Entenda as Terminologias do que Envolve Correr por Montanhas

Corrida-de-Montanha

Quem vai à montanha sabe que muitas vezes somos taxados de loucos, inconsequentes e outros adjetivos que não refletem a realidade do que fazemos. Não é difícil observar que esses comentários se devem, em sua maior parte por não termos a chamada “cultura de montanha”, algo que europeus e norte americanos tem de sobra.

No entanto, o mesmo espanto que causamos nas pessoas ditas urbanas, o corredor de montanha também causa nos frequentadores que ainda não estão familiarizados com esta atividade.

Quando fazia minhas correrias solitárias nas trilhas de montanhas como o Pico Paraná, no começo dos anos 2000, era também taxado de maluco pelos próprios colegas de montanha. Ainda hoje ouço pérolas como “Correr para que? Bom é curtir a montanha devagarinho.”

Como se os corredores de montanha não desfrutassem à sua maneira…

Certamente há espaço para todos. Inclusive para quem busca e aprecia definições sobre as atividades que praticamos. O que para alguns pode ser “escalaminhada” para outros não passa de um trekking mais técnico.

Difícil, né?

Nas corridas em montanha também temos este cenário duvidoso e por vezes desnecessário.

Mas já que as definições foram criadas, vamos a elas!

Corrida de Montanha

As corridas em todo o mundo são geridas por um organismo internacional chamado IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo). E sim, elas tratam também das Corridas de Montanha, chamadas em inglês pela entidade de “Mountain Running”.

E, claro, a IAAF tem sua definição para mountain running (reparem, não é “trail running”), a saber:

Corridas de montanha são realizadas pelo campo e principalmente fora de rua e envolve um número considerável de subidas (principalmente para corridas somente em subidas) ou subidas/descidas (para corridas que começam que começam e terminam no mesmo nível).

Para ser efetivamente uma corrida de montanha, o percurso deve ter no máximo 20% de superfície macadamizada (estradas de terra, por exemplo) e deve respeitar os números da tabela abaixo quanto à relação desnível versus distância:

Fontes: site WMRA – World Mountain Running Association / site CBAt – Confederação Brasileira de Atletismo.

Fontes: site WMRA – World Mountain Running Association / site CBAt – Confederação Brasileira de Atletismo

Como a grande maioria dos órgãos regulamentadores, são apresentados números fixos, para colocar certa “ordem na casa”. Assim, temos os campeonatos mundiais, continentais e nacionais de cada categoria (adulto, juvenil, masculino e feminino).

Com estes números, não é preciso pesquisar a fundo e ver que muitas corridas de montanha no Brasil não seguem fielmente estas indicações propostas pelo órgão máximo do atletismo mundial no que se refere a desnível.

Assim, levando-se a ferro e fogo tais determinações, teríamos muito mais provas de “corrida em trilha” (trail running) do que “corrida de montanha” por aqui.

Mesmo assim, todos os anos a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt), supervisiona e valida um Campeonato Brasileiro de Corrida de Montanha, com as distâncias, percursos e altimetrias apropriadas e que funciona como seletiva para o Campeonato Sul Americano da modalidade.

Infelizmente, como na imensa maioria das outras modalidades esportivas, não conseguimos resultados muito bons em âmbito internacional…

 SKYRUNNING

Skyrunning

Por definição, Skyrunning é o tipo de competição de corrida de montanha onde se atinge ou ultrapassa os dois mil metros de altitude, que tenha inclinação além de 30% e que não exija escalada técnica acima do grau II (escala francesa). É uma modalidade regulada pela ISF – International Skyrunning Federation e compreende diversas disciplinas citando as três mais relevantes:

  • Sky Race: Corridas entre 20 e 30 km em altitudes entre 2 mil e 4 mil metros acima do nível do mar. Em países onde este tipo de relevo não esteja presente, corridas com 1.300 metros de desnível acumulado podem ser incluídas neste cenário.
  • Quilômetro Vertical : Competições com 1.000 metros de desnível positivo (tolerância de +/- 200m) em terreno natural (trilhas, etc) e cuja distância total não exceda cinco quilômetros.
  • Skymarathon: Provas entre 30 e 42 km (tolerância de 5%) com um mínimo de 2 mil metros de desnível positivo acumulado e menos de 15% do percurso  em asfalto.
  • Ultra Skymarathon : Corridas com mais de 50 km e mais de 2.500 metros de desnível positivo acumulado.

Nestas modalidades existem campeonatos nacionais nos seguintes países: Canada, Grécia, Rússia, Espanha, Itália, Reino Unido, África do Sul, EUA e França.

No Brasil, poucas provas poderiam se enquadrar nos padrões exigidos pela ISF.

A grande maioria dos eventos fora do asfalto em nosso país se encaixa no formato e definição “trail running”.

Além disso, é claro, não temos formações montanhosas que superem os 3.000 metros de altitude.

Duas provas realizadas recentemente na Serra Fina (Estados de São Paulo e Minas Gerais) apresentam percursos definitivamente montanhosos e que se aproximam do que é uma Skyrunning®: a KTR Series com 30 quilômetros (Skyrace®) e a Half Mision Brasil (Ultra Skymarathon®).

Estive presente nas duas e confirmo: montanha de verdade, quase chegando ao céu.

 TRAIL RUNNING

Trail-Running

Vamos utilizar aqui uma boa definição do termo e que é utilizada pela Associação de Trail Running de Portugal:

“São corridas pedestres em Natureza, com um mínimo de percurso pavimentado/alcatroado que não deverá exceder 10% do percurso total, em vários ambientes (serra, montanha, alta montanha, planície, etc.) e terrenos (estradão, caminho florestal, trilho, single track etc), idealmente em semi ou autossuficiência mas não obrigatoriamente, a realizar de dia ou durante a noite, em percurso devidamente balizado e marcado, e em respeito pela ética desportiva, lealdade, solidariedade e pelo meio ambiente.”

Fica fácil sacar a diferença para as demais modalidades: trail running não exige necessariamente montanhas, grandes altitudes e/ou desníveis.

Basta ter menos de 10% de asfalto em seu percurso.

Assim, trail running se aproxima mais daquela gostosa corrida na areia da praia, nas estreitas estradas de terra do interior ou nas detonadas trilhas de motoqueiros. Corrida em trilha e mínimo impacto andam juntos.

Assunto polêmico para alguns chatos e um bom tema para o próximo post.

GeorgeVolpão1

 

George Volpão é, acima de tudo, alguém com profunda paixão pelas montanhas. Além de correr, às vezes, é montanhista desde os anos 90. Com suas andanças pelos matos do Brasil, teve a oportunidade de absorver valores que o levaram a correr nas montanhas pelos seus ideais. Transmitir os conhecimentos adquiridos de modo que a informação esteja sempre circulando é seu objetivo maior de vida. Vive atualmente em Quatro Barras – PR, a apenas 6 quilômetros de sua montanha favorita, o Morro do Anhangava (1.420m) e mantém este espaço vivo e pulsante. Mais que dar respostas, gosta de questionar.

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