Entenda como foi a evolução das lesões em praticantes de escalada esportiva

O principal argumento de alguém que não tem argumentos sólidos para falar mal de uma atividade, é dizer que ela é “muito lesionante“. Um argumento tão vazio quanto acusar alguém de não “rezar o suficiente” para conseguir algo desejado. Uma coisa é certa: todo esporte causa lesões em seus praticantes. O motivo é até simples de explicar, pois quanto mais perto de ser um atleta de alto rendimento, mais próximo está do limite físico do indivíduo.

A escalada esportiva, como qualquer outra atividade, há uma incidência recorrente de pessoas que se lesionam. Analisando friamente a origem das lesões, é fácil concluir que muitas são pela mais profunda imprudência dos atletas em não respeitar o próprio corpo. Há uma proliferação de “entendidos”, todos sem formação acadêmica ou científica (às vezes nem prática), que receitam “fórmulas mágicas” que conseguem burlar a natureza. Geralmente este tipo de pessoa tem como argumento de que profissionais e cientistas da área “não entendem nada”, alegando que ela mesmo sabe o caminho das pedras que ninguém, na história da humanidade (mesmo com muito estudo) não descobriu.

Foto : http://www.stack.com/

Como esporte, a escalada esportiva evoluiu muito nos últimos anos. Métodos de treinamento desenvolvidos por quem estuda a disciplina, proporcionaram a atletas de alto rendimento chegarem a níveis inimagináveis a pouco tempo atrás. Tanto o escalador em si, como o equipamento utilizado (tanto para treinamento, quanto para a escalada em si). Mas ao mesmo tempo que chega-se próximo do limite, muitas pessoas também lesionam.

Lesionar-se é comum em um esporte, pois o atleta está perto de seu limite físico. Basta verificar em qualquer esporte a incidência de lesões, para concluir que é uma realidade de esportes e não necessariamente de uma modalidade.

História

Segundo registros antigos, o alpinista Antoine De Ville, junto de outros sete companheiros, subiu a Mont Aiguille (2.087 m) em 1492 sendo um dos marcos do alpinismo mundial. Vários anos depois, mais precisamente em 1786, é considerada a primeira ascensão ao Mont Blanc por Jacques Balmat e Michel Paccard. Mas, historicamente falando, a escalada em rocha propriamente dita como conhecemos hoje, começou a ser praticada somente no início do século XX.

Mont Aiguille

Este tipo de modalidade se popularizou na Europa, sobretudo com a escalada da face norte do Matterhorn. Com a filosofia de conquistar o cume, o esporte começou a ganhar praticantes e evoluiu para as mais variadas vertentes. Por isso, assim como a sua prática, as lesões sofridas pelos seus praticantes evoluíram com o tempo. Desta maneira podemos afirmar que, junto de técnicas, modalidades e equipamentos, as lesões também evoluíram.

Se repararmos rapidamente no material e condições que os primeiros escaladores dispunham à época, entenderemos facilmente que os praticantes foram transformando-se com o tempo. Em outros esportes, o material é uma ferramenta importante como fundamental para a evolução, na escalada não poderia ser diferente. Por isso que, analisando um escalador nos anos 1960 não possuía as mesmas lesões que um escalador dos anos 1980. Da mesma maneira que escaladores dos anos 1990 utilizavam estilos e equipamentos diferentes, assim como treinamentos e técnicas de movimentos, diferentes dos de 2010.

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Lesões mais comuns

Algumas lesões de escaladores sempre se mantiveram como constantes, assim como a gravidade delas. Portanto, analisando lesões na escalada nos últimos anos, mais precisamente nos últimos 10 anos, facilmente se obtém resultados interessantes:

  • Mais de 80% das lesões e síndromes de sobrecarga acontecem na parte superior do corpo
    • Destes, 69% das lesões são decorrentes de síndromes de sobrecarga
    • Outros 29% eram lesões graves
  • Mais de 50% das lesões e síndromes de sobrecarga estão nas mãos
    • A síndrome de sobrecarga mais frequente em escaladores é a Tenossinovite (Inflamação da bainha do tendão onde o músculo se conecta ao osso) em todos os dedos
    • Destes, 8% necessitaram de cirurgia por causa de fraturas, lesão nos tendões ou síndromes de compressão nervosa
  • Oito de cada dez escaladores tiveram algum tipo de lesão nas costas
    • Destes, 85% destas lesões eram em músculos e outros 15% em estrutura articular
  • A lesão mais comum foi a ruptura de polias dos dedos da mão

Os dados são da Associação de Fisioterapia da Espanha (Asociación Española de Fisioterapeutas), em colaboração de Pablo Terrón, diretor de Fisioterapia da Universidad Francisco de Vitoria.

As regiões corporais mais afetadas são:

  • Costas: 2%
  • Ombro: 3%
  • Cotovelo: 6%
  • Mão: 19%
  • Joelho: 1%
  • : 3%

As lesões mais frequentes de escaladores foram:

  • Sobrecarga no ombro: 8%
  • Lesões no Joelho: 12%
  • Inflamação das membranas dos tendões: 22%
  • Inflamação das articulações dos dedos: 17%
  • Inflamação da musculatura do antebraço: 13%
  • Lesões de polia da mão: 13%
  • Síndrome de compressão nervosa: 7%
  • Fraturas: 7%
  • Esforço excessivo de tendões: 4%

Conclusões

Se pudermos estabelecer conclusões sobre estes números acima, com relação ao nível da escalada atual e a incidência clínica de lesões, é melhor compararmos com resultados de 10 anos atrás. Portanto, nestes números fica evidente que conceitos e técnicas de treinamento utilizadas nesta época podem não ser adequados aos dias de hoje.

Por isso, antes mesmo de aprofundar em números, vale lembrar que técnicos e fisioterapeutas que não se atualizaram ao longo deste tempo podem aumentar as lesões de atletas exponencialmente.

  • A escalada, que há cerca de pouco mais de 10 anos atrás, era coisa de poucos privilegiados e de amantes da natureza. Atualmente existem vários ginásios de escalada, facilitando o acesso a quem se interesse pela atividade. Por isso, maior número de pessoas praticando acarreta em maior número absoluto de lesões.
  • As lesões graves, decorrentes de quedas e fraturas, diminuíram com o tempo. Equipamentos de escalada estão mais desenvolvidos e mais seguros, assim como os conquistadores atuais se preocupam com a segurança muito mais que os pioneiros.
  • Com o aumento dos escaladores, aumentam também os “especialistas autodidatas”, que espalham técnicas de treinamento erradas e aumentam a incidência de lesões. Técnicos que não se reciclarem e atualizaram ao longo do tempo também colaboram para aumento de lesões e involução de seus treinados.
  • As lesões de joelho, tornozelo, tendões, etc, apresentadas nos dados acima, apontam um maior comprometimento atlético de praticantes de escalada em chegar ao limite. Pela discrepância de incidência, aponta falta de critério científico no treinamento, ocasionando assim as lesões nos mesmos lugares.

O conselho que fica para quem pretende escalar em alto rendimento, que procure um técnico atualizado e que abandone dicas de “autodidatas empíricos”. Acreditar que profissionais da área de saúde como Educação Física, Fisiologia Esportiva, Fisioterapia, atualizados com as novidades existentes no mundo é convidar-se a si mesmo a fazer parte das estatísticas de lesão.

Sobre o Autor

Luciano Fernandes

Luciano Fernandes

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

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