Entrevista com Renata Terzi

Nas já esquecidas e obsoletas enciclopédias sempre que um verbete fosse importante havia uma foto ou ilustração daquilo que o personificava.

Não seria nenhum exagero afirmar que na palavra “liberdade” estaria a carioca, mas mineira de coração, Renata Terzi representada com várias fotos.

Sempre vivendo de acordo com sua intuição, a alguns anos Terzi mudou-se para a Serra do Cipó largando tudo para trás para experimentar um sentimento único e singular: a liberdade.

Muito espirituosa e dona de um sorriso contagiante Renata administra uma pousada na já consagrada Serra do Cipó, além de ser dedicada, e engajada, escaladora da região dos calcários do Brasil.

Dotada de simpatia, carisma e beleza já conhecidos no parque, procuramos Renata Terzi para uma entrevista para não somente o estado de Minas Gerais conhecesse sua personalidade, mas também o restante do país.

Em cada resposta concedida a nós apenas confirmou todas os adjetivos positivos, muitas vezes até mesmo superlativos, ditos por quem a conhece.

Acompanhe a entrevista abaixo:

Renata você mora na Serra do Cipó, que é considerado o principal lugar de escalada do Brasil. Como é a vida de um morador na Serra do Cipó?

Foto: Nathalie Sterblitch

Foto: Nathalie Sterblitch

Eu amo o Cipó e é bom demais viver aqui.

A natureza deste lugar é única.

No alto da Serra você experimenta visuais de beleza deslumbrante.

Sou extremamente feliz por estar aqui, fui descobrindo isto naturalmente e criei uma ligação com o lugar.

A escalada do Cipó é muito linda e peculiar.

A qualidade da rocha exige um bom trabalho de pés e muito posicionamento, quadris sempre em movimento, como uma dança.

Hoje minha paixão se estende da pedreira, até os rios, montanhas e o povo daqui.

Compartilho momentos muito especiais com grandes amigos que fiz, sempre com histórias e sabedoria desta terra.

Cada dia conheço mais e tenho mais amor e zelo pela Serra do Cipó e percebo que ela tem necessitado de cuidados especiais.

Você também administra uma pousada na Serra do Cipó. A vida de um administrador de Pousadas é tão glamoroso quanto parece?

Foto: Renata Terzi

Foto: Renata Terzi

Sim, administro o Quilombo Abrigo, na Serra do Cipó.

Acho que o glamour está exatamente no “abandono do glamour”, na adoção de uma vida simples, que exige abdicação mesmo, porém muito prazerosa e de qualidade.

Alterei toda minha vida por causa da escalada. Fui farmacêutica industrial por 10 anos.

Um ano depois de começar a escalar, me mudei do RJ para BH, pois me apaixonei pelo estilo da rocha daqui.

Cheguei a trabalhar como farmacêutica em BH.

Super envolvida com a escalada, vim para o Cipó passar 3 meses e acabei ficando um pouco mais (3 anos já se passaram).

Hoje sou abrigueira e eventualmente guia de pedra não credenciada, mas já fiz de tudo: copeira, arrumadeira, caroneira , guia terceirizada até gerente de loja à noite, porque de dia tem que escalar, né?!

Não forcei barras, deixei com que todas as mudanças ocorressem naturalmente.

Sempre fiz e faço tudo com muito amor e dedicação e vivo um sonho que nem eu mesma sabia que tinha!

Então fica meu conselho para quem deseja fazer este “rompimento”: Faça honestamente e com muito amor!

Não adianta romper e continuar achando que precisa de muitos pares de sapato… por exemplo rs.

Foto: Sâmara Noronha Ismael

Foto: Sâmara Noronha Ismael

Todo escalador esportivo começa o ano com m projeto ambicioso na escalada. Você possui algum? qual?

Tenho sim minhas ambições, mas com a diferença que invisto toda a minha existência em torno delas.

Vivo de escalada, para escalada, pela escalada… sendo assim, retiro a obrigação em “cumprir metas e projetos”, pois estou sempre na pedra.

Foto: Marcos-A

Foto: Marcos-A

Desejo muito a “evolução”, mas a deixo como conseqüência, e não como finalidade.

Tenho vias que gostaria muito de mandar, pois me chamam atenção pelo desenho, beleza e movimentação clássica.

São inúmeros os projetos e “vontades”, mas que o processo seja feito na rocha, de forma natural, dure o tempo que durar!

Atualmente estou me dedicando aos boulderes, algo que não fazia muito, mas sempre achei divertido.

É uma maneira de agregar força à minha escalada, ao mesmo tempo sem sair da pedra e ainda me divertir com a garotada, especialmente a galera de Conceição do Mato Dentro: Dimitri, Marco Antônio, Marcos Vinícius, amigos que me receberam muito bem e me aplicam nos melhores!

Valeu galera!

Tenho ido direto para Conceição e quem quiser apertar nos boulderes por lá, cola comigo que eu já conheço muito e posso aplicar também.

Investi em 2 crash pads da (marca) Zen para o Abrigo, os quais recomendo totalmente e disponibilizo para os Quilombolas!

Me divirto muito sempre que vou lá e quero que todos possam também!

Com o crescimento da popularidade da escalada, houve também um aumento significativo dos incidentes com escaladores como lixo em lugar indevido, desrespeito a propriedades privadas entre outros. Como está este aspecto na serra do cipó?

A comunidade de escalada da Serra do Cipó está completamente consciente e segura das suas ações perante os proprietários.

