Entrevista com Branca Franco

A comunidade de escaladoras do Brasil vive uma fase exuberante na qual  aparecem a cada dia novas mulheres fazendo história. A escaladora mineira Branca Franco é uma destas escaladoras extraordinárias e que prefere adotar um perfil low profile, ou seja, sem chamar a atenção sobre seus feitos.

A forte escaladora mineira no ano passado colocou seu nome na história do montanhismo brasileiro ao tornar-se a primeira mulher brasileira a conquistar o cume de uma das montanhas mais desejadas, e respeitadas, por qualquer escalador : Fitz Roy. O Monte Fitz Roy (3.405 m) é localizado na fronteira do Chile com a Argentina na região da Patagônia. A cidade de El Chaltén é o melhor ponto para começar os trekkings e escaladas.

Foto : Waldemar Niclevicz

Acompanhada de Waldemar Niclevicz e do curitibano Eduardo Maza, conhecido como “Formiga”, Branca Fraco encarou uma das mais difíceis escaladas do mundo. No Fitz Roy a escalada mescla técnica em gelo e rocha, sendo uma das mais difíceis da Patagônia.

Branca Franco recentemente protagonizou um vídeo sobre escaladas na Serra do Cipó que encantou toda a comunidade da América do Sul e rapidamente tornou-se um clássico. A redação entrou em contato com Branca e procuramos saber mais da mineira que entrou para a história da escalada brasileira.

Branca, você foi a primeira brasileira a escalar o Fitz Roy. Como foi esta conquista ?

A escalada no Fitz Roy aconteceu por acaso. Eu estava morando no Equador a cinco meses e me programei para voltar à Patagônia em Janeiro de 2016. A ideia era escalar a Guillaume com uma amiga equatoriana. Então começamos um treinamento em Quito com um personal de escalada que nos dava corrida, escalada e outras atividades complementares para cardio.

Acontece que no dia 31 de Dezembro de 2015 minha parceira sofreu um acidente escalando boulder e teve um torção muito forte no pé. Ou seja, já não tinha mais companhia e nosso voo estava marcado para o dia 10 de Janeiro. Foi uma corrida contra o tempo para ela tentar se reabilitar e ir. Ela foi, mas não tinha a menor condição de realizar a caminhada e a escalada em si. Fiquei preocupada e triste porque para mim era importante escalar esta agulha com uma mulher amiga.

Foto : Waldemar Niclevicz

Chegando a Chaltén comecei a buscar informações sobre pessoas que queriam escalar a Guillaume. Me encontrei com um brasileiro que topou a subida. Por vários motivos, que não cabem ser citados aqui, a escalada furou. Me lembro de voltar para a minha barraca super desmotivada, pensando que talvez eu não fosse merecedora de subir aquela montanha. Alguns dias se passaram e de repente, voltando do supermercado, me encontro com o Eduardo Maza, conhecido como Formiga.

Ele já era amigo antigo e sabia das conquistas dele como escalador e alpinista. O Formiga então me convidou para subir o Fitz. Na hora eu comecei a rir e disse que ele estava ousando demais no convite. Mas que toparia primeiro uma escalada menos comprometida, para nos conhecermos melhor como dupla de escalada, e que se tudo desse certo eu toparia o Fitz. Ficou combinado que iríamos à Mermoz primeiro. Igual, a Mermoz é dura e exigente também. Dois dias depois ele aparece no lugar onde eu estava morando e me diz: “Aqui, o Waldemar Niclevicz entrou para a cordada.

Foto : Waldemar Niclevicz

Mudança de planos. Vamos ao Fitz e vamos escalar a Californiana”. Na hora eu pirei, não tinha a menor noção de como escalar gelo e a Californiana é uma via mista, com passadas em até 85°. Eu sabia que iria ser um desafio, mas dentro de mim algo me dizia para ir, para não me amedrontar. Dois dias depois estávamos eu, Formiga e Waldemar traçando os planos de subida. O Waldemar muito preocupado com a minha inexperiência, claro. Eu mega preocupada, mas me lembro de em um determinado momento dizer para ele que se dependesse de mim eles não teriam que descer.

Que se o objetivo era o cume, era o cume que nos esperava! Não sei de onde tirava isso, mas era uma mescla de inocência de uma escaladora em gelo inexperiente e a certeza que sempre tenho dentro do meu coração de que tudo vai dar certo na minha vida. Dois dias se passaram para a chegada da ventana. Saímos no dia 29 de Janeiro de Chaltén rumo a Laguna de Los Tres, onde bivaquearíamos para sair de madrugada. À meia noite o despertador do Waldemar tocou. Eu não tinha dormido nada porque estava muito ansiosa e meu coração batia a mil. Parece que eu ia tomando consciência do que íamos fazer durante o processo, entende? Tomamos um chá bem quente e comemos um pouco. Às três da manhã estávamos no Passo Superior.

Duas horas depois cruzamos a rimaya para seguir pela Brecha de Los Italianos. Foram 250 metros de escalada em gelo com inclinação perto dos 70°, tudo isso em ensable ou a francesa (quando todos escalam ao mesmo tempo). Às 7h10 estávamos no topo da Brecha. Nosso tempo estava muito bom e ficamos bem confiantes. Paramos para derreter gelo e isso nos custou umas duas horas para enche três litros de água. Seguimos em escalada descendente em horizontal rumo à Californiana. Essa segunda parte foi muito mais dura para mim.

