Dia 8 no Tour du Mont Blanc: De Champex (1.466 m) a Col de la Forclaz (1.526 m)

Comecei o oitavo dia acordando cedo e tomando cuidado para não acordar as outras pessoas do quarto. Esse seria um dia pesado com uma das variantes mais famosas e difíceis do Tour du Mont Blanc: Fenetre d’Arpette. Eu estava bastante ansiosa por ela e fiquei muito feliz quando o dia nasceu com ótimo clima (sol, algumas nuvens e friozinho) que iriam ajudar nesse dia pesado. Eu e as meninas nos arrumamos, tomamos o café da manhã no refúgio e fomos em uma padaria próxima comprar nossos lanchinhos. O dia seria todo pela variante e não haveria opções de onde comer.

Começamos a deixar Champex pela subida íngreme que ganharia mais de 1.000 metros em torno de 5 km. Não seria um dia fácil. A trilha começa bastante bonita passando por uma trilha mais fechada repleta de árvores com rio correndo ao lado e formando pequenas cachoeiras. Encontramos a Danielle no refúgio dela que ficava um pouco mais acima no caminho. A vista ali era muito bonita com as montanhas e um tom bastante rústico, mas vale lembrar o risco de se hospedar ali. Como já fica no começo da variante, se o dia não estivesse bonito, teria que voltar para Champex para seguir pelo outro caminho.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

A trilha continua primeiro mais fechada e cruzamos com diversas bifurcações e trifurcações, porém sem problemas de navegação. As placas nessa parte da trilha são mais simples com menos informações, mas era só seguir sempre em direção a “Fenetre” que não haveria nenhum problema. Chegamos a uma espécie de fazenda que abriu a vista para montanhas lindíssimas e seus cumes pseudo-nevados. Com certeza, se não tivesse a nevasca dois dias antes, a vista seria outra.

Continuando pela fazenda, cruzamos com as primeiras vaquinhas suíças. Imaginem o tamanho da minha surpresa quando, justamente na suíça, as vaquinhas não eram malhadas. Elas tinham os pelos pretos bem escuros e diferente de qualquer outra vaca que eu já vi. Eram realmente únicas. Passamos pelo meio delas e o tilintar dos seus sinos pareciam abençoar os próximos passos e desafios que estavam por vir.

A trilha começava a abrir cada vez mais e seguíamos nos aproximando da montanha meio nevada e pude perceber que ela era toda formada de pedras e rochas. Essa também começava a ser a formação da trilha que estávamos seguindo. Ainda era possível ver no chão a trilha marcada, porém começavam a surgir pedras de todos os tamanhos pelos lados, algumas que começamos a contornar. A navegação havia deixado de der em placas e havia passado a ser por pinturas nas cores da suíça em algumas pedras.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Uma parte de mim torcia para a trilha ir para a esquerda e subirmos aquela montanha que estávamos chegando tão perto. Eu conseguia ate imaginar um caminho por onde seria possível subir aquelas pedrinhas escorregantes, porém iriamos para a direita. Logo depois de fazer uma curva e um pequeno zigue-zague íngreme, foi possível visualizar onde realmente iríamos passar em uma espécie de “col” e o desafio seria ainda maior do que havia imaginado. Eu tinha visto diversos vídeos de pessoas subindo esta parte, mas nunca tinha vislumbrado a fundo o real desafio: pedras, pedras e pedras.

A trilha demarcada no chão sumiu e deu lugar a um grande embaralhado de pedras de diferentes formatos, tamanhos e até posições. Aqui, a navegação só era possível pelo visual de duas informações: conseguir identificar qual era o sentido de onde iriamos e algumas pedras aqui e lá com a marquinha da Suíça. Lembrou bastante alguns pontos do Parque Nacional de Itatiaia (meu lugar favorito no Brasil) com suas trilhas mais técnicas e eu, como aprendiz de escaladora, me empolguei bastante com o novo desafio.

