Entrevista com Cissa Carvalho

Foto: Beto Pinto

Foto: Beto Pinto

Viver intensamente e respirar o espírito da montanha é o objetivo de todos os que praticam escalada e montanhismo.

Lugares montanhosos por si só já emanam paz e serve de convite para a meditação.

Uma das  pessoas que mais vive este espírito é a brasileira Cissa Carvalho, uma atleta que sempre está fazendo questão de praticar todas as modalidades de escalada possíveis.

Praticando escalada esportiva, boulder, alta montanha, trekking entre outras atividades Cissa Carvalho sem dúvida nenhuma é dos principais nomes do esporte no Brasil.

Para conhecer um pouco mais desta pessoa de montanha a Revista Blog de Escalada procurou para uma conversa que rendeu uma excelente entrevista.

Não percam nenhuma palavra abaixo de Cissa Carvalho.

Cissa você sempre está nas montanhas para escalar e se sentir viva. Você consegue visualizar outra maneira de viver?

Foto: Beto Pinto

Foto: Beto Pinto

Não consigo.

Fiquei um bom tempo sem praticar esportes outdoor e voltei com tudo em 2012, e depois dessa volta não me imagino mais sem meus finais de semana escalando ou minhas viagens às montanhas.

Felizmente ou infelizmente para mim os finais de semana e algumas semanas de férias por ano nunca foram suficientes para matar minha vontade de estar nas montanhas, e isso tem direcionado as escolhas que fiz em outras partes da minha vida.

Ainda assim, gostaria de poder viver mais perto e com acesso mais fácil à picos nevados para poder saciar essa vontade com mais frequência, já que minha modalidade preferida é a escalada alpina em alta amontanha.

Acho que atualmente estou num meio termo entre o que gostaria e o que posso vivenciar em termos desse estilo de vida.

Você acha que é possível o esporte de escalada ou montanhismo tornar-se mais popular e deixar de ser um esporte de nicho?

Foto: Beto Pinto

Foto: Beto Pinto

Acho que em se tratando de escalada em rocha sim, pois apesar de não termos a quantidade de rocha dos EUA ou Espanha por exemplo, ou uma comunidade tão desenvolvida quanto a desses países, tenho a impressão de que o esporte está crescendo bastante além de ter potencial para atrair ainda mais gente.

Tem muito setor sendo aberto e desenvolvido em todos os cantos do país, muita gente divulgando, gente se organizando, isso tudo com certeza é sinal de expansão.

Já se tratando de alpinismo eu creio que não, primeiro porque não temos acesso à lugares onde podemos praticar com frequência e nos desenvolver, segundo porque obviamente não existe cultura de esportes de inverno no nosso país, ou seja, o público não entende todo o processo da escalada e consequentemente não conseguirá dar o devido valor à atividade – isso obviamente tem implicações comerciais, pois acho que hoje em dia nenhuma empresa patrocinaria uma expedição como a Petrobrás fez com os meninos que tentaram a parede sul do Aconcágua.

Me parece também que o número de pessoas “experimentando” alta montanha em grupos e expedições guiadas tem aumentando um pouco, mas não acho que seja uma tendência que se sustente pois escalar dessa maneira custa bastante dinheiro, e do ponto de vista de escaladores independentes de alta montanha o número é irrisório justamente pela dificuldade de auto desenvolvimento.

A não ser que brotem alguns picos nevados em nosso país, não vejo mudança nesse cenário a longo prazo.

Foto: Marcio Faria

Foto: Marcio Faria

Qual a reação de familiares e colegas de trabalho quando você fala que é escaladora?

Depende muito da modalidade que estou praticando.

No geral quando vêem minhas fotos fazendo clássica (parede) se assustam um pouco, mas as maiores reações aparecem mais quando estou escalando em alta montanha.

Isso porque eu nem tiro muita foto quando estou escalando, principalmente das partes expostas ou mais sérias ninguém nunca nem viu foto, mas eu sempre tranquilizo o pessoal de casa ou amigos pois sou bem responsável e conheço o limite da minha tolerância à risco.

