Entrevista com Fernando Abdalla

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Pouco badalado pelas mídias mainstream, o montanhista Fernando Abdalla é sem dúvida um tipico homem da montanha.

Figura ilustre e sempre presente em palestras promovidas pelo Clube Alpino Paulista em São Paulo, esconde dentro de sua simplicidade uma pessoa totalmente dedicada às montanhas e ao estilo de vida outdoor.

Apesar de discreto Fernando Abdalla é um dos grandes nomes do montanhismo brasileiro.

Para sair um pouco do lugar comum de entrevistas feitas com montanhistas escolhemos algumas perguntas mais filosóficas e que tivessem respostas carregadas de emoção e paixão pelo esporte.

Confiram o resultado abaixo.

Fernando é possível mensurar a sua paixão por escaladas em Alta Montanha?

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Se é complicado colocar até em palavras, imagina em números.

Subo montanhas ha mais de 15 anos, comecei com escalaminhadas em Itatiaia, fiz cursos de escalada em rocha, e sempre via a alta montanha como algo distante e inatingível.

Via fotos de cumes nevados na Bolívia e ficava abismado com a beleza e a inacessibilidade destes lugares.

Apenas quando tomei coragem e me inscrevi em um curso de escalada em gelo e progressão em glaciar do Clube Alpino Paulista em 2007 que essas imagens começaram a ficar um pouco mais próximas .

A cada expedição, a cada escalada a vontade na volta era sempre de ir mais longe, de treinar mais, ficar mais forte para encarar a proxima.

Estar na montanha, qualquer que seja sua altura, é uma coisa indescritível, algo que mudou minha vida, agora a alta montanha demanda mais, demanda mais treino, mais disciplina, mais conhecimentos, mais paciência, mais maturidade, mais tranquilidade.

Estar no ar rarefeito me faz querer ser uma pessoa melhor.

A mídia não-especializada constantemente glamoriza  as escaladas em alta montanha. Você saberia o motivo disso?

Fernando-Abdalla7Vivemos em uma época de poucas descobertas, quase todas montanhas ja foram escaladas, quase todos lugares da terra ja foram conhecidos.

Escaladas ja foram vistas como conquistas nacionais, e escaladores como heróis em outros tempos, comparáveis a astronautas.

Hoje em dia o glamour é bem menor se considerarmos o tempo “aureo” da escalada em Alta Montanha (anos 50 e 60), mas ai por isso mesmo que chamamos tanta atenção hoje em dia.

Não ha mais nada ser conquistado, então porque continuamos subindo as montanhas mais altas do mundo?

Muitas pessoas não entendem o que leva um homem ou uma mulher a largar o conforto, o calor de casa, a família, o trabalho, os amigos, a boa comida para enfrentar temperaturas mais baixas que o interior do freezer de casa, carregar mochilas mais pesadas que o limite para malas no transporte aéreo, andar quilômetros e quilômetros em lugares onde planta alguma cresce, e ainda gastar uma pequena fortuna para fazer isso.

Somos de certa forma vistos como deslocados no tempo, num mundo onde cada vez mais tudo na nossa vida está a disposição do nosso dedo, buscamos o desconforto, o desapego, a desconexão.

E neste caminho vemos, sentimos e vivemos coisas que o resto do mundo só conhece através de imagens e relatos.

E por mais que vivemos num mundo já descoberto, são poucos os que realmente conheceram o que está la fora.

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Para quem deseja começar a praticar escaladas em alta montanha, qual seriam os seus principais conselhos?

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Acho que o principal conselho que eu posso dar é gostar das montanhas.

Escalar Alta Montanha é (ou deveria ser) apenas uma extensão de uma vontade de estar proximo da natureza. 

Vejo muita gente que chega na montanha e olha só para o cume, que encara cada dia na montanha como uma “via sacra” para alcançar o objetivo final.

Claro que chegar ao cume é importante, nós montanhistas vamos para as montanhas para escalar elas não para ficar olhando!

