Entrevista com Vanessa Staldoni

Cume da Agulha De la S - El Chalten, Argentina - Autor: Alexandre Altmann

Cume da Agulha De la S – El Chalten, Argentina – Autor: Alexandre Altmann

O que faz um escalador ser considerado completo?

Alguns consideram o grau escalado, outros a quantidade de vias realizadas, há ainda quem acredite que estar sempre escalando é uma característica.

Fosse apontar dos escaladores que conheço, e tenho notícia, quem mais merece admiração de toda a comunidade seguramente seria a gaúcha Vanessa Staldoni.

Radicada no Paraná a um ano Staldoni é talvez das escaladoras mais completas da atualidade, sempre mantendo a simpatia, humildade e determinação que possui em todos os dias.

Dotada de uma grande energia interior é um exemplo não somente para o público feminino como também para toda e qualquer pessoa que pratica atividades outdoor.

Existisse alguma condecoração de “Troféu Into the Wild” Vanessa seguramente ganharia .

Para encerrar o mês das mulheres (no qual somente mulheres são entrevistadas) escolhemos a que mais admiramos para falar sobre tudo.

Vanessa Staldoni respondeu sem medo, e com a elegância de sempre, todas as perguntas que resultou em uma das melhores entrevistas publicadas pelo site em seus 8 anos de existência.

Leia tudo abaixo.

Vanessa o número de mulheres que escalam no Brasil cresceu muito nos últimos anos. Para você qual o impacto deste novo perfil do praticante de escalada?

Tenho muito orgulho de saber que o número de mulheres na escalada tem crescido.

Sou fã da escalada feminina.

A leveza, a elasticidade e a técnica de uma mulher escalado são coisas muito bonitas de se ver.

Desde que elas respeitem o ambiente das montanhas e não se importem com unhas quebradas e roxos nas pernas, acho que todos tem a ganhar com a presença feminina nos picos de escalada.

Via: Rei do Torresmo (7a) - Serra do Cipó, MG - Autor: Renata Leite

Via: Rei do Torresmo (7a) – Serra do Cipó, MG – Autor: Renata Leite

Ser escaladora e residir em Curitiba facilita ou dificulta a vida de quem pratica o esporte?

Facilita e muito!

Além de possuir centros de treinamento muito bons e lojas especializadas em equipamentos para esportes de aventura, Curitiba fica muito próxima de picos de escalada incríveis como o Marumbi, Anhangava, São Luis do Purunã, Curucaca, Buraco do Padre, Corupá, entre outros.

Cada lugar tem a sua particularidade, onde você pode treinar diferentes técnicas e ficar preparado para qualquer parede que queira enfrentar.

Só não evolui no esporte por aqui quem não quer.

Muitos escaladores procuram patrocínio para se dedicar mais ao esporte. Na sua opinião porque as marcas brasileiras se esquivam de patrocinar atletas de escalada?

Porque, no nosso país, escalada não é um esporte popular como futebol, por exemplo, que move rios de dinheiro.

Acredito que as marcas brasileiras ainda não possuem o conhecimento de que o praticante de escalada é um cliente em potencial, exigente e que não se importa em pagar um preço justo pela segurança e qualidade dos equipamentos que utiliza.

Acho que eles estão perdendo tempo em não investir em atletas de escalada.

Você acredita que “amigos” e “parceiros de escalada” são duas coisas diferentes?

Sim, são coisas diferentes.

Parceiros de escalada são pessoas que encontramos apenas na rocha e, pela experiência e segurança que passam, se tornam grandes parceiros nessa atividade.

Colocamos nossa vida nas mãos delas, dividimos inseguranças e tomadas de decisões juntos na parede.

Mas fora do ambiente da montanha não temos mais nenhuma afinidade.

Amigos de escalada, além das características já citadas, possuem afinidades que transcendem o ambiente da montanha.

