Entrevista com Vinicius Todero

Foto: Miguel CatitaEmbora pouco alardeado pelo Brasil uma localidade que podemos considerar como um excelente berço de fortes escaladores é o estado do Rio Grande do Sul. Nas terras gaúchas existem escaladores que escalam em alto nível, e que representam muito bem o país quando estão em terras internacionais.

O escalador Vinicius Todero é um destes “montros” que por mais que desfilemos adjetivos elogiosos, ainda assim seria pouco para descrever o que ele representa para a escalada gaúcha. Hoje vivendo no paraíso da escalada esportiva, Catalúnia, é dono de um estilo leve e fluido de escalar que sempre conseguiu alcançar marcas na escalada impressionantes.

Foto: Miguel Catita

Foto: Miguel Catita

Residente em Barcelona, tem em um raio de 100km muitos lugares de escalada para lapidar mais ainda seu talento.

Por ser uma personalidade única, e referência para a escalada não somente no Rio Grande do Sul, mas também para o Brasil inteiro, a Revista Blog de Escalada procurou Vinicius Todero para uma entrevista para que possamos saber mais sobre este escalador.

Sempre com respostas descontraídas, mas cheias de conteúdo, a entrevista pode ser lida abaixo

Vinícius você hoje é considerado um dos escaladores mais fortes do Brasil. Como foi a sua caminhada até chegar a este nível.

Comecei a escalar em 1999 junto com um grupo de amigos, no início escalávamos e treinávamos guiados por nossos próprios instintos, já que a informação sobre treinos era escassa e não tínhamos muito contato com outros escaladores.

Em 2000 fiz meu primeiro 9a, a partir de ai comecei a ter mais contato com a comunidade escaladora de Caxias do Sul e do Rio Grande do Sul.

Foto: Sarah Fedrizzi

Foto: Sarah Fedrizzi

Por esta época comecei a treinar junto o Jimão (Jimerson Marta) e a levar a coisa mais a sério e a escalada passou a ser um dos principais focos da minha vida.

Assim de 2000 a 2006 – 2007 quando fiz meus primeiros 11a’s fui evoluindo um grau por ano.

Esta evolução até o 11a foi um pouco forçada, digo isto porque na época que comecei a escalar as vias mais difíceis do Rio Grande do Sul eram dois 9c’s, 9b’s existia um e 9a’s alguns poucos.

Desta forma, quando fiz estas poucas vias, ainda tinha uma base bem pequena, tive que começar a abrir vias e buscar projetos para seguir evoluindo, em função disto todas as vias que representaram uma evolução na minha trajetória do 10a ao 11a foram abertas por mim junto com alguns amigos.

Isto por um lado é gratificante, mas por outro lado, como minha base em um grau era pequena, me custavam muitos “pegues” para passar ao seguinte.

Em 2007 me formei em Engenharia Ambiental, fiz uma viagem de 5 meses pela Europa e ao voltar ao Brasil comecei a trabalhar, a partir de ai sempre segui escalando e mantendo um certo nível, mas por muito tempo a escalada ficou com um papel coadjuvante na minha vida e a partir de ai não subi de grau.

El batec, 8a+, Tres ponts, Vinicius Matté

Foto: Vinicius Matté

Entretanto em 2011, junto com minha esposa, decidimos largar tudo no Brasil e vir para a Espanha.

O motivo principal era a realização de um mestrado, mas no fundo toda minha motivação era a escalada.

Apesar de meu grau máximo seguir sendo 11a acredito que evolui bastante como escalador nestes últimos anos, sinto que já poderia ter feito algum 11b por aqui, mas como no Brasil não fiz base, ou seja, não escalei um grande volume de vias mais fáceis estou fazendo isto agora.

Atualmente tenho uns 250 8º Fr, sendo uns 30 à vista, e já tenho muito mais vias encadenadas aqui em 2 anos e meio que em 11 anos no Brasil.

Está em meus planos tentar vias de 11b, 11c mas quero que seja quando me sinta mais preparado, atualmente me sinto bem mais motivado escalando à vista ou mandando vias com poucas tentativas.

