Entendendo arqueologia de alta montanha: Nevado Coropuna

O Nevado Coropuna é uma montanha gigante, não somente por sua grande altura (é a quarta maior montanha do Peru), mas pela imensa área que ocupa, com uma cadeia de cumes orientada no sentido leste-oeste de aproximadamente 20 km, com 12 km de largura. Possui seis cumes acima de 6 mil metros: cume principal (6.425 m), cume norte ou Coropuna Casulla (6.377 m), cume oeste ou Nevado Pallacocha (6.171 m), dois cumes a leste com 6.305 m e 6.234 m e dois cumes centrais com 6.150 m e 6.161 m.

Tal fato certamente não passou despercebido pelos incas e pelos povos originários da região sudoeste dos Andes peruanos, onde o Coropuna se localiza. O Coropuna era uma das montanhas mais sagradas do império inca e, segundo o cronista espanhol Cieza de León, em seu relato de 1553, perto da montanha existia um templo para a adoração dessa poderosa deidade, onde viviam sacerdotes e que constituía um importante centro de peregrinação. O templo do Coropuna seria, conforme narra Cieza de León, o quinto mais importante entre todos os templos incas, ficando atrás, somente, dos templos de Coricancha, Huanacauri, Vilcanota e Ancocagua.

Foto: Marcelo Delvaux

O Coropuna é um estratovulcão que faz parte da Cordilheira Ocidental dos Andes peruanos, sendo o ponto culminante dessa cordilheira. A primeira ascensão moderna a seu cume principal aconteceu em 1911 por Hiram Bingham, o explorador americano responsável pela (re) descoberta das ruínas de Machu Picchu. Os cumes da vertente leste da montanha haviam sido escalados um ano antes pela também americana Annie Peck, que já havia conquistado o Huascarán Norte (6.655 m), na Cordilheira Blanca.

Tão grande como o Coropuna é o mistério que o cerca: apesar das evidências de sua importância para os incas, não sobreviveram descrições do templo do Coropuna e o mesmo praticamente não é mais citado, depois de Cieza de León, pelos demais cronistas espanhóis. Uma das poucas menções ao Coropuna foi feita por Guaman Poma de Ayala, que comenta sobre o sacrifício de crianças de 12 anos e sobre o alto grau hierárquico dos sacerdotes que atendiam no templo. Aparentemente, no final do século XVI os detalhes do templo e sua localização já haviam praticamente se perdido.

Porém, o Coropuna continua venerado até os dias atuais. Hiram Bingham descreve que, em 1865, os moradores locais faziam oferendas nas encostas da montanha. E muitas lendas permanecem vivas nas crenças dos povos da região. O Coropuna e o vizinho Solimana (6.093 m) são considerados como associados à morte, ou ao lugar para onde vão as almas. “Coro” em quéchua significa cortar e “puna” diz respeito às terras altas do altiplano andino. Coropuna significaria algo como “a montanha com o cume truncado” e muitas dessas lendas tentam explicar isso.

Em 1965 foram descobertos dois fardos funerários e cerâmica incaica pelo agricultor de Salamanca Victor Huizcaina. Os corpos não apresentavam sinas de sacrifício humano, apesar de não se descartar tal possibilidade, por ter sido uma prática comum, como lembra Guamam Poma.

Foto: Marcelo Delvaux

Outra evidência da importância do Coropuna é sua menção pelo cronista Cristóbal de Albornoz como uma huaca principal ou lugar criador. Uma huaca era um lugar sagrado ou uma deidade natural. O mesmo Albornoz escreveu que os incas veneravam as montanhas que miravam o oceano por sobre as outras montanhas, porque dessas montanhas fluía água para o deserto, o que reforça a relevância do Coropuna por sua altitude extrema.

Uma tentativa de se encontrar o templo do Coropuna foi realizada em 1989 pelos arqueólogos José Antonio Chávez e Johan Reinhard. José Antonio Chávez havia visitado no ano anterior o sítio arqueológico de Achaymarca e levantou a possibilidade desse sítio, localizado a 4.030 m de altitude na base ocidental da montanha, ter sido o templo do Coropuna. Nas pesquisas realizadas em 1989 os arqueólogos descobriram um caminho inca no lado ocidental do Coropuna, partindo de Achaymarca até os 5500 m, onde desaparecia no glaciar da montanha.

Foto: Marcelo Delvaux

Também localizaram outro sítio chamado Ajocancha e outras ruínas no lado ocidental da Laguna Pallacocha (4.730 m). Conforme a conclusão dos arqueólogos, existe uma grande probabilidade de que Achaymarca seja o templo do Coropuna, pelas funções cerimoniais e características refinadas de suas construções e pela posição estratégica entre o Coropuna e o Solimana, com uma vista privilegiada dessas duas montanhas, diferentemente de outros sítios arqueológicos incaicos dessa região.

Pela imponência do Coropuna, por haver sido uma importante deidade para os incas e pelas crenças sobre a montanha que permanecem até os dias atuais, Antonio Beorchia o classifica como um possível santuário de alta montanha, apesar de que ainda não se descobriram vestígios conclusivos. As teorias de Johan Reinhard sobre os ritos de fertilidade e sua relação com os santuários de alta montanha também fornecem uma base sólida para tal hipótese.

Certamente muitos mistérios aguardam os arqueólogos e estudiosos, escondidos na imensidão da montanha!

Bibliografia

  • Albornoz, Cristobal de. Instruccion para descubrir todas las guacas del Piru y sus camayos y haziendas. [c. 1584].
  • American Alpine Journal. 2013.
  • Beorchia, Antonio. El enigma de los santuarios indigenas de alta montaña.
  • Bingham, Hiram. Inca land.
  • Cieza de Leon, Pedro de. El Senorio de los Incas: segunda parte de la Cronica del Peru. [1553].
  • Guaman Poma de Ayala, Felipe. Nueva coronica y buen gobierno. [1615].
  • Reinhard, Johan. Coropuna: lost mountain temple of the incas. 1999.

Guia profissional de montanha, com título de “Guía Superior de Montaña” obtido na EPGAMT. Guia de montanha associado à AAGM e à AAGPM. Guia de montanha credenciado no Parque Provincial Aconcagua. Sócio da empresa SummIT – Gestão de Projetos e Desenvolvimento Humano. Além de liderar expedições de escalada e trekking em alta montanha, trabalha com treinamento e consultoria nas áreas de gestão, liderança, motivação e inovação.
Pratica escalada em rocha desde a década de 1990 e alta montanha desde o início dos anos 2000, tendo realizado mais de 80 ascensões nos Andes e no Himalaia

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