Entrevista com Renata Freitas Tavares

Algumas pessoas são dotadas de mais sensibilidade que outras, e isso é notável a cada dia que vivemos.

Em um esporte que muitas vezes há alguma pessoa que possui um espírito tã poético e sensível que parece emanar luz mesmo em dias escuros.

Fosse definir a mineira Renata Freitas Tavares, esta seria a sua definição mais simplista.

Acostumada a escrever poesias para a escalada, pratica escalada a não muito tempo, e esta mergulhada dentre de tudo o que faz parte do esporte.

Foto : Lucas Rocha

Foto : Lucas Rocha

Renata tem talento para cunhar palavras como

Escalar é muito mais que um esporte. É um estado de espírito. É uma forma de viver, de se encontrar, de olhar o pôr do sol e saber que a felicidade está nas pequenas coisas, nas pequenas conquistas.

É se superar, é ir além e acreditar que tudo é possível. É viver a vida plenamente e olhar ao seu redor e descobrir que é ali que você sempre quis estar.

Inegavelmente é uma pessoa que merece todo destaque por tamanha sensibilidade.

Porém Renata não é apenas uma pessoa de sensibilidade singular, é também uma forte escaladora e faz parte da elite das mineiras escaladoras.

Por tantas qualidades a Revista Blog de Escalada a procurou para sabermos um pouco mais sobre ela.

Renata, Minas Gerais possui a fama de ter os escaladores mais engajados do Brasil. Quais seriam os motivos que fazem a comunidade de escalada do estado ser tão engajada?

Foto : Daniel Brasil

Foto : Daniel Brasil

Somos muito privilegiados de morar em Minas pelo tanto de pedra e de ótima qualidade que temos por perto, então todo final de semana estamos escalando em algum lugar, seja para boulder ou via.

Com isso, acabamos combinando com a galera de encontrar para escalar junto, para fazer o que mais gostamos com os amigos.

Acredito que esses encontros informais na pedra tornam nossas amizades fortes e quando vamos para fora do estado, às pessoas vêem isso e nos acham engajados como você disse.

Mas não só na escalada né, porque nós mineiros já temos fama de sermos receptivos e carinhosos com as pessoas, até pelo próprio sotaque, então acho que é uma qualidade de todos nós mineiros e não só de escaladores.

Morar em Minas Gerais parece ser mais fácil ser escalador. Você concorda com esta afirmação?

Como eu disse na pergunta anterior, morar em Minas é um privilégio muito grande pelo tanto de pedra que temos por perto e de alta qualidade.

Aqui em BH você anda 30 minutos de carro e chega à Pedra Rachada, em Sabará, por exemplo, que é um pico incrível de boulder e muito pertinho.

Fazemos night climb la dia de semana, após o trabalho, ai um vai chamando o outro e assim por diante e quando chegamos à pedra ta aquela galera escalando, o que eu adoro.

Foto : Pedra Viva

Foto : Pedra Viva

Assim como temos a Lapa do Seu Antão que é bem perto também, um pico de via incrível.

Sem contar que estamos muito próximos da Serra do Cipó que é um dos picos mais famosos do Brasil. E ainda tem a Pedra Vermelha, Igarapé, Conceição, Lagoa Santa, entre outros.

É muita pedra perto, o que para nos escaladores é um privilégio enorme.

Morar em Minas para quem escala é um presente.

Nos últimos anos os principais lugares de escalada como Lapinha, Baú de Minas e Gruta Rei do Mato estão sendo reabertas, ou com negociação avançada. Qual é a expectativa dos escaladores em geral com isso?

Ah, a expectativa é enorme.

Foto : Bruno Graciano

Foto : Bruno Graciano

Desde que comecei a escalar em 2009 eu escuto falar desses lugares, que são picos incríveis, mas não tive a oportunidade de conhecer porque estavam fechados.

Saber que eles podem ser reabertos me anima muito em poder conhecer picos que tanto ouvi falar, e acredito que para quem já escalava nesses locais antes de ser fechados a expectativa é ainda maior.

Senti isso quando comecei a escalar e a Lapa do Seu Antão foi fechada, era um pico que eu já curtia e infelizmente ficou fechado por cerca de um ano, mas graças ao Montis – clube de escalada que cuida da lapa e da Pedra Vermelha – podemos voltar a freqüentar o pico.

O montis faz um trabalho muito legal lá de cuidado e manutenção em acordo com o dono do local.

Se fosse para indicar algum lugar de Minas Gerais para escalar a alguém que não conhece. Qual seria? Por quê?

