Entrevista com Debora Hashiguchi

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Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Tendo o Brasil dimensões gigantescas, e chamado até mesmo de continentais tem como consequência a existência de várias realidades dentro do país.

Apesar de ser clichê, a frase “Vários Brasis dentro do Brasil” se encaixa muito bem.

Em um esporte considerado segmentado como a escalada e montanhismo não poderia ser diferente.

Nesta linha de raciocínio podemos apontar que há uma legião de escaladores, e escaladoras, na região Nordeste que são desconhecidos do público em geral.

Indicada por quase todos os escaladores da região Nordeste como uma dos maiores expoentes da escalada feminina da região, Débora Hashiguchi merece destaque.

Escaladora dedicada, inteligente e cheia de opinião, foi procurada pela Revista Blog de Escalada para uma entrevista para sabermos um pouco mais sobre ela e como vê o panorama da escalada em seu estado e Região.

Mãe de dois filhos desfilou uma verdadeira aula de análise do esporte e de como tirar determinação do fundo da alma.

Leia abaixo a entrevista completa.

Debora como é a realidade de uma escaladora vivendo no Rio grande do Norte?

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Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Eu acredito que a escalada no Brasil exige bastante dedicação do esportista em qualquer estado em que ele esteja.

Não é como o futebol que uma bola no pé e um pedaço de chão são suficientes, também não é como a natação onde você encontra sempre uma academia/clube perto da sua casa para treinar.

A cultura da escalada no Brasil ainda é pequena e isso traz muitas dificuldades para o atleta que quer se dedicar e crescer no esporte.

Se acredito que isso acontece em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Paraná (onde se tem alguns poucos bons ginásios para se treinar) aqui no Rio Grande do Norte é ainda pior.

Infelizmente a cultura aqui é muito menor que nas regiões do sudeste e sul do Brasil, a maioria das pessoas ainda confunde a escalada com hiking, rapel etc.

Já ouvi muito, muito mesmo, de pessoas que nunca escalaram: “Vamos combinar um dia de irmos escalar juntos.” ou então: “Um dia eu fui escalar, fomos até a Boca” se referindo a uma determinada trilha do Parque Estadual da Pedra da Boca, além é claro da famosa “Eu também já fiz rapel”.

Fora isso, aqui não temos ginásios, ou seja, muitas das pessoas que tem algum tipo de experiência na escalada, seja através de:

 • Curso (homologado pela AERN – Associação de Escaladores do RN),
• Evento realizado pela AERN (Kalangada) ou
• “Passeio” com algum amigo escalador,  não tem muita opção para se desenvolver como esportista.

  A grande maioria das pessoas que experimentam e gostam da escalada acabam indo para a rocha de vez em quando e, é claro, não se desenvolvem como esportistas ou como atletas.

Os amantes da escalada, por outro lado, se ralam para conseguir evoluir.

Aqui em casa fizemos um murinho de 2,20 x 4,5m que usamos para treinar.

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Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Não é um ginásio onde temos grandes opções de vias, boulders, amigos, onde tudo se torna agradavel. Às vezes você se diverte, mas o foco é no treino mesmo, sem muita variedade.

O muro é aberto nos nossos dias de treino para quem quiser aparecer, mas são dias e horários bastante restritos e com mais de 5 escaladores o treino acaba ficando ainda mais precário, mas é o que temos.

Encaro isso como uma fase de desenvolvimento do esporte, por enquanto escalar aqui é para quem ama mesmo a escalada.

Seguramente a cultura do esporte de praia é muito forte no seu estado. Você acredita que isso impacta na difusão da escalada?

Com certeza influência, mas não é o único fator.

É claro que a praia está muito mais acessível, oferecendo uma grande variedade não apenas de esportes como também de lazer, ainda mais com o clima “sempre quente Nordestino”.

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Mas temos também o skate, o surf, o futebol, o vôlei, o basquete, a natação, entre milhares de outros esportes mais acessíveis pelo Mundo à fora e nem por isso a cultura da escalada deixou de se desenvolver.

Acredito que a cultura da escalada no Brasil e, principalmente, aqui no RN é bastante “nova” e está em desenvolvimento.

Precisamos fazer algo para que a escalada não “se enterre com os atuais praticantes” e isso depende fundamentalmente de quem curte a escalada, é nossa responsabilidade. Se o esporte não se desenvolve a culpa é nossa, não da praia, não do clima e menos ainda de quem tem pouca ligação com o esporte.

Os escaladores que querem continuar praticando o esporte e que querem ver o esporte crescer têm que se conscientizar de que precisamos fomentar o esporte, para que esta cultura se fortaleça e se intensifique.

Aqui, na falta de um ginásio, existem alguns poucos escaladores que, assim como eu, fizeram murinhos em suas casas e que abrem em dias e horários restritos, para treino.

A AERN tem feito trabalhos de divulgação e fomento do esporte escalada no RN mas, como acontece em todo o Brasil, nem todo escalador está envolvido com estas atividades.

