Entrevista com Juliana Petters

Viver intensamente, e ter acima de tudo o sentimento de ser livre, e sentir-se livre, parece ser o lema da vida da catarinense Juliana Petters.

Fanática por estar escalando todo o tempo, e de preferência em todos os lugares, Petters abraçou uma vida totalmente dedicada à escalada mesmo que a vida tenha colocado obstáculos à sua frente.

Não é exagero nenhum afirmar, e , porque não proclamar, Juliana Petters como uma das grandes escaladoras das história da escalada brasileira e sul-americana.

Hoje mãe, mas não menos escaladora dedicada, Juliana Petters procura fazer à sua maneira o esporte de escalada melhor e mais evoluído.

A Revista Blog de Escalada fez questão de procurar este diamante raro oriundo da Ilha de Florianópolis para saber o que uma pessoa como ela pensa sobre a escalada e aspectos da vida.

O resultado é uma entrevista deliciosa e inebriante sobre tudo aquilo que povoa a mente questionadora de Juliana Petters.

Juliana, você começou a escalar em Santa Catarina. Hoje você está entre EUA e Brasil. Como foi a sua trajetória para ter esta oportunidade?

Trajetoria? lonnnnga… vou tentar fazer um mini flash back gigante porque uma coisa puxa a outra:

Prodigal son Zion 1998 foto: Lorn

Prodigal son Zion 1998 | Foto: Lorn

A primeira vez que vim para os Estados Unidos foi em Julho de 1997, numa climbing trip com os melhores escaladores esportivos do Brasil na época: Monica Pranzl, Helmut Becker, Fabinho Muniz, Marcelo Braga e o Alvarenga que era mais iniciante como eu.

A gente escalou por umas 20 áreas entre 6 estados da costa oeste.

Já estava escalando fazia uns 5 anos, tinha pego pódio em vários campeonatos Open brasileiros, já tinha visitado os principais locais de escalada do Brasil (que ia do RS até MG) e também tinha sofrido um acidente seríssimo onde quase tive o braço esquerdo amputado.

Naquele ano tranquei a faculdade de educação física na UFSC, e com uma pensão que recebia do meu pai estava viajando pelo Brasil só escalando.

Esse era um tempo sem internet, as informações sobre escalada vinham das revistas gringas que alguns poucos escaladores tinham acesso. Yosemite sempre estava nas revistas.

Em 1994 a Lynn Hill escalou a via “The Nose” em livre, ela já era minha ídola pelas cadenas difíceis e os títulos mundias, mas esse feito em Yosemite foi realmente brilhante.

As fotos dela escalando naquele granito liso era muito inspirador, conhecer Yosemite ficou para mim tão apelativo quanto ir para lua, escalar a El Captain era para mim tão distante quanto ir para lua realmente, mas eu queria ver tudo aquilo de perto.

A escalada q mais me marcou dessa trip foi o Devil’s Tower, com o Marcelinho e o Fabinho (Fabio Muniz faleceu atropelado de bicicleta em 2013). Até hoje lembro detalhes desse dia e ali confirmei que esse tipo de escalada em livre, de varias cordadas, de chegar num cume, é o que mais me motiva.

selfie na El Captain, Yosemite

selfie na El Captain, Yosemite | Foto : Juliana Petters

Não ouvimos falar de nenhum outro brasileiro que tivesse ido ali antes da gente então nos consideramos os primeiros e eu a primeira brasileira a escalar o Devil’s Tower. Não guiei nenhuma cordada, o que naquela época não era fundamental para que você dissesse que fez a primeira ascensão feminina da Montanha. 

Com o tempo meus critérios ficaram bem mais exigentes. Para mim escalar uma montanha ou uma via, significa participar da escalada efetivamente: guiar cordadas, participar da logistica, dividir os cruxes, seja homem ou mulher.

