Entrevista com Rafael Pimenta

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Foto: Murilo Vargas

Em todo e qualquer comunidade existem pessoas que se destacam pela simpatia e pela diplomacia, sendo reconhecido por todos pela facilidade de ser educado e gentil.

Fosse utilizar uma expressão mais poética seria dizer que é “um algodão entre cristais” tamanha o diferencial dentre todos à volta.

Esta seria uma definição resumida de uma das pessoas mais queridas da escalada brasileira: Rafael Pimenta.

O escalador, hoje radicado em Belo Horizonte, sempre frequenta todas as rodas de escalada não fazendo sua convivência a nenhuma turma em específico.

Forte escalador se dedica como poucos à competições de escalada e à escalada esportiva nas míticas vias de calcário de Minas Gerais.

Para saber um pouco mais sobre um dos poucos diplomatas da escalada, a Revista Blog de Escalada procurou Rafael Pimenta para uma conversa.

Rafael , como é para um escalador morar em Belo Horizonte onde estão os melhores lugares de escalada esportiva do Brasil?

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Foto: Murilo Vargas

Bom, tem sido realmente incrível morar aqui em Belo Horizonte.

A minha escalada começou no Rio de Janeiro em 2001 e eu estava em um dos melhores setores do país, mas depois que mudei pra BH em 2007 eu sabia que estaria indo para um lugar ainda melhor.

Considero MG o melhor estado do país com relação à escalada, e Belo Horizonte consequentemente a melhor cidade, porque aqui a variedade e a proximidade dos setores são impressionantes.

Em um raio de 200 km temos diversos picos de via e boulder alucinantes como Serra do Cipó, Ouro Preto, Lapa do Seu Antão, Sabará, Pedra Vermelha, Serra da Piedade, Cambotas, Conceição do Mato Dentro, Sete Lagoas…

Então com certeza posso dizer que estou no paraíso.

Para eu me mudar de BH vai ser bem difícil!

Você está participando de várias competições de escalada nos últimos anos. Como você visualiza a realidade de existir campeonatos por duas organizações diferentes?

Me dedico ao cenário competitivo há onze anos e sempre vivenciei as competições sendo organizadas pela FEMESP em nível estadual em São Paulo e também em nível nacional.

No Rio de Janeiro a FEMERJ sempre organizou muito bem os calendarios competitivos do estadual.

Hoje em dia com a participação das duas federações eu acho que poderia ser mais bem organizado e unificado, tanto regional como nacionalmente falando. 

As duas tratam de interesses comuns e respondem por nós escaladores, então se houver algum tipo de desavença, desacordo ou “queda de braço” entre as duas quem sairá perdendo somos nós escaladores que apreciamos e vivemos o cenário competitivo nacional.

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Foto: Murilo Vargas

Seria mais saudavel e produtivo se houvesse uma unificação dessas organizações nacionalmente, e que elas uma vez unidas dessem apoio, credibilidade e autonomia para as federações estaduais, assim o esporte ficaria cada vez mais sólido dentro de cada estado e isso iria refletir para todo o país, e consequentemente quem sairia ganhando seria a escalada competitiva Brasileira.

A escalada esportiva competitiva brasileira precisa evoluir muito e ter uma estrutura digna do nível dos atletas nacionais porque infelizmente ainda é insignificante a nível internacional.

Alguns lugares de escalada de Minas Gerais estão fechados, e na expetativa de serem abertos novamente. Como você visualiza esta expectativa dos escaladores mineiros?

Foto: Murilo Vargas

Foto: Murilo Vargas

Minha expectativa, assim como a dos escaladores mineiros, é de que abram o mais rápido possível os setores fechados.

Hoje o setor que mais deixa saudades e que mais gera ansiedade é o da Gruta Rei do Mato, em Sete Lagoas.

A tristeza e a ansiedade são grandes, mas aproveito este espaço para pedir aos escaladores locais que respeitem as proibições com disciplina, para que não prejudiquem as negociações e atrase ainda mais a abertura destes setores.

Minas Gerais hoje conta com uma grande comunidade de escaladores, e uma popularização crescente do esporte , a que você credita esta realidade?

Minas Gerais além de ser o estado com maior potencial do país, conta com pelo menos cinco academias de escalada de bom nível, tem inúmeros setores de escalda em diversas cidades (nos quais têm sido abertas muitas vias de todos os graus atraindo mais gente),  lojas de equipamento de montanha, e uma gama de praticantes antigos e influentes muito grande.

A união destes fatores faz com que o público da escalada cresça muito aqui e está cada vez mais diversificado.

