Entrevista com Pablo Scorza

Existem pessoas que conhecemos neste mundo que nos marcam para sempre de maneira positiva, e por onde passam há uma multidão de outras que recebem a mesma benção.
Fosse definir o paulista Pablo Scorza, estas palavras descreveriam o quão especial é este fisioterapeuta que adora uma boa conversa e sempre possui idéias todo o tempo.
Por estar sempre pilhado e nunca de mau humor, Pablo Scorza decidiu um dia largar tudo no Brasil e ir morar na Espanha, onde foi chamado para fazer parte da seleção espanhola de escalada.
Muita água passou debaixo da ponde desde então, mas nenhum dos percalços afetou a luz interior que Pablo Scorza possui, e sempre irá possuir.
Após muitos anos o “perseguindo” para uma entrevista, em sua última visita ao Brasil conseguimos um tempo na sua lotada agenda ente cursos e escalada para falar um pouco de si e dos aspectos da vida.
Pablo você está na Europa a um bom tempo. Como é a vida de um escalador na Espanha? É diversão o tempo todo?
Foto: Francisco Taranto Jr

Foto: Francisco Taranto Jr

Ao contrário do que a maioria dos escaladores brasileiros acreditam, também é difícil viver desse esporte na Espanha…

Tem muito escalador por lá que escala 8c+/9a (11a/ 11c brasileiro) e ninguém conhece!
Nosso esporte está marginalizado em quase todo o mundo e infelizmente não temos o reconhecimento esportivo que merecemos!!
Conheço escaladores que se comparamos ao futebol seriam do nível de um Kaká, Robinho ou Ronaldo Gaúcho, mas eles tem o reconhecimento da mídia ou de patrocinadores como se fossem um jogador da segunda divisão…
 Infelizmente diversão o tempo todo ainda é uma utopia em nosso esporte!
Você passou os últimos meses visitando o Brasil. Como você vê a escalada após tanto tempo de Europa?
Fiquei muito feliz em passar estes últimos 5 meses aqui no Brasil, ainda mais depois de quase 8 anos morando na Europa…
Os escaladores brasileiros tem muita técnica, força, atitude positiva e acima de tudo são guerreiros da rocha que lutam contra um sistema falido e decadente, mantendo a motivação a tope!
Além de São Bento do Sapucaí, Florianópolis e Brasília, tive a oportunidade de ficar quase um mês na Serra do Cipó onde realmente me identifiquei com a escalada que venho praticando nessa última década, a “Escalada Esportiva”! 
Os escaladores locais estão desenvolvendo muitas vias novas com consciência e maturidade!
Incrível o talento e a ginga desses escaladores que superam todas as dificuldades e a falta de incentivo moral e financeiro.
Foto: Acervo pessoal Pablo Scorza

Foto: Acervo pessoal Pablo Scorza

Qual a principal diferença entre os escaladores do Brasil e da Espanha?
Acredito que a questão geográfica e política-econômica são os fatores principais da diferença…
Na Espanha tem rocha por todos os lados!
É impressionante, a quantidade de setores  de altíssima qualidade…
Além das condições climáticas favoráveis, sem esse clima tropical quente e úmido que temos aqui no Brasil…
Foto: Francisco Taranto Jr

Foto: Francisco Taranto Jr

Cá entre nós, a geografia do Brasil é bem mais favorável para a prática de surf que de escalada!

Já a questão política-econômica, permite uma sociedade mas segura e sem violência, então os escaladores podem ter um estilo de vida mais dedicado à escalada vivendo em motorhomes (furgonetas) estando sempre perto da rocha e escalando também entre a semana!
Imaginem alguém dormindo no seu carro perto de um setor de escalada no meio da natureza aqui no Brasil… 
Aiaiaiai que medo de ser roubado, de ver minha mulher violentada ou mesmo de ser assassinado!!
Aqui normalmente temos que morar em condomínios protegidos e apenas escalar nos fins de semana bem longe de nossa casa e tendo que pagar preços abusivos no combustível e etc, etc, etc..
Mas acredito que os brasileiros tem a mesma capacidade de escalar bem com os espanhóis!
Assim como as brasileiras, já que na Espanha vemos muito mais mulheres escalando que no Brasil.
Os campeonatos de escalada estão renascendo no Brasil. Como você visualiza as competições de escalada?
 Não sou a pessoa mais adequada para falar de competições, já que me dedico quase exclusivamente aos escaladores de rocha, apesar de minha admiração aos que treinam para esta modalidade indoor…
Foto: Acervo pessoal Pablo Scorza

Foto: Acervo pessoal Pablo Scorza

Todos sabem que na escalada existem pessoas que escalam pelo grau, e somente por ele. Qual a sua opinião a respeito disso?
Vocês podem estar cometendo um grande equívoco para uma vida feliz e sem lesões!
O grau é uma mola propulsora que nos impulsiona a evoluir e faz parte do caminho, mas não acredito que seja um objetivo em si mesmo.
O grau é apenas uma escala numérica e uma referência!
Já a escalada, para mim, é um estilo de vida, uma arte de viver em comunhão com a natureza e consigo mesmo!
Pablo-Scorza-1

Foto: Acervo pessoal Pablo Scorza

No Brasil há pessoas que somente escalam no mesmo lugar. Que conselho você teria para estas pessoas?
Depende do lugar…
Acho que eu poderia escalar apenas em Rodellar o resto da minha vida, Hehehhehehehehe!!!
Brincadeira, mudar de lugares para escalar é fundamental para a evolução e para a motivação além de que umas das características que mais me apaixona na escalada é a necessidade de viajar, conhecer outros países, outras rochas, outras culturas e fazendo da vida de um escalador uma “Aventura”!
Mas entendo que aqui no Brasil seja bem mais difícil de escalar em diferentes lugares!
Pablo-Scorza

Foto: Acervo pessoal Pablo Scorza

Hoje,  o que você consideraria as coisas mais importantes da vida de um escalador?
Para mim o mais importante na vida de um escalador é cuidar bem do nosso corpo, da nossa mente e da nossa alimentação!
Temos que ser sinceros e realistas, pacientes e motivados!

Formado em Engenharia Civil e Ciências da Computação, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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