Temos ainda o agravante de sermos um número bem pequeno, por tudo isso acredito que o maior problema que enfrentamos na difusão da escalada aqui no RN é a falta de um muro ou ginásio para que os iniciantes possam praticar a escalada de forma regular, dando a estes a oportunidade de se divertir, se apaixonar e se desenvolver no esporte, e fazendo a “bola de neve rolar ladeira à baixo”.

Os considerados principais lugares de Escalada do Brasil estão no Sudeste, você acredita que isso é um limitante para escaladores que residem no Nordeste?

Sim e não… me deixa explicar melhor.

Sim porque aqui não temos muitos locais abertos, e com os poucos escaladores que somos acabamos frequentando sempre os mesmo lugares.

São lugares que já estão “limpos” (trilhas e rocha) e desenvolvidos (com certa variedade de vias e boulders) mas não com quantidade suficiente para que o escalador tenha uma vasta experiência.

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

É como escalar no quintal de casa, os mesmos boulders, as mesmas vias, os mesmos movimentos, a mesma rocha e com níveis de dificuldade restritos, e com isso ficamos limitados

Precisamos viajar para locais mais distantes, em outros points de escalada desenvolvidos, em busca de crescimento.

Por outro lado não porque, o baixo número de escaladores não permite um grande desenvolvimento de áreas de escalada por enquanto e, caso isso se realizasse, a demanda de escaladores para manter estes locais seria muito maior que o número de escaladores atuais, mesmo considerando os que escalam raramente.

Mas, como eu disse anteriormente, estamos em crescimento e, aos poucos, isso está mudando.

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Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Como a escalada é um esporte “recente” no Nordeste, ainda temos muito a explorar, abrir, points a consolidar.

Temos uma grande quantidade de rocha ainda inexplorada no NE não apenas em locais já abertos com também em outras localidades.

Em 2013 houve o EENe – Encontro de Escaladores do Nordeste em Algodão de Jandaíra/PB, na época houve um grande investimento nas vias locais.

Um lugar com um potencial incrível, muita coisa ainda por abrir, rocha macia e bem consolidada.

Mas apesar de muitos blocos e deste potencial todo, não tinham boulders abertos na região.

O local fica a pouco mais de 200k de Natal e então começamos a investir no desenvolvimento do point de boulder desde então, mas é um trabalho de “formiguinha”.

Acredito que o esporte cresce de acordo com a demanda onde, na transição de uma fase a outra, se perde muita energia, mas o resultado final é o crescimento:

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Há pessoas que dizem que o acesso à equipamentos outdoor no Nordeste é muito limitado. Você acredita nesta afirmação? Porque?

É limitado sim, com certeza.

Não temos muitas lojas físicas que vendam este tipo de equipamento por aqui.

Sei que estou me repetindo, mas estas são atividades que ainda estão no início de seu desenvolvendo por aqui, as pessoas nem sabem direito o que são, como são ou mesmo quando e onde estas atividades podem ser praticadas.

Portanto são atividades que não tem uma grande demanda destes equipamentos não sendo lucrativo para as lojas investirem nesta área.

Hoje se alguém perguntar a você quais são os melhores lugares para escalar no Rio Grande do Norte?

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Bom, no RN mesmo o melhor lugar para se escalar por enquanto é a Serra Caiada, com rocha de alta qualidade, mais de 150 vias esportivas e tradicionais entre 3º e 10º Grau e algumas dezenas de boulders entre V0 a V10 e o pico ainda tem muito o oferecer.

Além disso, alguns dos estados do NE são bem próximos, em pouco mais de 100k temos o Parque Estadual da Pedra da Boca (um bom point de escalada que fica na divisa entre RN e PB) com mais de 100 vias, dezenas de boulders e muito a se explorar.

E a pouco mais de 200k temos Algodão de Jandaíra, também com mais de 150 vias e dezenas de boulders.

Todos estes são locais já abertos com potencial para muito mais, mas se você viajar pelas estradas do sertão Nordestino com certeza será capaz de encontrar outras cidades com potencial para novos picos.

No ano de 2013 não houve campeonatos de escalada. A que você acredita que os campeonatos de escalada definharam nos últimos anos no Brasil?

Acredito estarmos em uma fase de transição, todo esporte acaba passando por isso mais cedo ou mais tarde.

A CBME estava desempenhando um papel de grande importância para o fomento e desenvolvimento do esporte escalada de forma geral, e acredito que eles tenham desempenhado este papel de forma bastante competente.

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Mas acredito que hoje a demanda Brasileira para a escalada de competição necessite de um órgão que foque nesta área específica.

Assim como temos a CBF e as Federações das variadas modalidades de futebol, a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos e suas respectivas Federações para cada modalidade aquática, as Confederações e Federações de Esportes no Gelo, Radicais e etc.

A CBME é um órgão grande, que tem muitas responsabilidades, precisamos de uma Federação própria para a escalada esportiva, que tenha o foco de desenvolver a escalada de competição no País.

A escalada está “exigindo” este crescimento e não podemos ignorar isso, ou corremos o risco de deixar “morrer”.

