Entrevista com Angel Palacio

Desde que a escalada esportiva tornou-se esporte olímpico, ao menos nos jogos de Tóquio 2020, várias pessoas se destacaram na análise e comentários. Cobrindo detalhes que passaram despercebidos do público, trazendo uma análise de técnica e performance, o espanhol Angel Palacio é um dos expoentes. Assim como os comentaristas especializados em futebol selecionam lances e detalhes, após a rodada do final de semana, Palacio faz o mesmo para a escalada esportiva.

Ao lado do “monstro” de análise de escalada Udo Neumann (talvez o melhor analista de movimentação de escalada esportiva de todos os tempos), Angel Palacio é um verdadeiro exemplo de elegância, diplomacia, inteligência e honestidade com relação à análise da escalada esportiva.

Angel Palacio

Tomada durante a Copa do Mundo de Vail em 2015 | Foto: Udo Neumann

Sem sombra de dúvida Angel Palacio é uma das referências em cobertura da escalada esportiva e uma das mais relevantes vozes quando se trata de escalada nas Olimpíadas.

Para saber um pouco mais do que pensa, a Revista Blog de Escalada procurou o espanhol para uma conversa franca, amigável e reveladora. Na entrevista Palacio descreve o mesmo problema que acontece no Brasil, da mídia não especializada fazer as mesmas entrevistas, com as mesmas pessoas.


Angel, quando foi que começou a se dedicar a se especializar em competições de boulder?

Acredito que em 2012, quando fundei o OnBouldering.com.

Mas não tinha nenhum planejamento concreto, simplesmente gostava muito de ver as competições internacionais. Já tinha ido em várias na Europa, mas não estava contente com a maneira como era coberto pelos meios de comunicação. Assim decidi tentar fazer por mim mesmo, sem saber muito bem como.

Comecei improvisando e, pouco a pouco, fui aprendendo a fazer um pouco melhor. E deste então…

Angel Palacio

Tomada durante a Copa do Mundo de Munich em 2015 | Foto: Bram Berkien

Muitos falam que a comunidade de escaladores é pequena. Você concorda com esta afirmação?

Sim, é bastante pequena, mas não para de crescer. Suponho que nos próximos anos crescerá ainda mais, graças às Olimpíadas. Mas segue sendo uma comunidade bastante pequena.

Todo mundo se conhece e existe um verdadeiro sentimento de comunidade. Esta é a parte positiva.

A parte negativa é que existe meios bastante limitados para organizar eventos e ajudar os escaladores serem atletas profissionais.

Qual a sua opinião a respeito do formato de classificação para as Olimpíadas?

Na verdade eu não tive tempo para estudar bem o formato. Do que já li, me parece complicado e ainda não pude formar uma opinião clara. O maior problema que vejo é a limitação de quatro escaladores (2 homens e 2 mulheres) por país.

Entendo que queiram que muitos países estejam representados, mas o risco é não garantir que vá os melhores.

Por exemplo, o Japão agora mesmo possui 5 escaladores masculinos ente os top 10 de boulder, mas somente dois poderão ir para as olimpíadas.

Angel Palacio

Tomada durante a Copa do Mundo de Toronto em 2014 | Foto: Eddie Fowke

E o formato olímpico (speed + lead + boulder)? O que você acha?

Não gosto, e acredito que quase ninguém gosta. Mas vejo como um mal necessário. Ao IFSC, não ficou outra opção que aceitar este sistema, para não ficar fora das Olimpíadas. Espero que com o tempo, possam mudá-lo.

Vendo de forma positiva, é interessante ver aos escaladores competindo em disciplinas que normalmente não são suas. Na temporada passada vimos a Shauna Coxsey e Jan Hojer emvias guiadas (lead). Acredito que cada vez mais será mais comum ver os escaladores (as) competindo em todas as disciplinas.

Mas pessoalmente, preferiria ver os melhores especialistas oferecendo a sua melhor versão nas Olimpíadas. Com o sistema existente não iremos ver isso.

Angel Palacio

Tomada durante a Copa do Mundo de Chongqing em 2014 | Foto: Eddie Fowke

Neste ano vamos ter o formato testado em Buenos Aires. Você pretende ir até lá para assistir tudo?

Eu adoraria, mas não é possível. Não tenho o financiamento para esta viagem e não posso paga-lo de meu bolso.

Na América do Sul existem muitos escaladores (as) que acreditam que podem estar nos Jogos Olímpicos. Como visualiza os escaladores da América do Sul nas competições do IFSC?

Eu vejo…pouco. Lamentavelmente a Copa do Mundo são sempre realizados nos mesmos lugares, muitas destas competições na Europa. Algumas duas na China e uma nos EUA… América do Sul não faz parte do circuito e, logicamente, para os escaladores sul-americanos viajar para Europa para competir é muito caro.

E, suponho, as federações não possuem recursos para competir de igual com países como Alemanha, França ou Japão. Assim, aos países sul-americanos, não fica outra opção que depender de algum talento que possa surgir. Não há programas para “criar” escaladores de alto nível como na Europa Central.

Angel Palacio

Tomada durante a Copa do Mundo de Meiringen em 2017 | Foto: Sytse Van Slooten

A mídia da Europa está mais interessada na escalada, agora que é um esporte olímpico?

Sem dúvida, agora que a escalada tem a etiqueta de “esporte olímpico”, recebe mais atenção dos meios não especializados. Isso, sem dúvida, ajudará a muitos escaladores a conseguir patrocínio.

Por outro lado, a cobertura está bastante superficial, com sempre as mesmas entrevistas com as mesmas pessoas. Acredito que ainda há muito espaço para pessoas que queira oferecer conteúdo mais profundo.

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha, Argentina e Chile. Foi jurado do Rio Mountain Festival e já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Chile, Espanha, Uruguai, Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá. Realizou o Caminho de Santiago, percorrendo seus 777 km em 28 dias.

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