Tudo me deixou com “gostinho de quero mais”, principalmente Yosemite onde ficamos só escalamos boulders. Depois de 2 meses todos voltaram para o Brasil e eu fui morar em San Diego com uns amigos brasileiros, 8 numa casa de 2 quartos; fiquei 5 meses trabalhando como faxineira e estudando inglês numa free school.

Em Junho de 1998 ganhei um concurso nacional chamado “Marlboro Adventure Team”, fiquei entre os 18 finalistas de 30 mil inscritos e fui para o México fazer provas de Motocross, Jeep, e Rapel; Lá fiquei amiga do David, escalador que no evento coordenava o rapel e morava em Moab.

"Swedin- Ringle" 5.12 cadena 2014, Indian Creek UT foto: Janaina Xavier

“Swedin- Ringle” 5.12 cadena 2014, Indian Creek UT Foto: Janaina Xavier

O voo de volta para o Brasil tinha escala em Nova York, desci ali mesmo com 200 dólares na carteira, escalei no Gunks, no Central Park e uma semana depois tava chegando em Moab.

Verão bombando, aquele deserto vermelho muito quente. Aluguei um quarto na casa do David e ele me apresentou para galera local. O Brad me arranjou um emprego na cafeteria onde ele trabalhava, comecei limpando o chão e depois fui promovida para lavadora de louças. Morei por 4 meses.

Todo mundo que tava la escalando junto virou escalador profissional: Steph Daves, Eric Decaria, Noan Bigwood, Lisa Hataway… Dean Potter tinha acabado de sair dali para ir conhecer Yosemite. Entrei num 5.12c em Mill Creek, via esportiva de agarrinha que quase me saiu em flash e mandei à vista uns outros 5.11 que me serviram como cartão de visita.

Foi a melhor época da minha vida, escalava todos os dia, parceiros excelentes que me buscavam em casa e me apresentavam lugares lindos com vias alucinantes.

Minha escalada evoluiu muito, passei a entrar só guiando nas vias. Volume de vias avista virou a brincadeira.

E o mais legal dessa época, aprendi a escalar em móvel. Tava no caminho da autonomia que sempre almejei. Indian Creek foi o lugar que mais gostei, fica 40 minutos de Moab. Aquelas fendas perfeitamente paralelas me conquistaram.

"Hieroglifos" 8b, primeira ascencao feminina da via 2014, Petropolis RJ  foto: Nereida Rezende

“Hieroglifos” 8b, primeira ascencao feminina da via 2014, Petropolis RJ | Foto: Nereida Rezende

Escalada em fenda é a modalidade que mais me atrai ate hoje: a arte de subir preenchendo o vazio. é a escalada mais democrática, você protege onde quiser (não fica dependente da altura do cara que bateu o grampo), se for fácil estica bem se for difícil protege mais e no final deixa a fenda limpa para próxima pessoa fazer do jeito dela.

O que os EUA tem de melhor na minha opinião é escalada esportiva em fenda. Fendas tecnicamente difíceis, com as proteções em móvel super seguras, onde o objetivo é o à vista (onsight) ou a cadena (Red Point).

A diferença da cadena esportiva para cadena esportiva em fenda é que na cadena esportiva você pode ter as costuras pré colocadas, na cadena em móvel você tem que lidar com o peso do equipamento e a logística de como e onde proteger, se as peças forem pré colocadas daí chama “Pink Point”, não “Red Point”.

Curto as ideias do Royal Robins sobre estilo, tao importante quanto o que você escala é como você escala.

Fui a primeira brasileira a andar por essas bandas: escalei o Castleton Tower (North Chimney 5.9 as 3 cordadas guiando todas a vista), Ancient art (Stolen Chimney 5.10 as 3 cordadas guiando todas avista).

Fui a primeira brasileira a mandar 5.11 de fenda, desses de verdade de Indian Creek “Scarface” (depois a primeira a mandar 5.12 em 2007 “Anunaki”), esse pioneirismo onde se apoia o esporte escalada hoje em dia acho super cafona e estimula uma competição pouco útil, mas na época achava que estava fazendo historia, sonhava em ser escaladora profissional como esses amigos que conheci em Moab e achava que meu currículo tava ficando muito ninja.