O que eu acredito que tenha contribuído para esse decréscimo nos últimos anos foi exatamente isso, já precisamos deste órgão a algum tempo, mas ainda não tínhamos força para cumprir este papel. Quantos atletas profissionais de grande empenho e comprometimento tínhamos no passado?

Quantos temos hoje? Mas entendemos esta necessidade, e providências estão sendo tomadas para este novo quadro da escalada Brasileira.

Acredito estarmos no aminho certo e rola a bola…

Como você realiza a sua preparação para a escalada?

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Bom, esta é uma pergunta complicada para mim.

Eu me programo para realizar 2 a 3 treinos por semana com duração de aproximadamente 2h por dia, no muro de casa, e mais um complemento com treinamento aeróbio de aproximadamente 45minutos outras 2 vezes na semana.

Mas com as responsabilidades de casa e família (principalmente referente à minha filha de 15 anos e meu filho de 6) e ainda minha vida profissional, confesso que algumas vezes eu não consigo realizar toda a programação e a média fica em torno de 4 vezes na semana.

Até eu filho nascer, no final de 2007, eu escalava mais vias esportivas, mas desde então fiquei mais focada em boulders pela facilidade da prática na rocha e meus treinos também se voltaram para este fim.

Como sou formada em Educação Física e tenho especialização em Treinamento Desportivo, tenho base para desenvolver uma planilha de treinamento de acordo com a minha realidade e, se necessário, ajustar o treino frente a modificações inesperadas ou programadas.

Infelizmente minha vida atual não permite que eu seja tão focada como um atleta profissional, mas tenho meu grau de “pilha” na escalada, o que me faz desenvolver de forma crescente e estar sempre querendo mais.

Neste ano de 2014 você possui algum projeto específico ou alguma viagem programada?

Não sou uma pessoa de fazer projetos muito específicos, meu maior objetivo é aumentar minha base na escalada.

Por isso meu projeto é entrar em V4/ V5 para mandar, meu foco é aumentar meu repertório para enfrentar a maioria dos boulders desta graduação que eu encontrar pelo caminho, seja ele atlético (que particularmente ADORO), técnico, ou seja lá o que for e, depois, passar para o próximo passo, V5/V6.

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

Quanto a viagens, com a Copa do Mundo sendo realizada aqui no Brasil, Natal sendo uma das cidades sede (onde não há expediente escolar nos dias de jogo do Brasil e jogo na cidade) e eu não dando grande importância ao futebol, ficou obvio para mim que eu tinha que viajar neste período.

No início deste ano eu fui conhecer Cocalzinho de Goiás, a cidade se mostrou um paraíso brasileiro para boulderistas, juntando isso ao fato de encontrar por lá a galera mais acolhedora que eu já conheci na vida, fiquei tão alucinada que a ideia de um dia morar em Goiás ainda vive ardente em meus pensamentos.

Além disso, não tivemos a oportunidade de participar do EENe deste ano que foi em Igatu, outro Paraíso da escalada Brasileira, que conhecemos em 2009 e onde nunca mais voltamos.

Com tudo isso e mais o fato de Igatu estar a “meio caminho” de Cocalzinho (daqui de Natal), a viagem já tinha destino certo, é só uma questão de logística agora.

Qual e a reação de amigos e familiares quando você diz que pratica escalada?

Conheço pessoas com os mais variados graus de conhecimento do esporte e já vi reações de todo tipo:

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Foto: Acervo pessoal Debora Hashiguchi

 • Pessoas que se espantam achando que sou uma mulher radicalmente irresponsável;
• Pessoas que se impressionam achando que eu sou uma mulher radicalmente “corajosa” e “popular”; e
• Pessoas que sabem o que é a escalada e simplesmente entendem que você escolheu um esporte para se dedicar e que isso vai influenciar suas escolhas, sua opção de vida, mas não vai te deixar menos responsável ou mais popular por isso.

Entre estas três ainda existe uma enorme variedade de reações que são a combinação entre elas, que eu poderia citar, mas prefiro me concentrar nas duas primeiras posturas, que eu considero extremas, que me incomodam bastante e por isso estou sempre lutando para levar a conhecimento público maiores esclarecimentos com relação à escalada.

Sempre que tenho a oportunidade estou escrevendo ou falando a respeito do esporte, suas modalidades, seus equipamentos e procedimentos de segurança.

Mostrando às pessoas que escalar é um esporte como outro qualquer que não da status a ninguém, a não ser a alguns poucos atletas profissionais, e que tem seus equipamentos de segurança projetados para garantir a maior segurança possível na prática da atividade.

A escalada comporta os mais variados tipos de pessoa, mas que na sua maioria é formada de pessoas comuns (responsáveis) que só querem se divertir, como em qualquer sociedade esportiva, religiosa ou seja lá o que for.

Não me importo em ser vista como diferente, mas não aceito ser julgada irresponsável e inconsequente por pessoas que não tem base para fazer tal julgamento, como também não gosto de exagerada evidência.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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