Entrevista com Diogo Ratacheski

Outrora o melhor escalador do Brasil e com um futuro brilhante no esporte pela frente o curitibano Diogo Ratacheski sofreu um sério acidente automobilístico que o deixou paralítico.

No época houve uma comoção grande dentro da comunidade.

Com espírito inquieto, e com muita energia para sempre vencer a si mesmo, Ratacheski agora está com seu projeto novo “Rodas para Voar”, e nós da Revista Blog de Escalada fomos conversar com ele.

Diogo, você já foi um dos escaladores mais fortes do Brasil. O que a escalada representa para você hoje?

Obrigado pela lembrança !

Foram muitos anos de dedicação a este esporte que na verdade representava um estilo de vida para mim.

Quando paro para refletir o que a escalada representa para mim atualmente, me vem logo à cabeça palavras como, determinação, coragem, foco, força e superação, pelo fato de serem conceitos fundamentais e definitivos para um verdadeiro escalador.

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

A escalada me proporcionou muitos momentos singulares e por isso entendo que me fez crescer tanto mental quanto fisicamente, representando muito além de uma boa lembrança.

Eu diria também, que ela enrijeceu minha pele, me preparando para as dificuldades que estariam por vir.

Você teve um acidente que mudou a sua vida. Que lições você tirou desta mudança que o destino aplicou?

Minha vida mudou drasticamente, deixei de fazer coisas que entendia serem fundamentais para o meu dia a dia, meus planos mudaram.

Distanciei-me de muitos amigos, talvez pela ausência das afinidades que eram à base de nossa relação.

Porém, em contrapartida fortaleci amizades que se demonstraram ser muito mais do que a palavra representa, e também tive a oportunidade de fazer novas. 

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Lições aprendidas foram muitas, com certeza envelheci uns bons anos…

Entretanto esse aprendizado não se resume a palavras, está enraizado e marcado pelas cicatrizes feitas durante a vivência dos dias ao longo da evolução de todo esse processo. 

Mas uma difícil lição que tento praticar é “não ter expectativas muito otimistas com relação a ninguém, pois quando alguém me decepcionar, eu estarei preparado”.

Recentemente você criou o projeto “Rodas Para Voar”. O que motivou você a criar este projeto?

Na verdade o projeto foi criado por mim e pela minha esposa Alexandra e surgiu da nossa vontade de compartilhar nossas experiências do dia a dia com a cadeira de rodas, tanto pelo meu olhar de cadeirante como pelo dela de acompanhante, com nossas conquistas, dificuldades, superações, viagens, esportes entre outros.

Mostrando que nossas maiores barreiras estão em nossas cabeças, independente de limitações físicas.

Que sim, podemos ser muito felizes mesmo depois de perdas e mudanças que nunca poderíamos imaginar que aconteceriam.

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Dentro do seu novo projeto você já terminou uma maratona e virou triatleta. Como é sua rotina de treinamentos?

Na verdade terminei até hoje quatro provas de meia-maratonas de 21 km cada uma e atualmente treino natação, corrida e musculação diariamente.

Pretendo cruzar a linha de chegada de uma maratona com seus 42 km em uma cadeira de rodas convencional pela primeira vez no próximo dia 15 de novembro na Maratona Internacional de Curitiba. 

Como ainda não tenho a Handbike e a cadeira de atletismo, não posso participar de provas de ciclismo e corridas oficiais, portanto ainda não me considero um triatleta, e sim um projeto de triatleta… kkk!

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Mas como estou trabalhando duro para alcançar esse que é meu objetivo, pretendo aí sim, em 2016 ser um verdadeiro triatleta, desta vez almejando ser um IRONMAN. 

Como os equipamentos de que preciso para a prática do paratriathlon possuem um custo elevado, o projeto Rodas para Voar também visa a obtenção de patrocinadores para viabilizar a aquisição destes materiais e assim eu poder participar e me qualificar nas competições de nível nacional e internacional existentes, que envolvem provas de ciclismo, natação e corrida, também para prover suporte aos meus treinos ao longo do ano para assim atingir melhores resultados.

Sobre seus objetivos no esporte, onde almeja chegar ? Qual é sua meta?

Em 2016 pretendo participar de provas de paratriathlon no circuito nacional e internacional, tenho como principal objetivo até 2017, ser o segundo atleta cadeirante brasileiro a completar uma prova de IRONMAN, e o primeiro atleta cadeirante brasileiro na história a alcançar uma vaga para campeonato mundial, no Havaí.

As distâncias compreendidas nas provas oficiais de IRONMAN são respectivamente 3.8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida. 

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Como atleta você vivencia a dificuldade de encontrar patrocínio. Por que você acha que é difícil empresas abrirem os olhos para outros atletas e esportes que não seja futebol?

Então… A experiência que tive durante toda a minha trajetória esportiva na escalada me mostrou que encontrar bons patrocinadores em nosso país é uma difícil missão, agora nessa nova etapa do paratriathlon, tudo é muito novo para mim, mas já vejo que também não será nada fácil.

Acho que esse é um problema cultural, brasileiro é fissurado por futebol, a dificuldade começa por aí. Entretanto, acredito que quando se faz um trabalho profissional em qualquer esporte, tudo é possível.

Cabendo também a nós como atletas saber enxergar as possibilidades e aproveitar com seriedade as oportunidades que estão por aí.

Você está superando desafios todo o tempo. Você planeja também voltar a escalar um dia?

Voltar a ter meu foco na escalada como antes, não.

Porém, esse mês ainda vou ao ginásio de escalada Campo Base praticar um pouco de “monte” para relembrar velhos tempos e rever os antigos amigos, inclusive o pessoal lá já está preparando uma via (rota vertical) para mim.

De vez em quando pretendo praticar sim, para quebrar de uma vez por todas paradigmas criados em nossas cabeças pelas limitações aparentes no esporte.

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Por trás de uma pessoa que supera grandes desafios, como você, há também que o apoie. Quais foram às pessoas que você gostaria de agradecer? Por que?

Agradecer a minha esposa que sempre me incentivou a me reencontrar no esporte, seja ele qual fosse.

Minha família que nunca deixou a peteca cair apesar de todas as adversidades.

Aos verdadeiros e velhos amigos, que me ajudaram a chegar até aqui.

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Aos novos amigos que estão me ajudando a encarar esse desafio triathlon de frente, triatleta Giuseppe Musella que foi ao mundial de IRONMAN nesse ano de 2015 em Kona, no Havaí, sendo o brasileiro com melhor colocação na sua categoria e fisioterapeuta e triatleta Daniel Kuriu que sempre está no meu apoio, entre outros.

A minha Coach e triatleta Vanuza Maciel, que representa atualmente para mim o maior exemplo de superação e determinação no esporte, que acabou de conquistar uma vaga para o mundial de Kona, no Havaí em 2016 enquanto respondo a essa entrevista.

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Foto : Acervo Pessoal Diogo Ratacheski

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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