Fui a primeira brasileira a escalar em Zion National Park, considerado o irmão mais novo de Yosemite: Fiz a via “Prodigal Sun” (5.8 C2 em 1 dia), e o Moonlight Butress (5.8 C1 em 2 dias), nas duas escaladas guiei algumas cordadas fáceis, tudo bem para o primeiro Big wall.

Dezembro me mudei para Alta uma estacão de ski perto de Salt Lake. Num lindo dia de sol cai esquiando e rompi o ligamento cruzado do joelho esquerdo (rompi de novo em 2012).

Janeiro de 1999 tava de volta em Floripa. Uns meses depois ganhei um concurso nacional promovido pela Sportv chamado “Sou a Cara do Rolê”. Mandei umas fotos minhas escalando no deserto de Moab e ganhei um fim de semana com essas cariocas que apresentavam o programa, praticamos sandboard, parapente e escalada.

Devido a repercussão dos programas fui chamada para fazer teste para o “Patrola” programa que iria estrear na RBS TV que é a Rede Globo em Santa Catarina;

Março de 2000 eu estreava como apresentadora. Entrei de cabeça na profissão de jornalista, me empenhei mesmo em achar pauta para os jovens Catarinenses. Ao longo dos 3 anos fiz mais de 300 entrevistas com Globais, músicos nacionais e estrangeiros, artistas de rua, ONGs, atletas, entrevistei muitos dos meus ídolos, conheci pessoas incríveis e muitos famosos sem talento também.

Pinhead, Joshua Tree CA 2010 foto: Karina Filgueras

Pinhead, Joshua Tree CA 2010 | Foto: Karina Filgueras

Virei VIP, era convidada para todos os eventos da cidade, meu celular não parava, ganhava roupas, ingresso para os shows, era cortejada por aqueles caras cheios de fãs, comprei um carro com meu dinheiro, dava autografo na rua.

O programa bombava e eu tinha uma carreira pela frente, mas, adivinha? Não tinha tempo para escalar.

Um dia minha amiga Paulinha me deu uma foto recortada de uma revista: “esse aqui não é aquele lugar que tu sonhavas escalar”, era uma foto da El Captain em Yosemite. Chorei por algumas horas segurando aquela foto. “A vida é o que você faz com as horas do seu dia”.

No dia seguinte pedi demissão.

Vendi umas coisas, dei outras. O que sobrou deixei na casa da minha mãe. Juntei uma grana, arrumei a mochila e parti para um viagem, uma jornada de auto conhecimento, qual o sentido dessa vida ?

Julho de 2003 cheguei no Kauai a ilha mais linda do Hawaii, fiquei 4 meses surfando e lavando pratos, depois fui para o Colorado.

Passei por Moab e o Brad tinha casado com a Lynn Hill, fui para Cuba com eles fazer um filme de escalada.

No ano de 2004 finalmente cheguei em Yosemite, e na minha primeira temporada escalei a El Capitain pela via “Triple direct” (7 cordadas para cada participante), escalei a “East Buttress” guiando todas as cordadas a vista, o Half Dome pela “Northwest Face”, guiei 18 das 23 cordadas, praticamente tudo, em 9 horas e mandei a vista fendinhas que como “the Tube”, “Manhana”, “Lunatic Fringe”…, foi uma temporada incrível.

Conheci o Bryan no Camp4, escalamos muito, namoramos e em 2004/2005 moramos 5 meses na Tailandia, sobrevivemos ao Tisunami… e finalmente casamos em 2007.

Basicamente vivo essa viagem até hoje. Para cima e para baixo.

Fazendo dinheiro nos EUA e gastando escalando pelo mundo e principalmente no amado Brasil.

Yosemite é um dos lugares que você chama de “lar” agora. Como é a vida de um escalador em Yosemite? É o paraíso que se imagina?