No começo obviamente muita gente era contra e meus pais não aprovavam muito, mas com o tempo foram vendo que eu sempre volto viva e feliz, então apesar de não entenderem muito, eles aprenderam a respeitar.

Para quem esta inciando, ou até mesmo quer praticar escalada e montanhismo, qual é o conselho que você daria?

Foto: Acervo pessoal Cissa Carvalho

Foto: Acervo pessoal Cissa Carvalho

Acho que mais importante que iniciar é continuar escalando.

Primeiro de tudo, fazer um curso, seja em rocha, seja em gelo.

E seguir mesmo escalando, vejo muita gente que começa e não se dedica, não segue praticando.

Não acho que ninguém precise ficar paranoico com treinamento, mas se em qualquer modalidade da escalada, pra se chegar a qualquer ponto, é preciso alguma dedicação.

Principalmente para quem quer fazer alta montanha, digo que tem que treinar o aeróbico e a disciplina.

Já vi e escutei muita história de gente que vai para montanha para ficar fazendo zona em refúgio e desiste com qualquer desconforto, acho que se for para ir assim, melhor nem ir.

Ou seja, quer escalar, escale de verdade, e com dedicação.

Se para chegar em níveis intermediários tem que fazer sacrifício e abrir mão de bastante coisa, imagina para ser escalador de elite…

Principalmente para as mulheres, meu conselho seria ser mais independente.

Temos que escalar mais em cordadas femininas, desenvolver e acreditar mais na nossa capacidade, e não depender só do que amigo ou namorado quer fazer, senão ficaremos eternamente limitadas.

Muitos escaladores e mídia não especializada focam muito a atenção em atletas estrangeiros. Na sua opinião porque você acha que acontece este interesse?

Foto: Ana Ligia Fujiwara

Foto: Ana Ligia Fujiwara

Como você mesmo disse, não são especializados, então talvez tenham um gosto pessoal e não tenham como objetivo ou não entendam a importância de divulgar os talentos daqui.

Se são blogs pessoais não vejo problema pois são pessoais, e meu blog se enquadra nisso.

No entanto, não acho legal sites grandes que realmente só dão espaço para as super estrelas do esporte.

Tudo bem que não temos nenhum escalador super hiper importante, mas é bastante inspirador, pelo menos para mim, saber das conquistas dos nossos melhores escaladores, ainda que não seja do nível Adam Ondra ou Ueli Steck.

Achei inclusive muito válida uma entrevista recente aqui na Revista Blog de Escalada com uma escaladora que ainda está no sexto grau, tenho certeza que a maior parte dos escaladores se identificam muito mais com esse tipo de pessoa do que com um escalador dos cafundós da Europa mandando décimo segundo grau, afinal de contas, escalador de elite no Brasil é a grande minoria.

A copa do mundo acabou recentemente no Brasil e levantou-se a teoria de que o futebol sufoca os outros esportes. Você concorda com esta afirmativa?

Jogar a culpa no futebol é a saída fácil para esse tipo de discussão. Futebol nunca vai deixar de ser o esporte nacional e escalada (ou qualquer outro esporte de risco) nunca vai ser um esporte popular, fato.

A questão é que todos os esportes deviam ter o mesmo investimento, e dinheiro não falta, mas tem muita federação de esporte olímpico muito corrupta e mal administrada.

Além disso, escalada no Brasil ainda está engatinhando em comparação com outros países, então também não adianta achar que de uma hora para outra o público leigo vai conhecer escalada e vão aparecer um monte de patrocinadores.

Não foi assim nos EUA e na Espanha antes da escalada ser por lá o que é, não será assim no Brasil.

Foto: Cissa Carvalho

Foto: Cissa Carvalho

Acho que temos que focar em nos dedicarmos a sermos bons escaladores por satisfação própria, e com nossos sucessos e conquistas pessoais virá o reconhecimento material e imaterial.

É preciso desenvolver a prática no país, mas isso me parece ser coisa de longo prazo.

Ficar falando mal de futebol não vai ajudar em nada, fazer associações como a ABEE sim é uma inciativa importante.

Divulgar e desenvolver o esporte só depende de nossas atitudes.

Espero que seja a primeira de muitas associações para todas as modalidades.