Era bem inclinada e o Waldemar teve que colocar uma proteção pela primeira vez, alívio! Às 10h30 estávamos na base da Californiana. Um frio absurdo que eu não conseguia sentir nem os pés e nem as mãos. Eu escalava sem ter noção do quanto de força teria que fazer, não sentia as fissuras, nada. Mas me sentia mais confiante uma vez que era meu terreno, a rocha e a escalada em trad.

Foto : Waldemar Niclevicz

No fim daquele dia conseguimos escalar as dez cordadas da via. No entanto, para se chegar ao cume, você deve fazer um rapel para pegar a Supercanaleta para então continuar escalando. Com os últimos raios de luz chegamos a um platô minúsculo após fazer o rapel e escalar uns 60 metros da Supercanaleta. Aí dormimos os três, mortos de cansaço e de frio. Me lembro de ter dormido sentada e sentia que meu pé estava completamente congelado mas não queria olhar. Não ia adiantar nada, depois eu tomava as medidas cabíveis quando voltasse à cidade.

No dia seguinte despertamos cedo e retomamos a escalada. Estávamos muito motivados porque o cume estava bem próximo. Às 12h30 do dia 31 de Janeiro de 2016 nós três estávamos no ponto mais alto do Fitz Roy. Foi emocionante, principalmente porque aquela ascensão foi dedica à Roberta Nunes que já havia tentado o cume algumas vezes.

A Roberta é para mim a maior escaladora que o Brasil já teve. Ser escolhida pelo Formiga como mulher para representá-la nesta conquista foi uma honra para mim. De toda essa experiência ficam os aprendizados da montanha, a gratidão aos meus companheiros e a certeza dentro do peito de que o título de ser a primeira brasileira a chegar no cume do Fitz não é tão importante quanto esse sentimento que me acompanha todos os dias de ser uma pessoa abençoada! A montanha se abriu para mim, ela me escolheu!

No Brasil existem poucas mulheres que se aventuram na modalidade. Você saberia o motivo ?

Sinceramente, não sei quantas mulheres hoje no Brasil escalam alpina. Mesmo porque esta modalidade não é a minha preferida. Como disse, a primeira vez que escalei gelo na minha vida foi no Fitz, eu nunca havia colocado um piolet nas mãos antes. Pode ser que um dos motivos pelos quais não temos muitas brasileiras escalando montanhas é a própria falta de montanhas em nosso país. Isso dificulta um pouco.

Foto : Waldemar Niclevicz

O deslocamento é maior, os investimentos em transporte também, os gastos são mais altos e temos menos oportunidade de estar em contato com este tipo de modalidade. O que percebi com minha experiência no Fitz é que para escalar alpina você tem que ser muito resistente.

Nossa expedição durou 56 horas, das quais somente oito estivemos parados no platô. As caminhadas são longas e difíceis, a escalada exige muita concentração porque é altamente perigosa. Os riscos são muitos e iminentes, os rapéis podem ser perigosos e te levarem a outro lado, completamente diferente do que você quer ir. Se acontecer algum acidente você está em um lugar remoto, no meio do nada.

Você come mal, se desidrata e pode perder membros congelados. Meus dois dedões do pé se congelaram, perdi as unhas, senti dores…

Levando tudo isso em consideração, creio que poucos seriam os escaladores brasileiros dispostos a subir uma montanha, não só as mulheres. Não é uma questão de gênero, para mim é mais da ordem da alma.

O treinamento de uma pessoa que faz escalada alpina é muito diferente ? Por que?

Eu nunca treinei alpina.

Não tenho ideia de como seria o treinamento de um escalador desta modalidade

Foto : Waldemar Niclevicz

Varias pessoas que moram no exterior reclamam que o montanhista brasileiro não compartilha conhecimento. Qual a sua opinião a respeito desta afirmação ?

Tampouco sei sobre esta afirmação de que os montanhistas brasileiros não compartilham conhecimento. Mas acredito que isso não aconteça só no Brasil. O conhecimento é poder e o poder está ligado ao Ego.

Sendo todos nós humanos, não me admira que as pessoas não queiram passar informações umas às outras. Isso é triste na verdade. Conhecimento é para ser livre, compartilhando.

Com a escalada participando das olimpíadas de 2020 no Japão todos esperam uma popularização do esporte. Qual a sua opinião a respeito disso?

Vejo de forma muito positiva o fato de a escalada ter sido inserida nas olimpíadas. Isso vai ajudar a difundir o nosso esporte. As pessoas vão parar de pensar que escalada é rapel, que fazemos “escalagem”.

Talvez vamos conseguir passar mais informações para as pessoas. Os investimentos também vão aumentar, tanto em atletas como em marcas de produtos, campeonatos e patrocínios.

Foto : Waldemar Niclevicz

O ano está começando e muito provavelmente você possui algum projeto para ele. Quais são seus projetos para 2017 ?

Em Agosto de 2016 estive no Peru com mais três escaladoras equatorianas e tentamos chegar ao cume da Esfinge, o maior Bing Wall do país. Não conseguimos. Apesar de eu já ter alcançado o cume desta montanha em 2014, era significativo para mim voltar com mulheres.

Então, em 2017 eu vou voltar ao Peru para fazer um curso de resgate em gelo e depois tentar novamente a Esfinge com uma mulher.

Depois da temporada no Peru vou para a Europa escalar. Um dos meus sonhos é escalar as paredes de Montserrat na Espanha e as Dolomitas na Itália.

Foto : Waldemar Niclevicz

Para quem deseja começar a fazer escalada alpina, quais seriam seus conselhos para esta pessoa ?

Luciano, não me sinto apta a responder esta pergunta uma vez que não sou experiente o suficiente para dar conselhos.

Sou aprendiz, creio que para sempre.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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