O Valley é uma cidade, tem hotéis e atividades turísticas e também mercado, escola, hospital, delegacia. Muita gente mora aqui o ano inteiro, a grande maioria trabalhando para o parque e vários desses começaram a escalar agora.

O clima permite escaladas o ano todo em Yosemite, o parque tem mais de 2000 lances entre boulders, vias em móvel, vias grampeadas, bigwall em livre, big wall artificial, vias alpinas e no inverno algumas cascatas de gelo; em um granito lindo, gostoso, mais liso no Valley e mais abrasivo em Tuolumne que é a parte mais alta do parque.

Pedra Branca, casam Floripa SC 2014 foto: Erico Brea

Pedra Branca, casam Floripa SC 2014 | Foto: Erico Brea

Durante o inverno a galera (geralmente os escaladores patrocinados) deixa cordas fixas em vias clássicas das falésias que bate sol, então todo mundo escala sozinho com Mini -Traxon ou outro equipo auto blocante, é bem prático.

Varias gerações coexistem, por exemplo: a vida do Ron Kauk, meu vizinho escalador que veio nos anos 70 e nunca mais foi embora é diferente do Tommy Caldwell atualmente famoso que esta aqui quando não esta em outro canto do mundo, ou da minha amiga que trabalha como geóloga do parque e só tem livre depois das 6 da tarde e nos fins de semana que é quando a gente tem ido escalar juntas.

Já morei meses em baixo dos boulders do Camp4 escalando fanaticamente sem grana e sem conforto. Outros verões aluguei uma cabana rustica, fazia uns trabalhos temporários e escalava quando a tendinite deixava.

A minha vida de escaladora esse ano está bem mais de mãe do que de atleta. Estou trabalhando várias horas por semana, quando vou escalar escolho vias que tenham a base boa e segura para levar a filha junto.

O Paraíso é onde você tem saúde, tempo, parceria e grana para ficar escalando, seja onde for.

Para quem tem o sonho de escalar em Yosemite, quais os principais conselhos que daria para a pessoa não se assustar com a realidade de la?

Se é sonho, não te demores.

"Rock Wars" a vista 2011, Red River Gorge KT, foto: Naoki Arrima

“Rock Wars” a vista 2011, Red River Gorge KT | Foto: Naoki Arrima

O grau das vias acho q é o mais discrepante, se prepara para escalar 5.10.

Esquece aquelas tabelinhas conversoras de grau, não funciona para Yosemite.

Aqui que foi inventada essa escala de graus, e no começo era igual escala de artificial com grau limite acabando em 5.10.

Várias das vias que você vai escalar são dos anos 70 e 80 com graduações que só agora a galera está atualizando nos livros.

Uma via de 5.9 está mais para sexto grau, e 5.10 para sétimo comparando com os graus de fenda do RJ e SC.

Yosemite não é terra para quem quer pontuar no site 8a.nu.

Vias de grau 5.6 de chaminé pode ser bem difícil.

Se você entrar em um 5.10a na base da El Captain chamado “Moby Dick” e tomar uma surra da via, não se assuste a maioria passou por isso.

Inevitavelmente você vai fazer umas escaladas que não pode cair, esticões fáceis mas verdadeiros solos.

Alguns lances de algumas vias são obrigatórios, se informe antes; “Free Blast” por exemplo, em alguns cruxs da para roubar se puxando nas peças (French Free) mas outros de aderência são obrigatórios.

Vias clássicas que aparecem nos livros guias com estrelas geralmente são polidas, com agarras de pé que viraram “mármore”, cuidado.

O parque é cheio de normas, principalmente no verão.

Mas não desista, fique aqui o máximo que puder e tua escalada vai evoluir certo.

Tudo é muito maior do que parece visto do chão.

As ortigas “Poison Oak” são horríveis e estão por toda a parte no Valley, cuidado !

As ervas são mais fortes vá devagar.

