Entrevista com Angela Cristina Vargas Calle

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Foto: Alan Muller

No filme argentino “O segredo dos Seus Olhos”, em uma dos diálogos dos personagens um deles afirma que pode-se mudar de tudo : endereço, nome, família, cabelo e até mesmo de sexo, mas somente uma coisa não pode se consegue mudar : A paixão.

Por mais que um escalador queira mudar algo em sua vida, seguramente a sua paixão nunca será deixada para trás.

O mesmo diálogo realizado de maneira soberba pelo ator Guillermo Francella encaixaria perfeitamente com a colombiana radicada no Rio de Janeiro Angela Cristina Vargas Calle.

Angela é figura constante nos principais lugares de escalada esportiva da cidade do Rio de Janeiro, e ganhando notoriedade pela sua técnica e por uma paixão pela escalada sem igual.

Também apaixonada por competições de escalada, vem se descantando na modalidade inclusiva já subindo ao pódio do Campeonato Brasileiro de Boulder CMBE de 2014.

Angela é ainda das poucas atletas competidoras no Brasil a aliar o treinamento para campeonatos utilizando também escalada em rocha, prática comum na Europa.

Angela, você subiu ao pódio no campeonato brasileiro de boulder de 2014. Como foi a sua preparação para esta conquista?

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Foto: Pedro Gallardo

Eu venho me preparando fisicamente já alguns anos, no entanto tenho passado por varias lesões que tinham me impedido de competir nos campeonatos de 2012.

Como em 2013 não houve campeonato brasileiro, só participei dos estaduais.

Ano passado, entrei para a equipe limite vertical, e os meus treinos foram então intensificados.

Graças ao apoio agora tenho treinos funcionais dirigidos pelo profissional de educação física Matteo Mafizoli uma vez por semana e posso fazer uso das instalações do muro de escalada quando eu preciso.

Fui ao campeonato deste ano bem preparada e esperando dar o melhor de mim e foi o que fiz.

No entanto fiquei surpresa de que tivessem poucas competidoras inscritas neste campeonato (só tinha 6).

Não estou diminuindo a conquista porque as competidoras que tinham eram bem fortes, mas sim acho que a participação das mulheres foi bem pouca.

As competições de escalada no Brasil estão vivendo um impasse com duas associações organizando competições distintas. Você como atleta como visualiza esta realidade?

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Foto: Matt Halls

Como atleta acho muito complicado o fato de estarem se organizando competições por entidades diferentes, isto por vários motivos, o primeiro é econômico, já que a participação em dois eventos organizados por entidades diferentes significa também o pagamento de filiação a ambas entidades e o pagamento da inscrição em todas as etapas, custos que na maioria eu teria que assumir, já que possuo apoio total só nos campeonatos estaduais.

O segundo motivo, é que fica confuso o titulo, quero dizer, vão passar a existir dois campeões brasileiros em cada categoria?

Qual o objetivo do campeonato?.

Independente de quem organize, como está a sua preparação para  futuras etapas de campeonatos?

Minha preparação para os campeonatos é independente de quem organize o evento, até porque na realidade eu me preparo es para escalar na rocha que é o que eu mais gosto.

Acredito que com o preparo que tenho feito dentro da equipe limite vertical, tenho melhorado bastante, ainda assim sei que preciso melhorar cada vez mais.

Não é segredo para ninguém que há muitas pessoas que medem o valor do escalador pelo grau escalado. O que você pensa deste tipo de pensamento?

Foto: Alain Denis

Foto: Alain Denis

Acho este pensamento muito errado, uma pessoa não vale pelo que escala mas pelo que ela é.

Já conheci muito escalador por ai que é forte mas que não consegue ter o mínimo de ética com a rocha e o meio ambiente ou que se acham mais que os outros porque são mais fortes.

A copa do mundo acabou recentemente no Brasil e levantou-se a teoria de que o futebol sufoca os outros esportes. Você concorda com esta afirmativa?

Sim, super concordo.

O futebol tem chegado ao ponto no qual é visto quase como religião; isto faz com que os recursos que deveriam ser investidos pelo governo nos diferente esportes seja dirigido só no futebol.

Brasil está prestes a receber um dos maiores eventos de esporte existente no mundo (as olimpíadas), mas não tem investido dinheiro nos outros esportes.

Muitos atletas bons de esportes diferentes ao futebol são esquecidos e só são lembrados quando estes ganham um título, e nem assim eles conseguem o reconhecimento que merecem.

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Foto: Stephen Alvares

Muitos escaladores e mídias não especializadas focam muito a atenção em atletas estrangeiros. Na sua opinião porque você acha que acontece este interesse?

Foto: Acervo Pessoal Angela Cristina Vargas Calle

Foto: Acervo Pessoal Angela Cristina Vargas Calle

Acredito que é devido ao fato de que estes atletas vem de países onde o investimento na escalada é bastante alto; isto faz com que os atletas tenham maior reconhecimento e melhores patrocínios.

Residir na cidade do Rio de Janeiro é uma vantagem para qualquer escalador? Porque?

Bom, Rio de Janeiro é uma cidade que tem muitos locais para escalar e todo dentro da mesma cidade, o que realmente facilita muito o contato com a rocha.

No entanto, o Rio de Janeiro tem poucas vias de grau intermediário o que dificulta que novos escaladores aumentem de nível e tem também o fato de ter poucos tipos de rocha, por isto eu acho bom viajar para conhecer locais novos com vias variadas e diferentes tipos de rocha.

Das escaladoras existentes quais são, e porque, a sua maior fonte de inspiração ?

Lin Hill e Lisa Rands sempre foram uma grande inspiração para mim.

No entanto também tenho a sorte de conhecer várias escaladoras que são minhas amigas e das quais sempre aprendo um pouco, cada uma de elas tem coisas admiráveis.

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Foto: Javier Vargas

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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