Entrevista com Arno Ilgner

O americano Arno Ilgner é sem dúvida nenhuma a maior referência em treinamento mental para escaladores e seu best sellerO Caminho do Guerreiro da Rocha” inspira atletas de todo o mundo desde o seu lançamento.

Indiscutivelmente sempre tivemos o desejo de entrevistar uma pessoa tão especial que, entre outras coisas, vive do esporte e ao mesmo tempo inspira pessoas.

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Foto: Elodie Saracco

Muito disso que a Revista Blog de Escalada publica seus textos com exclusividade no Brasil, além de contém ao fim de cada artigo o link para a versão de seu livro em português.

Se você leitor sempre quis saber mais sobre Arno Ilgner leia com atenção a entrevista e se inspire.

Arno seu livro e seu treinamento mental para escaladores é bastante famoso. Como surgiu a ideia de escrever sobre o assunto?

Eu tinha 40 anos de idade, trabalhando em um emprego que eu não gostava.

Eu sabia que eu amava escalar, então eu identifiquei o que eu mais gostava na escalada.

Era entender mais sobre o medo. Isso iniciou minha jornada para estudar sobre o medo e ajudar escaladores.

Tenho 60 anos agora, portanto eu tenho feito isso por 20 anos.

Você constantemente realiza cursos com escaladores. Como é a estrutura do curso?

O ponto principal do método de treinamento mental do Caminho do Guerreiro é focar nossa atenção no momento da tarefa. Portanto, todos os exercícios que fazemos devem reforçar esse ponto.

Nós quebramos a escalada em 2 componentes: parar e mover. Em pontos de parada temos 3 tarefas para focar: tarefa de descansar, tarefa de pensar para coletar informação, e tarefa de pensar para tomar uma decisão.

Depois existem 2 tarefas para escalar entre os pontos de parada: tarefa de se mover e tarefa de cair. Temos exercícios para ajudar os escaladores a focar sua atenção em parar e descansar com tarefas de pensar, ou colocar sua atenção em se mover entre os pontos de parada.

Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

Pensar com a mente e fazer com o corpo são duas formas bem diferentes de usar nossa atenção. Portanto, nós enfatizamos o comprometimento da nossa atenção com uma ou outra tarefa, mas nunca misturamos ambas.

Nos cursos, nós começamos com prática de quedas, depois fazemos movimentos de escalada para desenvolver nossa confiança no corpo, depois entramos na parte do pensamento efetivo e tomada de decisões, e finalmente aplicamos tudo em uma via desafiadora.

O ponto principal do curso, no entanto, é que os alunos entendam a importância de uma abordagem lenta e incremental para o aprendizado. Eles precisam mudar a sua motivação por metas e progresso rápido para estarem motivados por processos (realizar bem as 5 tarefas listadas acima) e realizar um progresso lento.

O aprendizado não acontece rapidamente; é um processo lento e contínuo.

Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

Você acredita que o treinamento mental é tão importante quanto o físico para um escalador?

Não, eu não acho que o treinamento mental é tão importante quanto o treinamento físico.

Eu acho que ele é mais importante.

Eu já observei escaladores que eram muito fortes fisicamente, mas não eram fortes mentalmente, e que não conseguiam aplicar sua força física.

Portanto, ambos os treinamentos (físico e mental) são importantes, mas o treinamento mental é mais importante. Acreditando que realizar uma escalada é possível, podemos aplicar nossa força física.

Frequentemente é citado por você ensinamentos baseados em cultura oriental. Porque ela te inspira tanto?

Eu também uso citações da filosofia ocidental, mas algumas disciplinas orientais são mais equilibradas em sua abordagem à vida. Isso é importante para o treinamento mental.

Aqui há um exemplo: No ocidente, pensamento positivo é enfatizado como ima técnica importante de treinamento mental. Eles enfatizam que você não deveria pensar de forma negativa; você deve pensar positivo.