Os ursos se assustam mais com você do que você com eles, se vir um urso espante ele assim como a gente toca o cachorro para fora do quintal, abra seus braços ficando bem grande, faça bastante barulho e mande ele ir embora.

As competições de escalada no Brasil estão vivendo um renascimento desde o ano passado. Como uma ex competidora como visualiza as competições de escalada?

Ainda sou competidora.

Não corro atrás, mas se tiver uma competição por perto, que tenha uns brindes eu me inscrevo.

No ano de 2014 participei da unica competição que teve em Santa Catarina (Campeonato de boulder de Laguna-SC), teria competido em outras se tivessem; fiquei em segundo lugar, perdi apenas para campeã brasileira Camila Macedo.

Cocaine Corner V5 camp4 2004 foto: Charles Borgh

Cocaine Corner V5 camp4 2004 | Foto: Charles Borgh

Desde a primeira competição que participei em 1994 até hoje nunca perdi para nenhuma competidora nascida ou radicada em Santa Catarina, devo ser a única escaladora brasileira que mantém essa posição de invicta no seu estado por tanto tempo.

Por falta de acesso escalei pouquíssimas vezes em resina, muros e ginásios, o que me aproxima das atletas fortonas esportivas é que tenho uma leitura de via boa pois estou sempre viajando e praticando a escalada à vista.

Hoje em dia ouço falar mais de festivais do que campeonatos, e principalmente de boulder.

Realmente campeonato de boulder é mais legal para assistir do que de via, mas para escalar curto mais vias.

Será que um dia vai ter campeonato só de fendas? Esse eu participaria com certeza.

NO ano de 1995 organizei junto com Ralf Cortes o primeiro campeonato Brasileiro de boulder em rocha, foi na Praia Mole em Floripa, da época que ainda não se usava Crash Pad.

Campeonato sempre foi desculpa para viajar e oportunidade boa para conhecer outros escaladores e marcar alguma aventura e essa ultima competição não foi diferente.

Conheci a Camila e umas semanas depois estávamos no Rio de Janeiro escalando o Pão de Açúcar numa empreitada divertidíssima que vou lembrar para sempre.

Muitos escaladores ignoram a potencialidade de locais para escalar na América do Sul. Quais lugares que você recomendaria fortemente as pessoas conhecerem em vez de ir para a Europa?

Conheça tudo! O mundo é seu.

Conheço o Frey na Argentina, passei uns dias no Chile, fui em Machu Pichu no Peru…

O que conheço de escalada na America do Sul é o Brasil e aí rodei bastante.

Para os meus amigos gringos sempre falo de Salinas-RJ, os calcários da Serra do  Cipó em MG, Petrópolis e a Serra dos Órgãos, os boulders nas lindas praias de Floripa. 

Sempre estimulo essa viagem dizendo que o melhor do Brasil são os brasileiros e a experiência como um todo é incrível, escalador brasileiro é vibe demais.

Se eu tivesse grana/tempo gostaria de conhecer as escaladas do Nordeste do Brasil, também a Esfinge no Peru, Cochamó, Chaltén, Rio Turbio …

É muito lugar né ?!

Você é mãe. Como é para uma escaladora ser mãe e continuar a praticar a escalada e o estilo de vida de escalador?

AH! Aí é o momento da verdade, conseguir conciliar as duas coisas: não deixar de escalar e não deixar de ser mãe.

Se você escala pelo esporte, rendimento, grau…com filho você vai ter bem menos tempo para você e seus projetos. Se a escalada é um plano para vida toda, um caminho para o auto-conhecimento, a arte com a qual você interage com o mundo, dai filho só vai adicionar para esse passeio.

Juliana e Lani no crash pad, Yosemite 2013 foto: Branden Manfield

Juliana e Lani no crash pad, Yosemite 2013 | Foto: Branden Manfield

Para alguns ter filhos é um fardo, e todo mundo é bem zeloso quando o assunto é família, então falo por mim: Viver a experiência do parto, olhar os olhos do bebê e ver o universo, amamentar…, foi sem dúvidas nenhuma a experiência mais incrível da minha vida.

