Dificuldades objetivas e subjetivas das montanhas – Dois conceitos que aparecem frequentemente na montanha

Tem um dizer de que gosto muito que é assim: o que é o paraíso para um, é o inferno para outro. Então, quando falamos em graus de dificuldade de uma montanha, qualquer que seja, temos dois aspectos a considerar, um objetivo e um subjetivo.

A frase acima se refere aos aspectos subjetivos da avaliação de dificuldade e varia muito de pessoa para pessoa. Quando guio grupos ao campo base do Everest comumente meus clientes tem opiniões muito diferentes sobre o grau de dificuldade do trekking.

Para uns, ele deveria ser classificado como muito exigente, para outros, como moderado.

O mesmo trekking, as mesmas condições, as mesmas acomodações. O mesmo acontece em relação a escaladas de alta montanha. No ano passado tentei escalar o Manaslu (8.156 m) sem oxigênio e sem auxílio de sherpas para testar meus limites.

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Foto: Manoel Morgado

Em parte tomei esta decisão baseado na informação de que a montanha tinha o mesmo grau de dificuldade do Cho Oyu (8.201 m), que tinha escalado em 2009. Fora as dificuldades “normais” de um 8.000 metros, não achei a montanha particularmente difícil, tanto tecnicamente como em termos físicos.

Foi mais ou menos o que esperava.

Já o Manaslu foi muito mais difícil do que imaginava. Minha sensação de dificuldade talvez tenha sido causada pela tragédia que aconteceu durante a escalada, a maior avalanche da história do Himalaia onde 12 escaladores morreram. Isto com certeza abalou a todos que estavam na montanha e mudou minha avaliação subjetiva dela.

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Foto: Manoel Morgado

Outro fator que muda de maneira marcante a dificuldade de uma montanha é o clima. Todos os anos levo grupos para o Elbrus, na Rússia, e normalmente não temos muitos problemas para que 90% do grupo chegue ao cume.

Não existem dificuldades técnicas, é uma longa subida de 20 a 30 graus com 1.000 metros de desnível vertical e grande parte do grupo considera como bastante exigente do ponto de vista físico, mas viável. No ano passado fizemos uma tentativa de cume com ventos fortíssimos e achei mais seguro abortar a escalada. No dia seguinte levei apenas os 3 clientes mais fortes e fizemos cume com ventos de 100 km/hora.

Lá em cima, com aquelas condições, não sentia que estava a 5642 metros em uma montanha fácil e sim como se estivesse em uma montanha muito mais alta e difícil. Era a mesma montanha dos anos anteriores, mas as experiências passadas, comparadas à deste ano em particular, foi completamente diferente.

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Foto: Manoel Morgado

Isso mostra de maneira muito clara também que é sempre preciso muito respeito a qualquer montanha, já que de uma hora para outra uma montanha fácil pode tornar-se extremamente difícil e perigosa.

Também nosso equipamento e experiência determina o grau de dificuldade.

Um grupo bem equipado e experiente pode escalar uma montanha com facilidade enquanto que um grupo, no mesmo dia, pode achá-la impossível.

Às vezes ter ou não ter crampons ou um piolet pode ser a diferença entre fazer ou não o cume, mesmo que seja apenas para cruzar uma pequena parte com gelo em uma encosta.

Em vista de tudo que disse acima, creio que preparo físico, mental, experiência e equipamento desempenham fatores muito mais importantes na definição da dificuldade de uma montanha do que o que objetivamente definimos como grau de dificuldade, principalmente quando se fala de montanhas com mais de 8.000 metros, que raramente são muito técnicas, especialmente por suas rotas normais.

Porque então se fala de 8.000 fáceis e 8.000 difíceis?

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Foto: Manoel Morgado

Mais uma vez existem dois conceitos misturados aí: a dificuldade e a periculosidade , ou mortalidade, da montanha.

Estranhamente não se define taxa de mortalidade da montanha dividindo-se o número de escaladores que tentam chegar ao cume pelo número de mortes e sim o número de escaladores que chegam no cume versus o número de mortes.

Isso faz com que a taxa de mortalidade seja artificialmente inflada.

Então, usando o este número, temos o Annapurna (8.091 m), K2 (8.611 m) e Nanga Parbat (8.126 m) como as montanhas mais mortais dentro das 8.000 metros, com as três tendo ao redor de 25% de mortalidade, ou seja, para cada quatro escaladores que chegam ao cume um escalador (que não necessariamente chegou ao cume) morre.

No outro lado do espectro temos montanhas como o Everest, Cho Oyu, Manaslu (tirando-se o último ano), Shishapagma, Gasherbrun 1, Gasherbrun 2 e Broad Peak com taxa de mortalidade de menos de 5%. E no meiotemos as restantes: Kanchenjunga, Lhotse, Makalu e o Daulagiri.

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Foto: Manoel Morgado

Temos de considerar que fatores outros, que não dificuldade técnica, também afetam essas estatísticas.

O K2 é famoso por suas avalanches que, infelizmente, são a causa de muitas das mortes na montanha como vimos este ano.

O mesmo acontece com o Annapurna.

Ainda outro fator a considerar é o número de expedições na montanha em determinado ano e o número de membros em cada expedição.

Como exemplo posso citar o Manaslu que até poucos anos não era explorada comercialmente.

As expedições comerciais usavam o Cho Oyu como montanha treino para o Everest.

Com as dificuldades crescentes por parte dos chineses em dar permissões para escaladas, muitos operadores resolveram oferecer o Manaslu ao invés do Cho Oyu.

Com isso a mortalidade na montanha caiu de 9% para menos de 2%.

Isso se deve a mais cordas fixas na montanha, resgate mais efetivo com a presença de muitos sherpas de várias expedições comerciais.

Expedições comerciais tendem também a usar oxigênio suplementar para a maioria de seus membros, além do suporte de sherpas e com isso os riscos objetivos diminuem e a taxa de mortalidade da montanha cai.

Como ficamos então com tudo isso?

Creio que a conclusão que podemos tirar é que podemos, e muito, influenciar a “dificuldade” de cada montanha nos preparando física e mentalmente o mais que pudermos.

Equipamento adequado deixa também a montanha mais segura.

Antes de sair para o cume devemos consultar a previsão meteorológica para não sermos surpreendidos por uma “virada” de tempo.

Sites como mountain-forecast nos da a previsão do tempo para mais de 3.000 montanhas em todo o mundo com uma precisão bastante boa para as 72 horas que antecedem a escalada.

Mas, nada é mais importante do que adquirirmos a experiência necessária para a montanha que queremos escalar.

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Manoel já escalou dezenas das principais montanhas do mundo incluindo as mais altas da América do Sul (Aconcagua), da América do Norte (McKinley), da Europa (Elbrus), da África (Kilimanjaro), da Oceania (Kosciuszko), além das mais altas da Bolívia (Sajama) e do Equador (Chimborazo). Em setembro de 2009 escalou o Cho Oyu, (8201 metros) a sexta mais alta montanha do planeta e em maio de 2010 colocou os pés no cume do Everest tornado-se o oitavo brasileiro a lograr este feito. Em dezembro de 2011 concluiu a escalada da montanha mas alta de cada continente, o chamado Sete Cumes (Seven Summits), tornado-se o segundo brasileiro a conquistar este feito. Em março de 2012 lançou seu primeiro livro – Sonhos Verticais – contado suas escaladas do Cho Oyu e Everest.

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