Entrevista José Manuel Velázquez-Gaztelu – do filme “Prohibido Escalar”

Como seria se um dia você acordasse e não tivesse a possibilidade de praticar o esporte de montanha no seu local preferido?

Fazendo um retrato do que poderia acontecer: quem escala não pudesse escalar mais em Arcos-MG, ou quem gostasse de fazer um trekking o acesso ao Pico dos Marins fechado, e assim por diante.

Apesar de parecer impossível estas duas possibilidades citadas, há outros lugares que estão enfrentando esta José-Manuel-Velázquez-Gaztelu-6realidade dia a dia, por diversos motivos. Uma realidade existente no Brasil e no Mundo inteiro.

Pensando nisso um grupo de pessoas do site “Escalada Sostenible” na Espanha, se empenharam durante quase um ano para realizar o filme “Escalada Prohibida” para que a conscientização dos espanhóis com este problema cresça e haja uma maior união em torno de encontrar soluções para isso.

Para saber mais sobre esta iniciativa, a Revista Blog de Escalada procurou José Manuel Velázquez-Gaztelu para saber mais detalhes do filme, e também para que fale do perigo real de um dia termos a prática da escalada proibida em vários lugares da Espanha.

José, você terminou de fazer o filme “Proibido Escalar”, como foi o processo de filme em tantos locais de escalada?

Na verdade nós filmamos em mais locais que não saíram no produto final, mas decidimos deixar o mais relevante.

Fizemos uma seleção de áreas de certa importância nas que se estiveram produzindo problemas de acesso de tipos diferentes (locais privados e regulações meio-ambientais fundamentalmente).

E também, como contraponto, escolhemos outras, como o caso de “Chulila“, onde existe uma relação muito boa e produtiva entre os escaladores e o município.

Durante um ano e meio temos viajado (sempre em nossos dias livres, já que temos nossos trabalhos) por toda Espanha, filmando localizações e entrevistando tanto escaladores como outras pessoas implicadas na problemática.

Às vezes tivemos que repetir a viagem, já que conforme avançávamos o trabalho, apareciam outras pessoas importantes para entrevistar pois ofereciam pontos de vista que nos pareciam importantes.

Evidentemente, falta no documentário muitos lugares de escalada que estão vivendo conflitos.

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Na Espanha, assim como em muitos locais do munto há sempre o perigo da escalada ser proibida. Como as pessoas devem conviver com este perigo?

Efetivamente estamos em um momento muito delicado.

As administrações estão tomando um papel cada vez mais “protecionista” nos espaços naturais e, ao mesmo tempo, se tem produzido um enorme acréscimo no número de escaladores. 

Se a esta situação adicionarmos o desconhecimento da escalada por parte da maioria dos administradores destes lugares nos leva inevitavelmente a proibições absolutas e injustas.

A associação tem bastante claro que é necessário uma regulação (e NÃO proibição) em quase todas os locais de escalada, especialmente se esta se encontra em um lugar protegido.

O trabalho da “Escalada Sostenible” tem dois focos: por um lado é o de conscientizar e educar a comunidade de escaladores, divulgar de forma interna que vivemos em um momento crucial e que fazermos agora irá condicionar nosso futuro (este é exatamente o propósito do documentário), por outro, negociar com administrações e donos de fazendas a possibilidade de pratica a escalada.

O objetivo é chegar a acordos, defender nosso patrimônio de rocha e deixar muito claro que, se fizer as coisas bem , com respeito mútuo, todos – escaladores e espécies protegidas – podemos conviver.

Isso, no momento, supõe muito trabalho em diferentes âmbitos, quase todo voluntário e não remunerado.

Por isso acreditamos que é importante a união dos escaladores em associações.

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Mesmo com filmes como o seu, há escaladores que ainda fazem coisas erradas jogando todo um trabalho no lixo. Como evitar este problema?

Este problema vai existir sempre.

Há que assumir e levar em conta em qualquer ação que se faça. Somos tantos que sempre aparecerão os mal-educados, porcos, gente insensível…

Temos que insistir muito em nosso trabalho interno de conscientização, educar os escaladores que passam diretamente do ginásio para o meio natural e tentar que se evitem práticas habituais que supostamente danosos, não somente para a fauna, mas também a outros escaladores e usuários do local.

Neste caso, o trabalho extenso consiste em evitar que “paguem o inocente pelos pecadores”, isto é,  que o comportamento de uma minoria não afete a todo um coletivo.

Sempre utilizamos o mesmo exemplo: se uma pessoa vai a 200 km/h em uma estrada, o que acontece? O governo lhe da uma multa, mas não fecha a estrada a todos os outros motoristas!

Outro exemplo seria com o futebol: tanto em na Espanha como em muitos países da América, acontece muita violência entre as torcidas e nem por isso se proíbem as partidas.

Na escalada está acontecendo o contrário. Mas não somente isso, o escalador muitas vezes diante desta situação diz: “temos o que merecemos”. E não é por aí! Quem tem o que merecem são os culpados.

É injusto e é necessário mudar esta atitude de vítima.

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O filme “Prohibido Escalar” foi filmada em preto e branco. Por que?

Esta foi uma decisão dos “artistas” da produtora Zaunka, que estão encarregados da direção.

Praticamente toda a comunicação e publicidade que se faz sobre a escalada e montanha é colorida. O preto e branco avisa desde o primeiro frame que tudo o que não irá passar no documentário.

Com preto e branco pretendemos nos afastar do protótipo dos vídeos atuais de escalada que inunda as redes. 

Queríamos deixar claro que aqui não vamos ver grandes estrelas da escalada fazendo atividades extraordinárias. Um vídeo que fala de toda a parte de escalada que não tem a ver com o ato esportivo.

Falamos de sua dimensão social, econômica, política e ambiental. toda a tradição fotográfica em documentários preto e branco nos serve de referência e nos ajuda a afastar de uma narrativa visual que estamos acostumados

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Na América do Sul existem muitos lugares que tem o mesmo problema de acesso. Você acredita que seu filme vá inspirar outros escaladores a faze o mesmo tipo de documentário?

Seria extraordinário.

Ainda mais que exista uma comunicação internacional entre escaladores conscientizados e ativistas frente à mesma situação.

Seguramente acabaria sendo muito enriquecedor para todos.

Como as pessoas do Brasil e América do Sul podem ter a oportunidade de assistir ao filme?

Vamos estrear o filme no Bilbao Mendi Film, um festival internacional muito importante que há na Espanha e que nos selecionou.

Depois disso, seguramente pelo início de 2016, o documentário será disponibilizado na íntegra, com legendas em inglês e gratuito na internet.

O objetivo da “Escalada Sostenible” é que chegue quanto mais longe possível.

Adoraríamos ter a oportunidade de projetar “Prohibido Escalar” em algum cinema e poder conversar com os brasileiros!

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Quem são as pessoas que você gostaria de agradecer pela realização do filme?

Especialmente a todos os sócios da “Escalada Sostenible”, porque “Prohibido Escalar” foi possível graças a seu apoio.

Também às pessoas que aparecem no documentário: Anna Fargas, Jordi Calaf, Mikel Zabalza, Carlos Velázquez, Santiago Huarte, Miquel Riera, Jozua Janssen, Paz Azcona, Carmelo Fernández, Pedro Pons e Javier Morente.

Claro que falta muita gente que, de uma forma ou outra, nos ajudou muito.

Que não seja esquecido Targobank já que, por mais estranho que pareça, esta entidade financeira acreditou em nosso projeto.

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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