Eu tenho a sorte e a felicidade de possuir muitos amigos de escalada!

Via: Enferrujada (6 sup) - Morro do Itacolomi, RS - Autor: Carlos Monkey

Via: Enferrujada (6 sup) – Morro do Itacolomi, RS – Autor: Carlos Monkey

A escalada ainda é um esporte predominantemente masculino. Você como mulher como administra as inevitáveis cantadas de escaladores?

Mesmo sendo um esporte ainda predominantemente masculino, não me sinto constrangida.

Os meninos são muito respeitosos e nunca tive problemas como administrar cantadas porque realmente elas não existem no momento da escalada.

Durante a escalada o ambiente é de total parceria.

Na sua opinião qual seria o estilo de vida de um típico escalador?

O típico escalador ou escaladora é aquela pessoa que está sempre viajando, com pouca ou bastante grana.

Essa pessoa em hipótese alguma vive pelo trabalho, mas trabalha o mínimo para poder viver de forma simples e saudável e se manter no esporte.

Tem hospedagem na faixa para quase todos os lugares que viaja e sabe ser anfitriã também.

É amigável, sabe apreciar a beleza das coisas simples da vida e respeita os ambientes naturais.

É uma pessoa incompreendida e ao mesmo tempo admirada pelas pessoas comuns.

Quais são os melhores lugares de escalada que já visitou? Porque?

boulder (V2) - Ubatuba, SP - Autor: Beatriz Grassi

boulder (V2) – Ubatuba, SP – Autor: Beatriz Grassi

Para minha sorte, em sete anos de escalada, já tive a oportunidade de conhecer muitos lugares incríveis.

Além da qualidade das vias, o que me chama a atenção nesses lugares é a beleza das paisagens, a receptividade e a cultura dos habitantes locais.

É difícil escolher o melhor local, mas existem dois que me marcaram bastante e que não vejo a hora de voltar.

Na escalada tradicional o Cerro Catedral, em Bariloche, Argentina.

Além de ser um lugar incrivelmente belo, as escaladas por lá são maravilhosas, com fendas perfeitas.

O clima patagônico também me agrada muito e você conhece pessoas do mundo inteiro lá.

Na escalada esportiva a Serra do Cipó, em Minas Gerais.O Cipó é tudo o que dizem e muito mais. As vias são obras-primas da natureza, a receptividade do povo mineiro então, nem se fala.

A energia das pessoas é muito forte lá.

Um lugar onde você faz amizades para a vida toda.

No ano de 2013 não houve a organização de campeonatos de escalada. na sua opinião, você acredita que as competições de escalada são viáveis?

O Brasil possui atletas de escalada de alto nível, porém pouquíssimos conseguem sobreviver apenas do esporte e é nesse lado que perdemos força na organização de grandes eventos.

Como vamos organizar grandes campeonatos se os atletas precisam retirar dos próprios bolsos dinheiro para o transporte, por exemplo?

Para as competições serem viáveis, os atletas precisam se preocupar apenas com a performance esportiva.

Qual conselho você daria a uma mulher que está começando a escalar?

Não ache que é necessário muita força no braço pra escalar.

Seja independente e não se considere o sexo-frágil (carregue sua mochila, equipe sua via, monte sua barraca, cozinhe a sua refeição).

Não tenha medo de treinar forte por achar que vai ficar com o corpo masculinizado.

Deixe de lado frescurices como unhas impecáveis, cabelo no lugar e colchão fofinho para dormir e curta com toda a intensidade a pura vida que a escalada tem a oferecer.

Escale forte e mantenha a vida simples!

Via: Apnea (5.10a) - Cochamo, Chile - Autor: Tiago Santos

Via: Apnea (5.10a) – Cochamo, Chile – Autor: Tiago Santos

Via: artificial A0 - Taquara, RS - Autor: Rafael Seco

Via: artificial A0 – Taquara, RS – Autor: Rafael Seco

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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