Isto é útil até um ponto, porque o pensamento positivo te ajuda a focar nas possibilidades. Porém, a vida requer um equilíbrio e nosso treinamento mental não está divorciado da vida; precisamos alinhá-lo com a vida. Pensar positivamente eventualmente deve mudar para pensar negativo.

Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

E, o pensamento positivo pode fazer com que você corra riscos que não são apropriados, riscos que estão muito além do seu nível de experiência. O Budismo, especificamente o Zen, enfatiza o caminho do meio. Esteja no centro para estar em equilíbrio.

Você pode ver os dois lados, o que significa que você vê a realidade pelo que ela é, não pelo que você deseja que ela seja. Portanto, você opera de uma perspectiva neutra, não negativa nem positiva. Isto é essencial para correr riscos apropriados. É realmente uma questão de motivação.

As disciplinas ocidentais enfatizam a meta final; as disciplinas Orientais tendem a enfatizar o processo. E aqui está um ponto prático de porque isto é importante: as metas estão no futuro; os processos estão no momento presente.

Não podemos controlar o futuro; podemos apenas controlar o que ocorre no momento presente.

Portanto, todo o treinamento do Caminho do Guerreiro enfatiza os processos. Para ser poderoso mentalmente, devemos focar nossa atenção no momento presente.

Os processos nos ajudam a fazer isso.

Como você visualiza a nova geração de escaladores que está surgindo?

De algumas formas eles são iguais às gerações passadas. Cada geração se constrói no que as gerações passadas criaram. Porém, esta nova geração tem mais estrutura, treinadores e informação sobre como treinar.

A escalada está alcançando os outros esportes em relação aos métodos de treinamento. De fato, eu acredito que a forma que as pessoas treinam na escalada vai ultrapassar os outros esportes.

Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

Eu acho que é por causa da natureza da escalada. Ela é muito variável. É bem diferente do que bater em uma bola para passa-la por cima de uma rede como os tenistas fazem. E a escalada é uma ótima metáfora para a vida.

Ela vai contra a gravidade diferente de outros esportes como caiaque ou esqui. Ir contra a gravidade requer que sejamos mais intencionais em como escolhemos focar nossa atenção.

Você acredita que o psicológico de um boulderista e de um escalador esportivo é diferente? Por que?

Sim. Com a escalada com corda, como esportiva e tradicional, é muito isolado. Você está sozinho na rocha, longe dos outros e de quem está fazendo sua segurança. No Boulder você está próximo de muitas pessoas.

Existe mais interação social, o que significa que existem mais chances para nossos egos se expressarem. O melhor boulderista do grupo vai tender a fazer apenas o suficiente para permanecer sendo o melhor e não se desafiar a si mesmo plenamente.

Gabriel Veloso e Arno Ilgner | Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

Gabriel Veloso e Arno Ilgner | Foto: Acervo Pessoal Arno Ilgner

O boulderista mais fraco pode fazer mais esforço ou desistir porque ele percebeu que não é tão habilidoso como os outros no grupo. Sempre que há um grupo de pessoas escalando juntos, uma hierarquia de importância se desenvolve.

Alguns são considerados mais importantes e outros menos. Isto é normalmente baseado na habilidade de escalada. Isto, é claro, acontece em um nível inconsciente, mas distrai a atenção. Uma das principais ênfases no treinamento do Caminho do Guerreiro é desenvolver uma consciência de si, para não cair em tais armadilhas.

Estas armadilhas distraem a atenção do momento, o que é, como mencionei antes, o principal ponto para ser poderoso mentalmente.

Agradecimentos a Gabriel Veloso que traduziu a entrevista

Argentina de nascimento e brasileira de coração, é apaixonada pela Patagônia e Serra da Mantiqueira.
Entusiasta de escalada, trekking e camping.
Tem como formação e profissão designer de produto e desenvolve produtos para esportes de natureza.

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