Tenho orgulho das vias que abri e encadenei no Brasil e de minha evolução aí, mas por outro lado penso que se já existisse um bom número de vias de base abertas esta evolução teria sido bem mais fácil e inclusive hoje já poderia estar num nível de 11c, mas foi muito gratificante evoluir sobre minhas próprias vias.

Resumindo acredito que os motivos de minha evolução foram a dedicação, não a treinos em específico, mas ao esporte como um todo e também a constância.

Obviamente já tive fases que me dediquei mais e outras menos, mais motivado ou menos, mas sempre estive escalando e mantendo um nível médio.

Não há numerosos locais de escalada no Rio Grande do Sul, como um escalador como você faz para estabelecer seus projetos?

Os dois setores onde mais centrei meus esforços para abrir e encadenar vias difíceis, foram inicialmente a Gruta da Terceira Légua, e mais recentemente no Salto Ventoso.

Estes foram os setores que mais frequentei, e a partir do momento que comecei a ficar sem vias novas para escalar comecei a buscar novas linhas.

As linhas que restavam por abrir eram as mais difíceis ou menos óbvias.

Assim, com muito trabalho, sempre com a ajuda de amigos, um pouco de criatividade e muita motivação, as linhas começaram a surgir.

Muitas delas futuristas para meu nível na época, mas algumas pude encadernar e impulsionar minha evolução.

Foto: Sarah Fedrizzi

Foto: Sarah Fedrizzi

Lembro ainda que muitos dos projetos demorei bastante tempo só para conseguir isolar os movimentos, mas cada movimento isolado era uma realização.

Hoje em dia ainda tenho pelo menos uns 10 projetos de 11a – 11b nestes dois setores, sendo que uns 5 já tenho os movimentos tirados mas não tive tempo de me dedicar para encadená-los.

A comunidade de escaladores do Rio Grande do Sul é considerada uma das mais unida do Brasil. A que você acredita esta fama?

 Como não temos muitos setores e a comunidade é pequena a galera acaba sempre se encontrando nos mesmos locais, criando amizades que vão além de simples parceiros de escalada.

O ambiente nos setores durante a escalada é sempre bem agradavel e de confraternização, e depois dela segue divertido quando se comemoram as vias encadenadas com a tradicional rodada de cerveja em agradecimento aos deuses da cadena.

O fato de o Rio Grande do Sul ser uma parte um pouco isolada geograficamente do resto dos grandes centros de escalada do Brasil, e as vezes até esquecida ou temida pelo resto da comunidade escaladora brasileira, também ajuda a criar uma cultura de escalada própria que nos une como amigos e escaladores.

Acredito também que o que contribui é que não existe muita competição, inveja, nem “puxassaquismo”.

Quem escala sexto escala junto com quem escala décimo e todos estão juntos desfrutando e confraternizando.

Mesmo sendo um escalador forte, você não se dedicou à competições. Qual o motivo desta escolha?

Foto: Vinicius Matte

Foto: Vinicius Matte

O primeiro motivo é que as competições são na resina, escalo em muro para treinar, mas não é o que gosto, além disso escalo bastante pior em resina que em rocha e me motivo muito menos.

 Segundo, as competições tomam muito tempo e dinheiro para poder viajar aos locais de competição, que sempre estão longe do Rio Grande do Sul.

Assim se tenho que investir tempo e dinheiro prefiro conhecer um setor novo, e escalar em rocha do que ir a uma competição.

É verdade que se consegues bons resultados podes conseguir patrocínios, mas nunca vi a escalada como uma forma de ganhar a vida, mas sim como uma forma de levar a vida.

 Terceiro, sou bastante ansioso, as concertações dos campeonatos são uma tortura, e a possibilidade de viajar muitos quilômetros para escalar, quem sabe uma via, me desmotivam completamente.

 Competições de Boulder, vejo mais interessantes, mas também sou muito ruim em boulders, tenho trabalhado para melhorar neste aspecto, mas se tenho a opção de um finde em rocha provando vias novas ou ir a uma competição, irei optar pela rocha, que é o que gosto mesmo.

Se você pudesse enviar alguns conselhos para você mesmo a 10 anos atrás, qual seriam?

 Pergunta interessante, a primeira coisa que me vem a cabeça seria consiga uma sapatilha boa de verdade logo!