Mas é importante que todos aspectos da montanha sejam apreciados e trabalhados, é importante sentir o frio, sentir a solitude e o cansaço, sentir o esforço que faz parte do dia a dia da montanha, aprender com isso e levar toda essa bagagem pro cume.

Nessa mesma ótica é importante entender que chegar la no alto demanda um aprendizado longo e acima de tudo muita vivência.

Não da pra queimar etapas, comece com um bom curso de escalada em rocha, va muito para montanhas proximas, escale bastante, faça travessias e caminhadas (o Brasil tem muitas!), aprenda como é a vida no mato, e ai comece a ir mais além.

Faça caminhadas mais longas em lugares mais altos, mais frios, vá para outros países.

Ai faça um bom curso de escalada em gelo e progressão em glaciar e tente escalar o maximo possível.

Conseguir patrocínio para aventuras outdoor parece ser mais difícil que a própria aventura. Porque tanta dificuldade por parte das empresas?

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Essa é uma questão complicada, o Brasil é um país burocrático, caro e atrasado; e a falta de apoio por parte de empresas não é privilégio só dos aventureiros, todos sofrem, cineastas, artistas e claro praticantes de outros esportes.

Ou seja, para todo mundo está difícil.

Desta forma acho que o problema está mais do nosso lado do que no das empresas.

É raro você ver um escalador brasileiro se propondo a fazer algo realmente único e extraordinário em termos de montanhismo ou exploração.

Pelo mundo temos visto vias fantásticas sendo abertas nos lugares mais inóspitos do planeta, recordes de velocidade sendo quebrados, façanhas mortais como escaladas técnicas dificílimas sem corda.

Esses caras tem patrocínio, vivem disso, geram dinheiro para empresas.

Agora tem muita gente no Brasil querendo patrocínio para subir o Everest com empresa de turismo.

Olha a diferença. Isso é uma questão de marketing, precisamos de um bom produto para as empresas comprarem, e hoje o nível mundial está altíssimo.

Enquanto nós alpinistas não elevarmos o nível das nossas atividades e das nossas conquistas acho complicado reclamar de falta de apoio.

Fernando-Abdalla3

Recentemente tivemos Copa do Mundo no Brasil, e a atenção excessiva em torno do futebol aconteceu novamente. Você acredita que o futebol sufoca a atenção que deveria ser dada a outros esportes?

O futebol está enraizado no nosso cotidiano, na nossa história e não tem muito que fazer a respeito disso.

Enquanto o futebol der ibope vai passar no jornal nacional todo dia.

O que tem sido bacana na verdade é que cada vez mais estão aparecendo alternativas, e enquanto muitos esportes estagnaram, os esportes ditos “radicais” não param de crescer.

O Canal OFF (um canal exclusivo de esportes radicais) é um exemplo disso, assim como a audiência do UFC. Este ainda é um pequeno passo, mas vejo uma mudança ocorrendo.

Com o crescimento da popularidade do montanhismo e escalada aumentaram também a incidência de lixo nas montanhas. Você acha possível reverter o crescimento da sujeira nas montanhas?

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Os sistemas que vi em montanhas extremamente movimentadas como o Denali e o Aconcagua se baseiam em 2 coisas, educação e repreensão.

Quando você aplica pro permisso ou permit de escalada os guarda parques te dão uma aula sobre o que fazer e o que não fazer na montanha e te dão as “ferramentas” para não sujar a montanha.

Caso você não use os sacos de lixo e dejetos numerados (ou a lata no caso do Denali) que eles te dão você leva uma multa caríssima.

Isso tem funcionado nestas montanhas.

Vi pouquíssimo lixo tanto no Aconcagua quanto no Denali.

Todo escalador tem uma história de algum apuro na montanha para contar aos amigos. Qual é a sua favorita?

Fernando-Abdalla1Quando decidi tentar escalar o Aconcagua coloquei como meta fazer do modo mais natural e independente possível.