Temos hoje uma associação (AESC) e toda uma comunidade escaladora com atitude e respeito para ajudar nas relações e na proteção do nosso Santuário.

Estamos fortalecidos e entendemos o valor deste lugar e as autoridades estão finalmente reconhecendo nossas idéias e o mínimo impacto da escalada.

É com muita alegria que digo isto e com este perfil só teremos a ganhar!

Houve um aumento também no número de incidentes criminais na Serra do Cipó. Como a comunidade local está se organizando para combater a violência?

Foto: Renata Terzi

Foto: Renata Terzi

Sim, estamos muito tocados por isto, tristes mesmo, pois sabemos que tudo que estamos passando é fruto da presença das empresas de mineração, aumento populacional sem controle e também da falta de informação e cultura.

Tivemos 3 roubos consecutivos na casa de um amigo escalador, o Tom Gomes, em que levaram quase tudo, seus equipamentos, parte da mobília entre outras coisas, em menos de 1 mês.

Incentivar a criançada local aqui da Serra na escalada é uma iniciativa que muitos de nós escaladores locais já fazemos, mas percebemos que infelizmente não há muita perseverança com relação a prática por parte deles, muito devido aos valores e à cultura.

Iremos nos reunir no próximo dia 28 com o Deputado Estadual Carlos Pimenta para participar de uma Audiência Pública, na escola estadual local, para debater sobre a violência no Município que é considerado Polo Turístico de Minas Gerais.

Há vários escaladores que classificam os escaladores pelo grau que escalada, tendo até mesmo preconceito com quem pratica em top-rope. Qual a sua opinião a respeito disso?

Foto: Paulo Ferreira

Foto: Paulo Ferreira

Sou completamente a favor do top-rope até que se esteja seguro para guiar e admiro muito mais um escalador que escala bonito do que um escalador todo forte e bruto que só usa a força.

Acho bonito principalmente ver mulheres escalando, devido à grande harmonia e beleza dos movimentos.

Costumo dizer que quando um homem consegue escalar com a técnica e delicadeza de uma mulher é um grande escalador!

Está cheio de “juízes da escalada”, escaladores que só se preocupam com números e com o próprio ego, ou seja, mal curtem a verdadeira evolução e a evolução dos amigos, pois estão ocupados demais pensando no grau ou no que o outro está escalando…

São os pseudo-atletas…

Este escalador provavelmente quase não se diverte e perde seu tempo escalando.

Deve haver maturidade. Se estivermos dentro de uma competição, onde existem os atletas inscritos e tudo mais, a coisa muda de figura, pois existe um sistema a ser seguido, uma pontuação relacionada, ou seja, justifica-se a “classificação”.

Não entendo nada de competição em escalada, mas respeito e admiro os atletas super focados.

Devo confessar que tenho me esforçado para entender a escalada como esporte, mas ainda não consigo.

Desde 2008 vejo a escalada como uma atividade ao ar livre, que tem na parceria e no contato com a natureza seus componentes principais.

Além disso, uma forma de superação própria, bastante pessoal, encontro e união com os parceiros, principalmente com quem você segura ou é segurado.

Vejo muito também como uma forma de arte, traduzida pela forte expressão corporal, como uma dança na pedra. E, acima e tudo, vejo como vida, paixão, amor!

Uma das reclamações dos escaladores que vão à Serra do Cipó é pela pouca quantidade de vias de vias de “grau baixo” (vias abaixo de 5º Grau), o que você pensa disso?

Foto: Sâmara Noronha Ismael

Foto: Sâmara Noronha Ismael

Em se falando de guiadas de vias esportivas, acho a questão do grau bastante relativa e pessoal, por exemplo: a Viadagem (via no Cipó) é dita um “quarto grau” que muitos escaladores ditos de “oitavo grau” não fazem, devido ao seu caráter mais técnico e “paredístico”, com as proteções um pouco esticadas…

Acho que o grau não conta muito nesse momento, mas sim o estilo e a opção do escalador por entrar na via.

O grau, sendo assim, é apenas uma referência que não define, por exemplo, o nível de exposição de uma via.

Acho mais valioso informar-se sobre o nível de exposição do que sobre o grau exato de uma via.

Sou particularmente defensora das vias bem protegidas, com posições estáveis de costurada, mais democráticas, independente da graduação.

Acho que altas emoções devem se restringir aos adeptos da alta montanha, das grandes paredes, onde se procura algo mais inóspito e às vezes sem retorno.

É uma opção!

A escalada dita “esportiva” deve ser esportiva, uma diversão, com total segurança.

Sendo a Serra do Cipó um dos mais populares locais de escalada do Brasil ainda assim não há muitos eventos de encontro de escaladores. Você acredita que nos próximos anos isso irá mudar?

Acredito sim, já está mudando e vai mudar ainda mais.

Sou totalmente a favor dos encontros e, se forem realizados de maneira consciente e ecológica, só tendem a fortalecer e ajudar a difundir a Escalada Brasileira.

Nos últimos anos houve um sensível aumento do número de escaladoras no Brasil. A que você credita este aumento?

Acho que as mulheres estão cada vez mais descobrindo atividades anteriormente praticadas somente por homens.

Sob o meu ponto de vista, a escalada é a mais vantajosa prática geradora de saúde e qualidade de vida.

Escalar na rocha proporciona momentos de meditação, nos levando ao centro do que realmente somos.

Venham visitar o Cipó galera, tenho prazer de mostrar este lugar incrível e direcioná-los de maneira sempre carinhosa e especial!

Boas escaladas, qualidade de vida a todos!

Renata_Terzi4

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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