Escalei por muito tempo com sapatilhas que deixavam a desejar, em função disto e do estilo de escalada onde me criei (Gruta da 3 légua) as vezes sinto que me falta um pouco de técnica de pés.

Um outro conselho seria, espere o melhor momento para dar o pegue bom, apesar que este conselho segue sendo válido.

Quase nunca consigo esperar as melhores condições para provar uma via, quando chego no setor tenho que sair logo escalando.

Um terceiro seria para 7 anos atrás, quando vim pela primeira vez para a Europa, e seria “não volte ainda, fique um ano mais desfrutando e evoluindo nas paredes européias”.

Mesmo sendo um escalador com tantas ascensões difíceis no curriculum, não possui patrocínio. Você acredita que é possível marcas de equipamentos outdoor patrocinarem escaladores? Porque?

Entendo por patrocínio uma quantia mensal fixa de dinheiro, suficiente para um atleta poder dedicar-se exclusivamente, ou quase exclusivamente ao esporte, isto tudo registrado em um contrato.

Entendo também que se um atleta tem um patrocinador, este patrocinador deve dar apoio em termos de profissionais de foto e vídeo para que este atleta possa registrar de forma profissional suas escaladas e fazer uma divulgação de qualidade da marca.

Foto: keith ladzinski

Foto: keith ladzinski

No Brasil, comercialmente, não vejo para estas marcas muito rentável realizar um patrocínio dentro destes conceitos.

Em nosso país a escalada não é um esporte que gera muita mídia, apesar de estar crescendo e se popularizando bastante nos últimos anos, o número de participantes é muito pequeno para as proporções do país.

Para as marcas internacionais, que teriam mais poder para patrocinar atletas e eventos, os impostos de importação  são abusivos, fazendo com que o consumo de estes equipamentos dentro do mercado Brasileiro seja pequeno.

Quem tem a possibilidade prefere pagar até a metade do preço na Europa, EUA, ou até no Chile.

Por este e por outros motivos o esporte no Brasil é muito pouco profissional e estas marcas acabam não se interessando por patrocinar atletas brasileiros, por outro lado os atletas que querem se profissionalizar não dispõe de recursos e seguimos com o esporte estagnado no amadorismo.

Por outro lado apoiar atletas com equipamentos e algum suporte financeiro, para que pelo menos tenham condições de tentar profissionalizar-se isto pode ser viável sim, e com isto no futuro pode ser que inclusive marcas brasileiras possam ter atletas patrocinados.

 Sem dúvida o número de escaladores aumentou significativamente nos últimos anos. Como você visualiza este crescimento?

 Bom e ruim!

Bom porque como comentava anteriormente se o esporte cresce, crescem as oportunidades de patrocínio para atletas, se profissionaliza mais o esporte, o acesso a equipamentos é mais fácil e barato, enfim, de um modo geral tudo fica mais fácil.

Por outro lado surgem setores massificados, maior número de pessoas sem educação e compromisso com o esporte, que geram fechamento de setores (problema bem comum ai no Brasil), surgem conflitos de interesses, o ambiente dos setores já é mais como se fosse um ginásio do que uma atividade em meio a natureza, e este é o lado ruim.

Atualmente, eu como um escalador gosto de sofrer e que as coisas sejam difíceis, e tenho uma nostalgia com relação ao ambiente da escalada dos anos 80, mesmo sem tê-la vivido, tudo era mais difícil e precário, se você escalava era porque realmente gostava, não porque é uma modinha e eu quero praticar um esporte radical para postar fotos no facebook!!!

Não gosto de setores massificados, vias polidas e tendo uma visão um pouco egoísta e idosa, preferiria que o esporte parasse de crescer em número de praticantes.

Até porque também vejo, pelo menos no Rio Grande do Sul, uma “entressafra” de escaladores que realmente ajudam a desenvolver o esporte.

O número de praticantes aumentou significativamente, mas as associações são mais fracas e menos ativas, os campeonatos praticamente não acontecem mais, e até novas vias em rocha são bastante raras, e quando algo acontece é por iniciativa dos “antigos” escaladores.

 Bom, esta seria um pouco minha opinião em relação a alguns aspectos da escalada e um pouco da minha trajetória dentro do esporte.

Boas escaladas a todos!

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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