Nos últimos 10 anos filmes hollywoodianos passaram a tratar as atividades outdoor com mais veracidade. Você acredita que filmes com esta temática agrega algo para o esporte? Porque?

Com certeza. Traz visibilidade, e isso tem implicações positivas tanto do ponto de vista esportivo quanto comercial.

Ajuda o mercado, os atletas e nós meros mortais.

Acho que o boom de esportes de aventura no Brasil tem a ver com o fato de termos mais acesso á informações sobre esses esportes, além claro de mais poder aquisitivo para praticá-las, mas com certeza todo tipo de mídia que democratiza essas atividades ajuda bastante no crescimento da escalada no país.

Não é segredo para ninguém que há muitas pessoas que medem o valor do escalador pelo grau escalado. O que você pensa deste tipo de pensamento?

Cissa-Carvalho-beto_pintoPergunta polêmica, resposta talvez mais ainda!

Bom, quando morei nos EUA, ouvia de vez em quando a pergunta: “é melhor ser peixe pequeno em lago grande ou peixe grande em lago pequeno?”

Hoje vejo o Brasil como um “lago pequeno” com alguns poucos “peixes grandes” – tanto gente realmente boa quanto gente boa querendo aparecer.

Conheço escalador muito bom que é assim e escalador muito bom que é super humilde, inclusive os humildes sempre parecem estar se divertindo mais que qualquer outro escalador.

Me parece que numa comunidade com muitos escaladores muito bons (digo isso com referência à americanos e espanhóis pois são a maior parte dos escaladores que conheço) esse tipo de coisa não acontece porque o espaço para “aparecer” é menor e só aparece quem realmente tem nível mundial.

De novo, talvez seja nossa comunidade que ainda não está muito desenvolvida então não temos um número muito grande de escaladores de elite, apesar de que alguns de nossos escaladores “de elite” lá fora seriam considerados medianos. E também, ego inflado existe em qualquer lugar.

Nesta temporada aqui no Peru por exemplo, tive a oportunidade de conversar por um tempinho com Ueli Steck e de passar uma tarde escalando boulder com o Rolando Garibotti e Bruno Sourzac.

Ano passado também conheci alguns nomes importantes da Espanha.

Nenhum deles me olhou torto ou deixou de falar ou conversar comigo e meus amigos por não estarmos no nível deles.

Infelizmente eu e alguns amigos já passamos por situações bem chatas relacionadas a isso, com escaladores que não são 10% do que esses caras são.

Mas noto que quanto mais os escaladores olham para fora e pesquisam para saber o que está acontecendo no mundo, mais pé no chão eles são.

No final das contas acho que a paranoia com grau apesar de latente e bem visível, se limita a poucas pessoas e grupos.

Quanto mais conheço outros picos de escalada em rocha no Brasil, mais gente bacana e simples (e muito forte também) me fazem acreditar mais nessa teoria.

Pessoalmente minha preocupação com grau, é para saber que via eu não posso escalar, de resto sempre tento me divertir e não sofrer demais na via.

Foto: Beto Pinto

Foto: Beto Pinto

O Universo da escalada possui uma quantidade de homens muito maior que de mulheres. Você acredita que na escalada há machismo? Porque?

Acho que existe sim, não necessariamente pela quantidade de homens mas pelo fato de que o Brasil tem uma cultura machista, e isso consequentemente é carregado para dentro da escalada.

Nosso machismo não é escancarado, ele é bem sutil, e muitas vezes os escaladores tem atitudes que para eles não são machistas mas para nós são.

Já vi até atitudes machistas partindo de outras escaladoras, o que é muito triste.

Infelizmente já vi alguns casos, e até já passou comigo, de perder a motivação de escalar em algum lugar ou com algumas pessoas pelo clima geral gerado por comentários e atitudes desse tipo, e talvez seja esse o maior problema, porque tenho certeza que acontece com outras escaladoras.

Por outro lado como já pude escalar com pessoas de outros países, já vivenciei cenários de extremo respeito e camaradagem com escaladoras, independentemente de nível ou experiência, e acredito que talvez um dia podemos chegar perto disso.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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