Entrevista com Zofia Reych

Mais do que nunca as mulheres estão reclamando sua merecida relevância no mundo moderno como dirigentes, escaladoras, jornalistas e também serem representadas de maneira digna e respeitosa pelo mercado publicitário. Não é segredo para ninguém que, munidos sempre de muitos clichês, os publicitários são responsáveis pela perpetuação de vários preconceitos, alguns até mesmo inaceitáveis, mas que são perpetuados por propagandas e marketing.

Para alterar a imagem que estes publicitários idealizam para as mulheres é necessário que hajam argumentos bem embasados em uma discussão civilizada com a sociedade para que se consiga, de fato, fazer o público realizar uma reflexão destes valores propagados indiscriminadamente. Mas importante lembrar que lutar contra o sexismo não é ofender alguém por conta de shorts curtos em desenhos, é pensar como um todo analisando todas as variáveis da equação.

Foto : Acervo Pessoal Zofia Reych

Foto : Acervo Pessoal Zofia Reych

Com rapidez de raciocínio, habilidade singular para as palavras, além de uma inteligência acima da média, a polonesa Zofia Reych publica frequentemente artigos que convidam todos os leitores à reflexão de como é a imagem que as mulheres praticantes de esportes outdoor possuem. Zofia, ao contrário de muitas outras pessoas, utiliza a razão e a objetividade para mudar este tipo de paradigma.

Reych, que também é uma fanática escaladora, já se envolveu em polêmicas com seus textos que tocam nas feridas do esporte outdoor e expõe, sempre que possível, várias atitudes machistas por parte tanto de homens quanto de mulheres ao redor do mundo. Com seus textos extremamente bem escritos, sempre utilizando argumentos expositivos e diretos, Zofia Reych é, na minha opinião uma das escaladoras mais inteligentes do mundo, além de ser uma feminista engajada e evangelizadora, mas nunca sem perder a lucidez e objetividade. Você não verá a polonesa vociferando com ódio sobre alguma charge ou conteúdo que não goste. Como uma pessoa civilizada e dotada de inteligência, Zofia sempre argumenta com inteligência sem procurar agredir.

Após vários e-mails consegui arrumar um espaço na sua agenda para que ela pudesse responder a algumas perguntas e fui presenteado com uma das mais profundas entrevistas de toda a história da Revista Blog de Escalada.

Para saber mais sobre as opiniões e suas aventuras na escalada você pode acompanhar Zofia na sua fanpage : https://www.facebook.com

Zofia, você frequentemente escreve sobre sexismo e escalada. Você acha que com tantas mulheres escalando este aspeto mudou ?

Tenho certeza que está mudando, mas há dois processos acontecendo ao mesmo tempo. O primeiro é positivo. A escalada está ficando cada vez mais popular, atraindo mais garotas para o esporte. Mais mulheres na comunidade significa cada vez menos sexismo, porque tem de adaptar.

No geral, mesmo com a escalada sendo historicamente uma disciplina dominada por homens, é para pessoas de espírito livre. Mulheres fortes podem sempre cravar um caminho para elas mesmos com o esporte, sendo respeitadas e reconhecidas pelas suas conquistas, (claro, tem sido difícil, com algumas pessoas querendo decotar as vias que foram conquistadas por uma mulher, e assim por diante).

Foto : Bradley L. Garrett

Foto : Bradley L. Garrett

Mas o que eu quero dizer é que o segundo processo que eu vejo, com a escalada tornando-se mais mainstream é trazer as ideias do mainstream sobre feminismo ao esporte. Sabe, mulheres têm de ter cabelo longo, serem sexy, e assim por diante – A escalada está tornando-se como o mercado de fitness, no qual a massificação sexista está na alma, porque valoriza o visual sobre a habilidade.

Por isso, de um lado nós melhoramos níveis de participação, com mais escaladoras mulheres, e mais mulheres na indústria (escrevendo, filmando, entretendo), mas do outro, há o mainstream da sexualização. É muito interessante testemunhar e aprender onde queremos estar em alguns anos.