Com certeza a Serra do Cipó. É um dos meus locais preferidos para fazer via e acho que todo escalador que não conhece deve conhecer um dia.

A serra é incrível, tem vias de todos os jeito e gostos sem contar que o lugar é lindo.

Os escaladores locais são muito receptivos e o local é muito privilegiado não só pela escalada, mas pelas belas cachoeiras, pelo vilarejo em si.

Foto : Tamires Vargas

Foto : Tamires Vargas

Eu adoro ir para o Cipó nos finais de semana, poder escalar o dia todo, deixar todos os problemas e preocupações para trás.

Lá eu me esqueço da vida e curto o que mais gosto de fazer que é escalar com meus amigos.

Tem muito escalador que veio de fora, do Rio, São Paulo, para conhecer o Cipó e acabou ficando de vez do tanto que lá é incrível.

Com certeza quem não conhece deve ir.

Boulder parece ser o seu estilo de escalada favorito. É verdade? Qual a sua preferência e por quê?

Na verdade não.

Foto : Bruno Graciano

Foto : Bruno Graciano

Meu estilo preferido para escalar na pedra é via, escalada esportiva. Eu adoro chegar à pedra, olhar aquela via e saber que eu posso subi-la.

Me da muito prazer. Saber que eu posso superar meus próprios limites, que posso me esforçar para minha evolução pessoal é muito gratificante.

Às vezes entro numa determinada via com aquele frio na barriga, vias que exigem do psicológico, mas ai quando eu consigo terminá-la a alegria e enorme, mesmo que não saia a cadena.

Eu gosto de escalar tudo, independente de grau.

Gosto muito de boulder também, adoro ir para Pedra Rachada e Ouro Preto que são picos incríveis e tem boulders muito clássicos. Mas minha preferência na pedra são as vias mesmo.

Para treinar, na resina, ai sim, prefiro os boulders porque eu ganho mais forçar e o treino rende mais devido às vias normalmente ficarem bem cheias na academia à noite, que é quando eu posso treinar.

Treinar vias também é muito importante para manter a resistência, mas para treino prefiro boulder mesmo, ai para ganhar resistência faço treinos de travessia.

Mas na pedra minha preferência são as vias mesmo.

Está surgindo uma quantidade de escaladoras sem precedentes no esporte do Brasil. Como você vê esta mudança no esporte?

Eu acho ótimo.

Quando comecei a escalar, o numero de homens era muito maior que o de mulheres, eu sempre ia para pedra na companhia dos meninos, e sentia falta de ter mulheres escalando comigo.

Hoje esta totalmente diferente, tem dia que vou para pedra só com meninas no carro e a gente se diverte muito juntas.

Foto : Felipe Belisario

Foto : Felipe Belisario

Ver o numero de mulheres aumentando na escalada é ótimo também para ver que nos também podemos escalar que não é um esporte masculino.

Eu acho muito mais bonito ver mulheres escalando porque elas são mais graciosas, são mais técnicas, os homens já são mais brutos devido a terem mais forca mesmo.

Eu então que sou mulher e baixinha, tenho que na maioria das vezes fazer muito mais movimentos que os homens e pessoas mais altas, mas também torna minha escalada mais leve, já que sempre escuto que sou muito leve para escalar.

Ver talentos femininos surgindo como a Bianca Castro, por exemplo, é muito bom para o esporte.

Eu adoro ver ela escalando, ela é muito forte, muito leve e uma pessoa super simples.

Torço muito por ela e vejo-a como um exemplo a ser seguido na escalada feminina.

 Todo escalador possui um projeto pessoal. Qual é o seu para 2015?

Ah, eu tenho vários, não um só.

Em 2015 pretendo mandar meu primeiro nono grau, que já venho tentando há um tempo.

Tenho algumas vias de projeto no Cipó e na Lapa do Seu Antão tem a “Gravidade Zero”, que acho uma via lindíssima e ainda não consegui mandar.

Tem vários boulders clássicos também que quero mandar na Pedra Rachada.

Também quero escalar parede que é uma modalidade que ainda não fiz, e sou doida para experimentar.

Foto : João Paulo Bitencourt

Foto : João Paulo Bitencourt

Quero conhecer a escalada do Rio de Janeiro que ainda não conheço e têm vários outros lugares que quero conhecer como Igatu, Itatim, Floripa.

O Brasil tem muitos lugares incríveis para escalar que quero muito conhecer.

Tem a escalada no exterior que também não conheço, mas se não puder fazer em 2015 posso deixar um pouco mais para frente, não é minha prioridade agora.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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