Entrevista com Adriano Kienen

Foto: André Kienen

Foto: André Kienen

Em cada canto do Brasil há uma geração de novos escaladores que estão elevando o nível do esporte cada vez mais.

Uma geração que possui um potencial e determinação quase que infinitos.

Fazendo parte desta nova geração o catarinense Adriano Kienen.

Com determinação singular, e marcas impressionantes, Kienen vem se destacando como referência no estado de Santa Catarina.

Para saber mais quem é Adriano a Revista Blog de Escalada procurou o escalador para uma entrevista.

Leia abaixo tudo o que foi respondido em uma das entrevistas mais simpáticas que tivemos a oportunidade de receber

Adriano, como está a evolução da escalada esportiva no estado de Santa Catarina?

A escalada esportiva nos últimos anos vem numa constante evolução e no cenário catarinense o que mais está chamando atenção e se destacando é sem dúvida o setor Braço Esquerdo conhecido popularmente como Corupá, que proporcionando escalada de altíssima qualidade, fácil acesso, com vias bem atléticas e exigentes de diferentes graus.

Foto: Marcio Gualberto

Foto: Marcio Gualberto

Esse setor vem tendo uma forte movimentação não só de escaladores catarinense mais de outros estados vizinhos, e vem conquistando atletas que procuram a evolução no esporte.

É é uma escalada muito peculiar que lhe permite vias bem diluídas, uma movimentação na rocha mais solta com muita“remada”, com agarras de diferentes pegas como pinças, abaulados, copos, tridedos, monodedos.

O que geralmente dá à graduação as vias nesse setor não é só um crux, mas sim o seu conjunto do começo ao fim, que intercalam movimentações de bastante resistência com agarras boas, seguidos de descanso e crux.

Para os mais íntimos costuma-se dizer que Corupá acumula pontos para voar , pois sua incrível parede negativa permite quedas bem seguras e longas, é inevitável as quedas.

O setor permite com que os escaladores tenham oportunidade de conquistar seus primeiros 8º, 9º e 10º graus.

Esse último ano que passou foi uma constante evolução no estado onde vários escaladores conseguiram mandar vias de alto grau, pois até então não tinha um setor de escalada com tanta quantidade de via que lhe proporciona esse acesso às graduações.

Corupá veio para mostrar que é possível mandar vias difíceis, sem ser especificamente um boulder duríssimo para ter uma graduação alta, mas o seu estilo e o conjunto pode ser um fator determinante para tal.

Como você faz para realizar treinamentos de escalada já que não há grandes ginásios no seu estado?

Eu pessoalmente quase não treino, meu ginásio sempre foi à rocha, tenho um campus board e um finger em casa, e quando consigo chegar mais cedo em casa do trabalho, faço um treino, mas com uma frequência muito baixa e pouca disciplina.

Mas é essencial fazer algum treinamento para dar algum estimulo ao corpo, pois escalar só nos finais de semana chega certa fase que você não consegue mais evoluir, então a importância de um bom ginásio soma para focar nos treinamentos e melhor desempenho na rocha.

Até o momento quais foram os lugares que você considera os melhores que visitou e porque?

Foto: Dashmesh Photos

Foto: Dashmesh Photos

Por enquanto não fiz nenhuma viagem fora do Brasil, estou dando prioridade para conhecer nossos picos primeiro.

Aos poucos estou conhecendo o Brasil, e a cada lugar novo que vou conhecendo, vejo que tem muitos setores de qualidade e é sempre um aprendizado escalar em lugares diferentes.

Na minha opinião muitos estados brasileiros tem um setor que vale a pena conferir.

Não da para nomear o melhor por tais qualidades, todos tem sua peculiaridade ou algo que se destaca, mas sem dúvida o que mais me chamou atenção tanto por quantidade de via e qualidade, até pela comunidade ativa de escaladores num só lugar, Serra do Cipó está no topo dessa pirâmide no Brasil de escalada esportiva.

No ano de 2013 não houve campeonatos de escalada. Na sua opinião quais foram os motivos que levaram a escalada de competição definhar?

Praticamente não acompanho os campeonatos de escalada, mas no Brasil acho que poucas pessoas realmente têm interesse de investir em nossos atletas.

Na própria comunidade de escalada tem casos que não querem que o esporte evolua, tenha mais adeptos, por acreditar que os setores de escalada sofram algum impacto ou por seu egocentrismo, só escalam por função de si, não estão preocupados com o desenvolvimento do esporte.

E também por uma questão cultural, enquanto só o futebol for o foco das atenções não só a escalada mas outros esportes ficam muito comprometido, demoram para evoluir, enfraquecido pelo sistema, poucas empresas querem investir em algo que não vai dar tanto lucro, não apostam em algo novo.

Constantemente aparecem notícias de áreas de escalada ameaçadas de fechamento. Qual a sua opinião a respeito deste perigo constante?

Por os setores de escalada estar inseridos geralmente em áreas particulares é comum que acha um conflito de ideias entre escaladores e proprietários.

Mas é fundamental que nós frequentadores estejamos sempre à frente de forma consciente para usufruir desse espaço da melhor forma possível, antes de tudo respeito, mostrar que a escalada vem para agregar valores, somar junto na preservação dessas áreas, escalada não é algo perigoso como eles pensam, é um esporte como os outros, não terão problema com isso.

Um exemplo a ser seguido aqui no Brasil é sem dúvida o Clube Montis, pude ver de perto o trabalho deles, o esforço de uma comunidade de escalador, criando projetos, mobilizados para que o setor de escalada não seja fechado, para que todos possam escalar nesse espaço livremente.

Foto: Renata Terzi

Foto: Renata Terzi

Como é a convivência de seus pais e família com a sua paixão com a escalada?

Foto: Marcio Gualberto

Foto: Marcio Gualberto

Na verdade eles nem conhecem a escalada, acham que é só um esporte como os outros, até pensam que eu não tenho muita ambição na vida, pois vivo com pouco, não procuro trocar de carro, melhorar a casa, emprego mais remunerado, trabalhar mais, enfim estar inserido nesse sistema do capitalismo, onde sinônimo de riqueza é o bem material.

Mas este ano quero levar meus pais para o setor de escalada para eles realmente entender o que é a escala, não é o simples ato de ir para o “mato” subir em uma rocha.

Mostrar essa conexão que existe dentro da escalada, com a natureza e outros seres, toda a interação que existe entre as pessoas, sentir essa energia tão positiva, por fim mostrar que subimos na vida de outra maneira e evoluímos muito como pessoas.

Para o ano de 2014 você já tem um projeto de escalada definido?

Os projetos são sempre muito motivantes para continuarmos escalando e buscando sempre mais, o que tenho mais vontade é de viajar nesse ano, criar mais bagagem dentro da escalada, conhecer novos repertórios de movimentações e estilos diferentes.

Para isso preciso viajar conhecer novos setores de escalada principalmente aqui no Brasil, tenho vontade de ir para o Rio de Janeiro e Bahia, mas nada definido.

Quem sabe para lugares mais longe como ir para o exterior escalar?

Mas um passo de cada vez, tudo no seu tempo certo.

Foto: Ângelo Daudt

Foto: Ângelo Daudt

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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