A maternidade me encheu de amor, colocou muita coisa em perspectiva. Minha filha é meu guru, grande parceira, a flor mais linda que há no mundo. Quem tem filho sabe e quem não tem vai achar o papo chato.

A obstetra falou que poderia fazer qualquer atividade que não aumentasse muito os batimentos cardíacos ou deixasse ofegante. Escalei até nove meses de gravidez em top rope com a cadeirinha de big wall do meu marido. Quando ela fez 4 meses já recomeçamos as viagens e entre uma mamada e outra eu fazia uns boulders e/ou vias.

Criança se adapta muito fácil, só depende dos pais. todas as mães escaladores que eu conheço são mães incríveis, maternidade tem uma logística de expedição acho que é por isso.

Hoje em dia também tem vários equipamentos excelentes para viajar e acampar (Ergobaby, BOB stroller, por exemplo, são equipamentos incríveis).

Filho é uma mochila que te dá beijos e que tem o melhor cheirinho do mundo, e se você der sorte ainda vai ter alguém para guiar vias para você quando você for velho.

O que mudou com a maternidade é que fiquei bem mais cautelosa, passei a arriscar menos, busco locais e vias mais seguras, comprei um capacete. Fiquei mais dependente dos amigos também, antes precisava de um segue, depois você precisa de um segue e mais um para olhar o baby; quem tem amigas, de preferência outras mães, vai ter mais chance de escalar.

No ano de 2014 mandei 7 fendas de oitavo grau, duas delas bem difíceis. Na “Hieroglifos”, via da Pedra do Ser em Petrópolis-RJ, a cadena só saiu porque a querida Luciana Maes se prontificou a ficar com a Lani na base enquanto eu escalava, assim também a Janaína Xavier ficou com ela enquanto eu mandava a ‘Swedin-Ringle’ em Indian Creek Utah.

Hoje em dia as cadenas são coletivas. Obrigada amigos e amigas prestativas pela ajuda e que venham mais bebês para essa família da escalada.

Reclama-se muito que no Brasil não há uma cultura de montanha forte. Na sua opinião, o que você acha necessário para reverter esta realidade?

Urca-RJ, Marumbi-PR, Itatiaia… As áreas propicias tem cultura de montanha forte eu diria.

Brasil tem um litoral gigante, magnífico, daí a cultura da praia : lugar quente, úmido, se alguém sai do conforto do lar vai para praia.

Nos Estados Unidos por exemplo o mar é muito frio, o interior é que é gigante, as áreas de montanha são florestas de pinheiros, campos abertos, sem muitos insetos, lugares exóticos que viraram parques com infraestrutura (banheiro, mesas, área para barraca e fogueira…).

"the return of Geoff  Benne" a vista 2011, Red River Gorge KT foto: Gisely Ferraz

“the return of Geoff Benne” a vista 2011, Red River Gorge KT | Foto: Gisely Ferraz

Tem o fator econômico, os equipamento de camping são mais acessíveis (variedade, preço, poder aquisitivo) tem a cultura do motorhome… Assim os parques são frequentados por todos como é a praia para nós.

A maioria dos parques têm pedras, e a maioria dos americanos já viu alguém escalando e brincou de subir em pedras quando ainda criança (rock scrambling).

Para reverter, e estimular os brasileiros a frequentarem as montanhas, acho que mais parques, áreas com infraestrutura e educação/informação sobre a área visitada.

Mas não acho que tenha que reverter. Imagina, eu nasci e vivi em Floripa onde a cultura da praia e surf são fortíssimos.

Acho que o que me atraiu na escalada é que os lugares não são lotados e eu gosto da solidão das montanhas, da ideia de ser um lugar para poucos sem muita propaganda.

Foto : Arquivo Pessoal Juliana Petters

Foto : Arquivo Pessoal Juliana Petters

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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