20 anos de Escalada, Companheirismo, Amor: Por que os melhores namorados(as) são escaladores?

Por Fabiane Criscuoli e Deivis Tavares

Temos duas Décadas de Aventuras e Companheirismo.

A escalada esportiva, assim como muitos outros esportes ao ar livre, em sua grande maioria são atividades que exigem a presença de mais de uma pessoa para a sua realização.S eja para colaborar com quem realmente vai realizar a atividade, ou mesmo partilhando do mesmo ideal. Dificilmente realizamos nossas atividades ao ar livre totalmente sozinhos. Mesmo quando se realiza um trabalho “solo”, alguém nos auxiliou na preparação ou está na espera, para curar as feridas e cicatrizes daquela aventura, ou até mesmo simplesmente nos aguardando para um café, uma refeição, um abraço.

Muitos de nós, em geral, começamos em nossas atividades ao ar livre e aventuras através de um amigo ou amiga e em períodos de nossas vidas onde nos encontramos “solteiros (as)”.

Mas o que acontece com o passar do tempo, onde, quase que naturalmente, buscamos o relacionamento afetivo e conjugal?

A Transição do Amor

Quando nos conhecemos, cada um já tinha alguns anos de trabalho com Tecnologia da Informação (TI) e através de um processo de recrutamento e seleção a vida acabou por nos apresentar.

Fazia um ano que eu (Deivis) tinha acabado de retornar de um período em São Paulo (8 meses de trabalho) e conhecido o cascading (descida de cachoeiras com a técnica de Rapel). Fazia também 6 meses que estava praticando Escalada em Rocha com amigos e amigas que havia conhecido em um curso especializado.

Estava (Fabiane Criscuoli) num período de intenso trabalho em um projeto de automação bancária. Recebi o convite do Deivis para fazer uma “descida de cachoeira” no final de semana na Serra Gaúcha. Achei aquilo muito diferente do que eu vinha fazendo, mas tudo a ver com o que vinha buscando.

Foto: Acervo pessoal Fabiane Criscuoli e Deivis Tavares

Iniciava ali o que sempre chamamos do momento de transição de amor, uma pequena brincadeira para dizer que mudamos do amor dos amigos para o amor do companheiro (a). Para nós foi assim que começamos a compartilhar os momentos de intimidade, de relacionamento, de namoro, de convívio social com as aventuras ao ar livre.

A medida que as aventuras foram se tornando cada vez mais frequentes, mais o relacionamento foi se fortalecendo.

O amor romântico

Foto: Acervo pessoal Fabiane Criscuoli e Deivis Tavares

Muitos de nós, especialmente os nascidos entre os anos 60 e 70, tínhamos ou temos a imagem, talvez a ilusão, de que o amor verdadeiro é algo que acontece meio que ao acaso. Fomos impactados por inúmeras histórias e contos, filmes e programas televisivos, de que existe um príncipe encantado, uma princesa adormecida ou uma alma gêmea a nos esperar e que somente vivermos, ele ou ela aparecerá em nossa frente e o mundo dali para adiante se tornará uma felicidade conjugal sem fim. Nos parece incrível que ainda falando com jovens ou solteiros da nossa geração e mesmo das mais novas, esta convicção ainda esteja tão fortemente enraizada em nossas vidas.

Todo mundo deseja amar alguém e ser amado, talvez esta seja a maior ou senão uma das maiores buscas do ser humano. Falamos, ouvimos, lemos, enfim fizemos muitas coisas, boas e ruins, em busca de um amor, em manter um amor, para perpetuar um amor.

Acreditamos que nos dias atuais, esta busca tenha se tornado ainda mais difícil, dado as mais diversas formas de se amar que nós seres humanos criamos.

A ideia da alma gêmea, da pessoa certa, do par perfeito é a base do Amor Romântico. Não que ele não tenha lugar em nosso mundo, pelo contrário, devemos alimentá-lo sempre, mas temos que ter a plena consciência que um amor romântico tem uma durabilidade limitada.
Um amor sólido, maduro, passa pelo romântico e vai além, como estágios de vida (infância, adolescência, adulto…). Entendemos que o amor duradouro é aquele Amor Construído. Não no sentido de ser falso, mas aquele em que alimentamos nos piores momentos de nossas vidas e celebramos nos melhores, que a cada dia temos que regá-lo, alimentá-lo, senão em pouco tempo irá morrer.

Qual a diferença então?

O Amor Construído

Foto: Acervo pessoal Fabiane Criscuoli e Deivis Tavares

Os esportes ao ar livre, no nosso caso a escalada (esportiva, trad e boulder) são a grande base para o desenvolvimento de um “Amor Construído”, no nosso ponto de vista, claro.

No início de 1999, estava guiando (Deivis) uma via tradicional quando tive a famosa queda com corda na boca, ao tentar costurar. Até hoje lembro da queda, da parede passando, do vento nos ouvidos. Foram uns 6 metros de queda. A Faby tava na segurança e subiu um metro travando na ancoragem que tinha feito. A queda foi limpa, sem nenhuma consequência ruim. Naquele momento ficava claro para mim que, mais que uma pessoa fazendo a minha segurança, estava ali alguém que eu gostaria que estivesse todas as vezes que aquilo fosse se repetir. A minha vida começava a depender de alguém de uma forma diferente. Neste momento começava uma mudança em nosso relacionamento. Já não éramos mais as almas que se encontravam… Já não era mais o Amor Romântico, o primeiro tijolo de uma construção importante estava sendo posto naquele instante. Começava ali um Amor Construído.