Você acredita que algumas pessoas, e marcas também, estão tomando vantagem com a onda do “empoderamento feminino”? Por que ?

Olha, é como um anúncio parodiando uma popular marca ciclismo, “Mulheres – agora um segmento de mercado reconhecido”.

Mais mulheres estão presentes na comunidade, e temos que comprar este poder. É simplesmente natural que empresas queiram apelar para seus clientes em potencial. Não me surpreende e não me faz sentir pior do que qualquer outro processo de consumismo.

Foto : Linus Karlsson

Foto : Linus Karlsson

Como Identificar hoje, na comunidade escaladora, comportamento chauvinistas ? Como mudar isso ?

Existem muitos exemplos que posso citar ! Eu acho que falando de uma maneira ampla, diria que assumir que mulheres são fracas, fisicamente e psicologicamente, e agir desta maneira. Sabe, como incentivar ferozmente uma garota em um V2 (“você consegue, vamos !”) quando de fato ela está apenas aquecendo, porque a presunção disso deve ser duro para ela.

Você faria isso para um cara ? Provavelmente não.

Tudo é sobre o contexto inserido. O mesmo comportamento pode significar diferentes coisas em diferentes contextos. Se você sabe que uma garota é uma escaladora novata, então claro que deve torcer para ela !

Mas no nível profissional, eu espero ver marcas trabalhando com mulheres escaladoras baseado nas suas conquistas e destaque na comunidade, não no seu visual.

Foto : Andy Day

Foto : Andy Day

Há um tempo atras você esteve em uma discussão sobre como a mídia explora as mulheres na escalada. Você acha que houve mudança deste então ? Por que ?

Nos últimos anos foram muito importantes e eu acho que mudou muito. Mulheres hoje estão criando mídia, assim como ficando de olho em como o sistema a está retratando.

Há definitivamente cada vez menos representações sexistas e mais equilíbrio no volume de cobertura. Mas a estrada para o equilíbrio real ainda é longa.

Na sua opinião, como ginásios, locais de escalada e escaladores podem tratar as mulheres com mais respeito ?

Não suponha que somos mais fracas apenas porque somos mulheres ! Eu acho que esta é a coisa mais importante. Eu pessoalmente odeio a frase de “você é muito forte para uma garota”, ou, “este movimento é forte para uma mulher”. É estúpido.

Nós precisamos aceitar mulheres atletas e valentes como uma coisa normal. Elas são um fato, aceite.

Foto : Andy Day

Foto : Andy Day

Lidando com um assunto tão difícil como sexismo fez você ganhar vários inimigos e incontáveis haters. Como você lida com isso.

Eu sei que estou certo, então não me importo !

Obviamente que há várias maneiras que possa estar errada como, por exemplo, que fazer a escalada esporte olímpico irá aumentar o sexismo na comunidade. Mas é apenas na minha opinião. 

Mas em um nível mais básico, dizer que sexismo ainda existe e que devemos lutar contra isso, sei que estou certa. Se alguém não enxerga, de alguma maneira sinto que é meu trabalho fazer eles entenderem. Às vezes sinto que vou só calar a boca sobre o assunto, porque estou cansada.

Você tem algum conselho a dar para todas as mulheres escaladoras ?

Faça a sua coisa ! Acredite em você mesma, e se deparar com algum comportamento inadequado, não deixe isso parar você. No início quando eu desisti da escalada anos atrás, foi por causa de lesões, mas também porque não sentia apoio da minha comunidade local. Fico pensando onde estaria com a minha escalada agora, já que eu parei por quase uma década. Arrependo muito de ter acontecido isso.

Ainda na época eu não tinha notado que era por causa do sexismo, mas agora eu vejo que era. Eu desejo ter sido uma pessoa mais forte na época, capaz de fazer as minhas coisas a despeito da pessoas me olharem torto. Eu sinceramente espero que isso não aconteça com mais ninguém, e quero que as mulheres saibam que o sexismo existe, mas também tenham força para não se importarem !

Outra coisa também, nunca assuma que você não possa afazer algo porque é mulher. Isso é somente a sociedade fazendo você acreditar nisso, mas não é verdade, vá à luta !

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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