitos questionamentos devem ser feitos para que vários questionamentos sejam feitos até que haja o amadurecimento de uma ideia.

Foto: http://www.conservacionpatagonica.org/

O montanhista e empresário Ivon Chouinard, tido como exemplo máximo de administrador de empresas consciente com a natureza, a todo momento em seu livro “Let My People Go Surfing” levanta frequentemente a bandeira de como os equipamentos de montanhismo estão longe de serem ecológicos. Que fique claro, como ele mesmo estabelece no livro, que a culpa disso é das empresas e da sociedade a qual estamos todos inseridos.

Não é culpa dos escaladores se seu equipamento é, ou não é, ecológico. Da mesma maneira que, para todas as outras modalidades, não é culpa direta do praticante se seu equipamento para ser construído impacta pesadamente o meio-ambiente. O praticante pode, claro, pressionar esta ou aquela empresa. Mas mudar toda uma cadeia produtiva e processos construtivos leva muito tempo e é necessário conscientização de um número expressivo.

Se para trocar uma simples proteção em um lugar qualquer do mundo, os escaladores locais não chegam a um consenso, o que dizer então de algo que necessite que todos trabalhem em torno de um bem comum como o meio-ambiente. Quando saímos para escalar na rocha, existe uma série de considerações que são tomadas tradicionalmente para reduzir o impacto ambiental no local que escalamos.

Ao menos deveria. Mas uma pergunta é importante de fazermos a esta altura: As marcas de escalada devem ser consideradas nos cuidados que temos com o impacto que geramos ao meio-ambiente?

Empresas que respeitam x empresas que não respeitam

Foto : Eduardo Leal | https://edition.cnn.com/

Optar por uma empresa apenas porque tem uma postura ética, com pessoas, governos e meio ambiente, não é um caso simples. Muitos sabem que algumas marcas que não respeitam regras trabalhistas, estão envolvidas em escândalos de corrupção e possuem processos danosos à natureza e, infelizmente, mesmo assim continuam vendendo milhões de seus produtos à população. A verdade é que se o preço de um produto está bom, esquece-se rapidinho estas questões.

Apesar das pressões de ONG´s ecológicas, a indústria outdoor, com raríssimas exceções ainda segue o padrão capitalista de foca mais em lucros, expansões e investimentos em novos materiais. Segundo o Greenpeace, em um relatório de 2016, apontou que cerca de 40% de amostras retiradas poluentes, são provenientes de equipamento de montanhismo e escalada, com altos índices de PFC (Perfluorcarboneto), níveis significativos de PFOA (Ácido perfluorooctanóico) foram encontradas em jaquetas de marcas já estabelecidas no mercado como Jack Wolfskin, The North Face, Patagonia e Kaikkialla, assim como também em uma calça infantil da marca Marmot.

Para combater este tipo de realidade, foram criados alguns certificados ambientais para materiais de montanha e as empresas que controlam o nicho. Um certificado de muita credibilidade é Bluedesign. Esta certificação é de uma empresa privada que realiza uma análise das redes logísticas das grandes empresas para avaliar e reduzir o consumo de matéria-prima e energia, para assim diminuir a produção de águas residuais. Também avalia a quantidade de impurezas e subprodutos gerados durante os diferentes processos, para atestar que não há resíduos tóxicos.

Assim são criados três tipos de certificados: materiais, produtos e empresas. O selo é concedido a quem tiver pelo menos 90% de cumprimento das exigências da empresa. Marcas como Patagonia, The North Face e Edelrid pertencem ao grupo de empresas que usam a Bluesign Technologies como guia para melhorar seus produtos. Mesmo assim, como citado acima, produtos contém altos índices de poluentes.

Economia circular

 

Como dito acima, o público é preocupado muito mais com os preços do produto, do que com o comportamento da empresa. Mas mesmo assim, cada vez mais as empresas buscam alternativas para tornarem-se atrativas, ao menos do ponto de vista sentimental, ao mercado. Faz parte também do marketing de qualquer empresa mostrar-se consciente com a sociedade. Fazer com que o cliente compre um produto que colabora para que a empresa seja um diferencial entre todas as outras é também estratégia de negócio.

Assim nasceu o conceito de economia circular, um modelo econômico reorganizado, focado na coordenação dos sistemas de produção e consumo em circuitos fechados. Este novo paradigma substitui o conceito de fim-de-vida da economia linear (extração, fabricação e resíduos). A economia circular é vista como um elemento chave para promover a dissociação entre o crescimento econômico e o aumento no consumo de recursos, relação até aqui vista como inexorável. Este novo modelo propõe uma mudança em toda a maneira de consumir, desde o design dos produtos até a relação com as matérias-primas e resíduos.

Foto: https://www.themanual.com/

A economia circular pode ser uma solução para minimizar o impacto humano no meio ambiente, que repensa as práticas econômicas, indo além daqueles famosos três “R”s (reduzir, reutilizar e reciclar). Neste novo modelo são cinco “R”s: Reduzir, Repensar, Reaproveitar, Reciclar e Recusar. Sim, mas onde isso está sendo utilizado no universo outdoor?

Repare que nos últimos anos muitas empresas, dentre as quais destaca-se a americana Patagonia, oferece serviços de reparos para o público em seu programa “Worn wear”. Após o sucesso, outras empresas como a The North Face e Lojas REI também implementaram programas similares. Porém a empresa de Yvon Chouinard já implementa o programa em outros países. Neste ano de 2018, foi realizado o “worn wear” na Argentina e Chile.

No Brasil, infelizmente, praticamente não há, por parte de nenhuma empresa outdoor, programas de adesão à economia circular. Ainda reina entre as marcas outdoor, incluindo as internacionais que atuam no Brasil (com raríssimas exceções), a política do “é o que tem para hoje”.

Se os cinco “R”s foram aplicados adequadamente, o resultado implicaria numa enorme economia de água, energia, tempo, produtos químicos e matérias-primas utilizados na produção de artigos de roupa. Além disso, representaria uma melhora na qualidade do que é vendido no Brasil.

Sem dúvida há muito o que caminhar no Brasil com relação às marcas outdoor serem mais ecologicamente corretas, além de implementarem de verdade uma economia circular. Quase todas reclamam que o público não se importa com elas e valorizam mais as internacionais, muito disso deve ser porque elas mesmas não se importam com o próprio público e o nicho que exploram.

Ilustração: http://www.stylourbano.com.br

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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