Como é a sua rotina de treinos e escolha de projetos?

Já tive alguns treinadores e diversas rotinas de treinamento, mas hoje em virtude de estar cursando medicina me atenho a um treino caseiro, pois tenho alguns equipamentos aqui em casa que me possibilitam isto.

Procuro treinar de segunda a quinta e deixar a sexta feira para descanso e chegar bem pros objetivos dos finais de semana na rocha.

 Então minha rotina hoje segue o seguinte esquema. São quatro dias de atividade em dias subsequentes, mas sem nada fixo.

 Na segunda feira faço Barras + Corrida. Faço as barras seguindo a famosa série de contrato por minuto. Aí faço de 6 a 9 barras por minuto durante 20 minutos, totalizando de 120 a 180 barras em vinte minutos. Em seguida eu faço uma corrida de 5 km de média intensidade (30 a 40 min).

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Foto: Murilo Vargas

 Na terça feira faço Finger + Musculação. No finger faço uma série de minha autoria que são 14 tarefas por minuto + uma no final. As tarefas são ficar 10 segundos em suspenção total em um tipo de agarra seguida de 4 barras em outro tipo de agarra. inicia cada tarefa no começo do minuto e no minuto seguinte segue pra uma nova.

No final dos 14 minutos na sequencia eu me penduro no agarrão do finger com os braços esticados e tento ficar mais que 2 minutos pendurado.

A musculação eu também faço uma série de minha autoria com exercícios diversos direcionados para a escalada no esquema de rodízio, fazendo uma repetição de cada série rodando todas as séries 3 vezes até completar o treino.

 Na quarta feira faço argolas. Eu desenvolvi um sistema que simula um TRX utilizando um pedaço de corda, uma chapeleta, uma malha rápida e dois tubos pequenos de PVC.

Com isto eu faço exercícios diversos da ginástica olímpica durante no máximo 30 minutos. Este treino deixa o ombro muito fortalecido, mas tem um potencial lesivo muito grande.

Só aconselho a iniciação neste tipo de treinamento depois de estar com a musculatura do ombro bem trabalhada.

Na quinta feira faço Campus board. Faço uma série de exercícios diversos com duração de uns 40 minutos.

 Este treino é muito bom pra quem não tem muito tempo e acesso à centros de treinamento.

Depois se alguém quiser alguma dica das séries ou de como montar o CT caseiro estou à disposição.

Por possuir uma qualidade de vias muito grandes, alguns escaladores do estado optam por não viajar para conhecer outros lugares. Qual a sua opinião a respeito disso?

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Foto: Caio Pimentel

Acho que realmente temos uma qualidade e diversidade de vias fenomenal, mas acredito que quanto mais “viajado” for o escalador maior será seu volume e repertório de tipos de agarras e de passadas.

Isso fará dele um escalador mais versátil, ajudando não só nas escaladas em outros lugares como aqui em MG também, porque contamos com muitos setores diferentes.

Sou a favor de estarmos sempre viajando porque versatilidade e experiência ajudam muito na evolução do esporte.

Na sua opinião, qual seria o perfil do escalador no Brasil Hoje?

O perfil do escalador brasileiro seria de uma pessoa feliz e realizada por ter uma gama de opções muito grande para escalar, mas também frustrada com a pouca realização de campeonatos, a pouca participação em cenários competitivos internacionais e o pouco apoio e reconhecimento por parte das empresas aos atletas de ponta que precisam trabalhar para escalar.

Inegavelmente muitos escaladores medem a importância de um outro escalador pelo grau que escala. Qual a sua opinião a respeito disso?

Eu acho que o grau serve apenas para sabermos onde estamos nos metendo em uma escalada à vista.

Não acho que o grau deveria servir como popularidade ou nível de importância porque quando isto acontece mostra que estamos muito mais ligados ao ego do que à prática do esporte na sua essência, que pra mim é subir todo e qualquer tipo de pedra, sem pensar no grau, mas sim nos realizando e sendo felizes com aquilo que amamos fazer.

Acho que quem valoriza mais um escalador do que outro pelo que ele já encadenou não sabe ou ainda não aprendeu a verdadeira essência do esporte.

Acredito que a escalada é além de um esporte uma filosofia de vida e o grau é apenas um detalhe dentro disso tudo, e que não deve nortear a valorização de um atleta apenas por isso.

Acredito que o grau deva servir para nos manter motivados a buscar um novo desafio a cada dia e não para escolhermos os escaladores que seremos amigos ou vamos admirar.

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Foto: Murilo Vargas

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Foto: Murilo Vargas

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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