Entrevista com Jordana Agapito

Caso tivesse existido algum “futurólogo” em escalada previsto cerca de 5 anos atrás que no Brasil existisse uma mulher capaz de encadenar uma linha de boulder com graduação V12, seguramente ele seria ridicularizado.

Pois a jovem Jordana Agapito estabeleceu esta marca a duas semanas atrás, elevando o nível da escalada brasileira um degrau a mais.

Boulder "400 contra 1" | Foto : Acervo Pessoal Jordana agapito

Boulder “400 contra 1” – V9 | Foto : Acervo Pessoal Jordana agapito

Vivendo em Goiânia e próxima de uma das cinco maiores áreas para a prática de boulder em todo o mundo, Cocalzinho de Goiás-GO, Jordana encontrou o lugar perfeito para lapidar sua técnica e força.

Com espantosos três anos de escalada, Jordana Agapito tem todo o potencial, e capacidade, de igualar o maior grau de boulder escalado por um brasileiro : V14.

Para saber um pouco mais sobre a escaladora, a Revista Blog de Escalada procurou Jordana Agapito para uma rápida conversa e saber um pouco mais sobre este novo destaque da escalada.

Jordana, você mesmo tendo pouco tempo de escalada, entrou para a história da escalada feminina brasileira encadenando um V12. Como foi que conseguiu esta façanha ?

Então, na verdade não sei muito bem… hahaha

O que posso dizer é que desde que escalei pela primeira vez, senti que queria fazer aquilo pro resto da vida.

Foi amor a primeira vista mesmo! Desde então, posso contar nos dedos das mãos os fins de semana que passei em Goiânia, cidade que moro.

Todos eles foram dedicados à escalada. Saio do trabalho na sexta, pego a estrada para Cocal e já rola o night climb até altas, aí escalo também sábado e domingo. Está sendo assim há quase 3 anos.

Boulder Cascavel SDS - V9 | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Boulder Cascavel SDS – V9 | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Além disso, tem os treinos indoor durante a semana que ajudam bastante. Outro fator que acho que foi determinante é que sempre pratiquei alguma atividade física, mesmo antes da escalada, e gosto de treino de força, então já comecei com alguma “base”, digamos assim.

Outro fato é que sempre escalei com a galera que é forte e manda muito.

Além de ter a vibe e o incentivo deles, conseguia enxergar que era possível escalar forte também.

Você também treina assiduamente Muay Thai. Você acredita que isso fez a diferença para a sua performance? Por que?

Eu treino duas vezes na semana. Gosto de ter um treino complementar, mas não sei se isso é a diferença….

Escolhi o Muay Thai porque treina resistência também, mas eu fico mudando de um treino para outro.

Já fiz pilates, agora passei para capoeira, etc.

Vou mesclando porque gosto de mudar o estímulo.

Boulder "Rachaachado" - V9 | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Boulder “Rachaachado” – V9 | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Obviamente é muito cedo para perguntar. Mas você espera chegar a encadenar um V13 também?

Espero sim.

O grau não é o limite e tem uma série de questões: encaixe, altura, envergadura, estilo, etc. Escalar um grau específico não é minha meta.

Minha meta é escalar!

Escalar sempre melhor, com mais consciência, melhorar leitura, técnica, etc.

E, principalmente, fazer trips incríveis com a galera sempre que possível e conhecer o maior número de picos que eu conseguir.

As performances de mulheres na escalada tem crescido exponencialmente no Brasil. A que você credita esta realidade?

As mulheres estão mais presentes no esporte e se uniram.

Estão na pilha de escalar bem, viajar, escalar juntas e isso contagia!

Vejo agora um movimento muito maior entre as mulheres de todas as partes do Brasil e também maior incentivo.

Poxa, tanta gente veio falar comigo depois dessa cadena que eu até me impressionei.

Acho que essa repercussão dá força para quem está começando ou quer começar.

Via "Decadentes 4" - 7a | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Via “Decadentes 4” – 7a | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Para outras mulheres que desejam encadenar um boulder, ou mesmo uma via, de graduação tão alta qual seria o seu conselho a elas?

Escalar muito, treinar e não ter medo de entrar em um boulder do grau hard.

Tem que experimentar tudo e todos os movimentos. Acho que não podemos nos intimidar pelo grau.

Outra coisa, muitas vezes sinto que as mulheres olham para os homens e pensam que eles conseguem mandar porque são muito mais fortes naturalmente, etc.

Mas nós também somos e temos que explorar mais!

Via "De Mão Beijada" - 7a | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Via “De Mão Beijada” – 7a | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Você treina duas vezes por semana na academia. Você acredita que se dedicasse mais à escalada como faz ao Muay Thai poderia obter resultados mais expressivos? Por que?

Eu treino duas vezes no ginásio de escalada e duas vezes muay thai (que agora virou capoeira).

Acho que é suficiente, pois escalo também o fim de semana inteiro.

Isso quer dizer que acabo treinando quase todos os dias na semana e é cansativo…

Me faz bem um treino complementar que ajude no alongamento e na resistência, porque só escalando boulder não consigo desenvolver isso e sinto falta.

boulder "Ai vó" - V9 | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

boulder “Ai vó” – V9 | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Quais são as escaladoras boulderistas que mais inspira você a treinar e tentar linhas de boulder tão difíceis?

Sempre curti a Alex Puccio, desde o início.

Ela virou minha musa! hahaha

Ela é muito forte e se dá muito bem na rocha, gosto desse estilo.

Via "Língua de Fora" - 7c | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Via “Língua de Fora” – 7c | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Boulder "Marimbondo Tatu" - V5 | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Boulder “Marimbondo Tatu” – V5 | Foto : Acervo Pessoal Jordana Agapito

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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