Na escalada conseguimos encontrar nossa fraquezas e nossas forças de uma forma muito verdadeira e rápida. Basta uma via e já conseguimos ver isto bem claro. O verdadeiro companheiro é aquele que enxerga na gente o que nem a gente ainda conseguiu ver. O Deivis sempre me deu muita força para que eu conseguisse vencer meus medos, minhas dificuldades e conseguisse encontrar algo que estava adormecido em mim. São situações assim que trazem sentido ao que vivemos, ao que desejamos construir. Passamos de um ponto onde era EU para um ponto onde enxergamos que o NÓS é maior que dois “EUS”. Sem que isto acabe em um anular o outro.

E assim se passaram muitas aventuras, muitas vias, muitas quedas, muitas viagens e em cada uma, alguns tijolos estavam sendo colocados em nosso empreendimento.

Porém o que isto fez em nossas vidas? Qual foi o real impacto desta construção?

20 Anos – JUNTOS

Foto: Acervo pessoal Fabiane Criscuoli e Deivis Tavares

Em 2019 completaremos 20 anos de relacionamento. 20 anos de uma busca, quase que diária, pela melhor convivência, pela construção de uma ligação que vai muito além de um se relacionar, certamente passa pela intimidade, cumplicidade, construção conjunta, amizade, parceria… chegando no verdadeiro significado de COMPANHEIRISMO.

20 anos é um tempo importante de convívio, um tempo onde tudo aconteceu: nos desenvolvemos como profissionais, construímos uma empresa juntos, um produto juntos, criamos uma filha (Amanda Criscuoli Tavares) escaladora, uma família… e seguimos sonhando e realizando… JUNTOS!

O que o texto não transmite com tanta facilidade, até porque nos alongaríamos muito, é que o nosso dia-a-dia é: Acordamos, tomamos café, levamos a nossa filha para a escola, vamos para a empresa, almoçamos, voltamos para a empresa, pegamos nossa filha, vamos treinar… e tudo isto… JUNTOS.
O que queremos dizer é que estão sendo 20 anos, com raras exceções em viagens de negócios, realmente vividos o tempo todo JUNTOS.

Como isto é possível?

Seríamos hipócritas se aqui descrevesse este tempo todo como de uma completa harmonia, de uma grande felicidade, de um amor sem fim, até porque estas palavras pertencem ao Amor Romântico e acreditamos que já passamos por ele e avançamos em busca do Amor Construído. No nosso caso, temos ao menos uma crise conjugal por ano, já tivemos várias discussões intermináveis, lutas por posições, pontos de vistas que não cederam, mágoas que se criaram…

Enfim, aquilo que todo relacionamento inconformista possui. Digo inconformista porque nos vemos assim, pessoas que não querem se acomodar, que querem evoluir tanto como pessoas, quanto amantes. E esta inconformidade gera atrito, que gera tensão… mas que gera evolução. Enfim não temos nada de diferente. Discutimos, brigamos, fazemos as pazes, nos amamos e voltamos a fazer tudo de novo… como qualquer ser humano.

Existe Mágica?

Então o que nos mantem unidos? Como seguimos em frente? Qual a mágica?

Como deixamos bem claro até aqui, não temos mágica, temos sim uma busca diária pela manutenção de algo que acreditamos. Mas o que é isto que acreditamos? Seria piegas, simplório demais dizer: no nosso Amor. Seria de difícil compreensão por você leitor ou leitora e de pouco aproveitamento. Na verdade acreditamos no nosso empreendimento, no nosso Amor Construído que começamos naquele primeiro tijolo que colocamos naquelas primeiras escaladas e que a cada nova aventura, foi acrescentando mais um, e mais um…

Quando estamos no meio de uma discussão de uma crise, é sempre ao olharmos a nossa construção, o nosso empreendimento, que faz com que todo e qualquer ego possa ser destruído, destroçado e o que faz valer é o nosso empreendimento. Para este empreendimento você pode dar o nome que quiser… nós simplesmente chamamos de amor, o nosso amor que construímos um pelo outro ao longo de 20 anos de aventuras ao ar livre.

Muitas pessoas nos perguntam como conviver quase que 100% do tempo juntos, escalar juntos e isto dar certo?

Costumamos atribuir isto às escolhas que fizemos: escolhemos depositar nossa energia, nossa força vital em nós, em construir UM verdadeiro relacionamento, que não fosse superficial, que fosse intenso e profundo. Somente assim entendemos que seria verdadeiro.

A fonte para esta construção não se deu em casa, na empresa, no sociedade, nos amigos. A verdadeira fonte, a força que nos manteve unidos, principalmente nos momentos mais difíceis de nossa vida, foi tirada da natureza, das escaladas, da vida ao ar livre. Foi e é lá que nos encontramos, despidos dos nossos egos, abertos, necessitados e verdadeiramente humanos em busca de nossa união, em busca do sentido de seguirmos em frente juntos.

Tem uma citação de um poeta Ítalo-Grego chamado Ovídio que é muito pertinente:

“A força do hábito desenvolve o Amor – O Amor, ainda jovem é pouco seguro de si, se fortifica com o uso; alimente-o bem, e, com o tempo, ele se tornará sólido.” – Ovídio (-43 AC – 17 DC)

Foto: Acervo pessoal Fabiane Criscuoli e Deivis Tavares

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