Tentaria a escalada em solitário e sem a contratação de guias, carregadores, mulas ou qualquer empresa comercial.

Desta forma teria que carregar por volta de 45kg por todo caminho.

Em função desse peso todo tomei a decisão de encarar a montanha com uma bota leve, de couro, uma bota que me permitira fazer toda a aproximação e também a subida da montanha sem ter que carregar uma de plastico mais pesada nas costas.

Até o acampamento chamado Nido de Condores (5570m) foi tudo bem, acontece que a montanha estava excessivamente nevada naquela temporada, e bem mais fria que o usual.

Ja neste acampamento comecei a sentir frio no pé, e havia mais de 1400 metros de desnível acima, mas resolvi encarar e ver no que dava.

Na madrugada da minha tentativa de cume a temperatura estava em –30 oC. Parti do acampamento de Cólera (6000m) e imediatamente comecei a sentir meus pés congelando. Andei mais ou menos uma hora e quando vi que não sentia nenhuma parte da sola dos meu pés e percebi que havia uma chance real de perder dedos.

Resolvi abortar e retornar ao acampamento. Estava bem, forte, aclimatado mas não tinha o equipamento necessario, mas também não estava pronto para desistir.

Conversando com alguns guias no Cólera me veio a ideia de descer até o campo base (4300m) e tentar arrumar uma bota melhor. E foi isso que fiz, desci toda montanha, passando por todos acampamentos que ja havia passado nos ultimos 7 dias, uma descida longa e desanimadora.

O que consegui no campo base foi uma bota de plastico bem velha e uns 2 numeros menores do que deveria ser, mas é o que tinha então resovi tentar a sorte.

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Foto: Acervo pessoal Fernando Abdalla

Voltei para Nido de Condores numa tacada só e no dia seguinte estava pronto para tentar o cume do acampamento de Berlin (6000m). Estava sozinho no acampamento e de madrugada parti com as botas alugadas.

O começo foi bem mas comecei a sentir o aperto delas por serem de numero menor, o que em resumo acaba deixando o pé sem circulação e com bem mais frio.

A dor voltou assim como a sensação de anestesia. Batalhei até um barraco abandonado chamado Independência (6.350m) e estava pronta para mais uma vez jogar a toalha.

Neste momento começou a amanhecer e tive a ideia de retirar as botas e massagear os pés para reativar a circulação. Com o sol a temperatura melhorou bastante, e depois de quase 2 horas parado resolvi partir novamente.

Cheguei ao cume em 3 ou 4 horas de caminhada sozinho e de volta a Berlin ao tirar as botas percebi um tom roxo no dedão, principio de congelamento. Fiz o que pude, aqueci água e mergulhei meus pés, mas não havia muito que fazer.

A volta foi muito dolorida, dois dias inteiros de caminhada, mais de 30 kms com os pés debilitados.

De volta a civilização passei mais de 3 meses com dificuldade em usar qualquer tipo de sapato. Perdi varias unhas nas semanas seguintes e meu pé mudou de tamanho, aumentou um numero inteiro!

Hj em dia não sinto sequelas mas para sempre essa experiência me mostrou que cuidar dos pés é uma das coisas mais importantes na alta montanha, e escolhas erradas por menores que sejam podem fazer toda a diferença numa escalada.

Você acredita que no Brasil a cultura de montanha evoluiu para melhor ou pior nos últimos anos?

Acho que em geral o montanhismo no Brasil evoluiu, ainda que em passos pequenos.

Vejo mais gente escalando em academias e na alta montanha, vejo muitos lugares novos de escalada em rocha pelo Brasil, mas como falei anteriormente não necessariamente estamos vendo grandes conquistas em nível internacional.

O alpinismo nacional depende muito de indivíduos dispostos a se arriscarem e a largar tudo para perseguir um sonho, um desafio.

Quanto mais malucos destes aparecerem melhor para o nosso esporte e nosso legado.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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