Entrevista com José Luiz Hartmann – o “Chiquinho”

Realizar entrevistas é um trabalho não tão fácil quanto parece, e muitas pessoas confundem com “jogar confete” ou “bater papo informal”.

Mas como não ficar intimidado quando o entrevistado é conhecido, e reconhecido, como um excelente escalador, citado muitas vezes como “um dos melhores de todos os tempos”.

Pessoas que se tornam referência mundial no que fazem, além de ganhar fãs em todo os lugares que passam torna o trabalho do entrevistador muito mais difícil.

Esta seria a descrição de alguém que dispensa qualquer apresentação: José Luiz Hartmann – o “Chiquinho”.

O experiente escalador paranense possui tão alta técnica e histórico de conquistas que qualquer adjetivo torna o texto enfadonho e bajulador se não utilizado com parcimônia.

Porém Chiquinho é ainda merecedor de elogios os quais ainda não existem na língua portuguesa dado à monstruosidade de técnica e conhecimento.

Arenales 2013

Arenales 2013

Jose Luiz, você é considerado um dos maiores escaladores do Paraná. Como é isso para você?

Para mim é o resultado de uma vivencia de mais de trinta anos de montanhismo e escalada das oportunidades que tive, as parcerias e as montanhas incríveis que temos por perto que foram uma exigente escola de montanhismo e escalada.

Tive o privilégio de participar na conclusão de várias vias e na abertura de outras tantas nas montanhas da serra do mar paranaense e estas escaladas proporcionaram grandes aventuras e um bom aprendizado.

Trinidad Cochamo

Trinidad Cochamo

Com tanto tempo de escalada, você saberia apontar as principais diferenças entre os escaladores de sua época e os de hoje?

Quando comecei a escalar em 1982 as coisas eram bem mais difíceis de conseguir, quase não havia equipo de escalada, informação era muito escassa, haviam poucas vias e setores, tampouco guias de escalada e muito tinha de ser adaptado improvisado, a comunidade de escaladores era pequena.

Marumbi 1984

Marumbi 1984

Hoje você conta com lojas especializadas com opções de bons equipamentos, pode fazer uma pesquisa ou compra sem sair do sofá.

Variedade de vias e setores de escalada por todo país, assim como guias de escalada, cursos de formação, ginásios e muitos escaladores para compartir.

A evolução era mais lenta e custosa sem locais apropriados para treinar e um número litado de vias e setores para se escalar e ainda com equipamentos precários.

Hoje escaladores com dois ou três anos de atividade já alcançam níveis altos em algumas modalidades.

O objetivo era a montanha o ambiente natural.

Hoje vejo escaladores que nem conhecem as montanhas seu mundo de escalada se limita ao ginásio e estão felizes também.

A evolução da escalada de Boulders com lances que nem se imaginava agora realidade em muitos setores.

As vias eram abertas sempre de baixo e as chapas colocadas a mão, marreta e talhadeira 35 minutos de batidas para ter seu furo feito, depois veio a furadeira e ficou bem mais fácil e rápido.

A evolução dos equipamentos a disponibilidade da informação tornou a escalada mais segura e acessível e com uma grande variação de estilos seja do muro, boulder, falésia, tradicional, desportiva as grandes paredes, existem muitas formas de se fazer escalada e seguir evoluindo e se divertindo.

Na escalada , especialmente no Brasil, a questão do patrocínio é muito delicada. Na sua opinião porque há tão poucos escaladores e montanhistas patrocinados no Brasil?

Como a escalada não é popular se torna mais difícil atrair a mídia e convencer uma empresa a investir no seu projeto.

A medida que as empresas do ramo ganhem mais força, poderão sim investir melhor em patrocínios, por isso a importância da valorização e fortalecimento das empresas locais que investem na evolução do esporte.

Um retorno responsável ao patrocinador exige dedicação e habilidades.

O montanhismo e a escalada no Brasil possui pouca projeção. Quais seriam as coisas que faria o esporte crescer no país?

Para crescer terá de se tornar mais popular ser mais difundido, visto, apreciado.

Clubes, escolas, associações e grupos integrados promovendo o desenvolvimento seguro do esporte. Incentivo aos cursos de iniciação ao montanhismo e escalada.

Investimento em abertura de novos setores de escalada e recuperação de vias, melhorias de acesso e capacitação para serviços como hospedagem, alimentação, estacionamentos que geram renda no local e viabilizam acesso.

Incentivo à publicação de guias de escalada que tornam os locais, setores mais acessíveis e conhecidos.

Campo2 Salto Angel

Campo2 Salto Angel

Muito se fala que os escaladores são unidos. Você concorda com esta afirmação? Porque?

A escalada vem se tornando mais variada, algumas pessoas só fazem um estilo ou outro e ai a interação é menor, mas existem grupos bem unidos e trabalhando juntos investindo no esporte e acreditando em seus sonhos.

Há muitos escaladores por toda parte o que facilita quando se está viajando conhecendo.

Mas como em todos os meios existem grupos que as vezes pensam diferente.

Rio Turbio Patagônia 2008

Rio Turbio Patagônia 2008

Após tanto tempo de escalada, o que motiva você a escolher seus projetos?

O que mais me motiva é conhecer um pouco mais em cada aventura o nosso planeta azul, a escalada sempre me levou a descobrir algumas paragens especiais.

Los Encardidos , Marumbi 1994

Los Encardidos , Marumbi 1994

Existem tantos lugares incríveis para se conhecer e escalar, ambientes muitas vezes únicos, um privilégio poder conhecer e isso por si só já me motiva muito, ao mesmo tempo o tic-tac do relógio não para e sei que algumas aventuras tenho de realizar logo, assim trato de tentar o que acredito estar ao alcance em vários aspectos.

Gosto dos ambientes naturais que estão cada vez mais afastados e isolados onde muitas vezes a forma de se chegar a montanha ou parede já é em si uma grande aventura, isso me motiva e anima.

Conhecer os diferentes tipos de rochas suas formações e ambientes algumas que só se conhece escalando.

As comunidades locais e suas diferentes formas de levar a vida.

No Marumbi tenho projetos e vias interessantes para escalar e uma porção delas por mandar, assim há muita boa escalada e aventura bem perto de casa.

Quais os principais conselhos você daria a alguém que está começando a escalar agora?

Capacitação é muito importante, fazer um bom curso de formação, alongar e hidratar sempre e se divertir na escalada a motivação pode ser o fator decisivo em seguir escalando ou não.

Cuidar com lesões, os tendões se desenvolvem mais devagar que os músculos.

Uma evolução gradativa exige menos do corpo e da tempo dele se desenvolver e adaptar as novas exigências, assim como aprimorar os conhecimentos e técnicas próprias da atividade.

Aprender o caminho da montanha que é apaixonante e muito gratificante.

José-Luiz-Hartmann-4

Marumbi 2013

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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