Fiquei ainda mais feliz quando vi que um pouco mais acima, havia neve acumulada em cima de algumas pedras pelo caminho. Percebi isso quando alguém na minha frente deixou alguma escultura feita em neve. Seria um passarinho? Era hora de fazer meu primeiro boneco de neve. A ideia era criar um amigo para o Zinho, mas a primeira versão acabou ficando pequena demais… Logo a frente, encontrei mais um amontoado de neve nas pedras e consegui criar o Olaf. Pena que não dava para trazer ele…

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

O trepa pedra começou a ficar cada vez mais íngreme e com pedras maiores. Nesse momento, usava as marcações das pedras apenas como referencia de direção porque o melhor era fazer uma navegação particular e encontrar caso a caso qual era a pedra melhor para pisar, para apoiar os braços e até garantir que não escorregasse se houvesse algum traço de neve ou até molhada pelo degelo. Nesse ponto, as meninas andavam próximas uma das outras, mas não estávamos mais juntas porque cada uma tinha um ritmo. Eu que estava mais lenta no começo da subida, conseguia ir mais rápido pela facilidade na técnica, então íamos sempre em ritmos diferentes.

Chegamos mais perto do “cume”, o número de pessoas presente começou a ficar maior, principalmente de pessoas fazendo ao contrário. Essa é uma parte do Tour du Mont Blanc em comum com a Haute Route que vai de Chamonix até Zermatt em uma travessia passando por pontos de maior altitude e mais isolados já que menos pessoas a fazem. Depois de muito trepa pedra, o trecho final foi bastante íngreme, porém com menos pedras e voltava a ter uma trilha marcada em zigue-zague. Ainda assim, era importante ter muito cuidado porque ali do lado já era o penhasco com as pedras.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Esse foi, sem dúvida, o trecho de trilha mais divertido do Tour du Mont Blanc (para quem ama trepa-pedras) e chegar ao seu ponto mais alto (Fenetre d’Arpette 2.665 m) não foi tão feliz. Queria continuar ainda mais a brincadeira de escalada e foi a única vez que eu estive em um ponto da trilha que estava realmente lotado de pessoas. Chegar ali fez pensar em uma nova classificação para o Tour du Mont Blanc: em vez de terminar no 5 – quase morrendo, aprendi que pode existir o 6 – morri e continuei andando. O “cume” não era tão grande e tinha que ficar procurando lugar para sentar. Sentei com as meninas, comemos nossos lanchinhos e aquele cume ao lado, tão perto, ficou me chamando a atenção. Seria uma experiencia realmente nova porque ele era uma escalaminhada apenas com pedras e muitas delas cobertas de neve/gelo.

Depois de uns bons minutos vou – não vou – vou – não vou, decidi ir! Deixei tudo meu embaixo com as meninas, levei apenas a câmera fotográfica no bolso e comecei a subir as pedras esbranquiçadas. Fui tomando o máximo de cuidado para garantir que eu não escorregasse. Usei diversas estratégias, desde entalar meu pé entre duas pedras, até fazer o maior buraco possível para o próprio gelo dar uma firmada no pé. Fui subindo e subindo até que cheguei no cume que eu havia avistado… apenas para ver mais que era um falso cume e tinha outro ainda mais alto. Apesar da doida vontade de continuar subindo, lembrei dos principais ensinamentos da montanha “chegar no cume é apenas metade da aventura” e decidi não arriscar mais. Des-escalaminhar é sempre mais difícil. Fui voltando devagarinho para onde eu havia deixado o Zinho.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Pança cheia, aventura realizada, é hora de começar a descida do outro lado do “col”. Foi muito interessante a sensação de trilhar do outro lado. Primeiro pela vista! Tinha um grande glaciar ali do lado que não era possível ser visto até começar a descida (eu tinha visto la de cima do falso cume, mas não era a mesma coisa). Além disso, a proximidade e os ventos que batiam ali no gelo mudavam completamente o clima desse pedaço da trilha. A descida era bastante íngreme, porém as pedras ficaram lá no comecinho e deram espaço para uma trilha bem marcada. Meu ritmo bom de descida já estava presente e foi muito difícil acompanhar junto das meninas. Tentei por diversos momentos espera-las, mas mesmo com esperas cada vez mais grandes, elas não estavam aparecendo mais.

Em uma destas ultimas paradas para ver se o pessoal aparecia, tive uma modelo para fotos de montanha: uma linda borboleta. Sou apaixonada por elas desde sempre não apenas pela beleza e leveza indescritíveis, mas também pela lição de transformação que elas passam. Me inspiram a continuar sempre buscando o melhor dentro de mim. Não é à toa que tenho uma tatuada. Ela pousou em uma flor ao meu lado e passou diversos minutos ali possibilitando um book com diversos ângulos e testes de câmera. Vale lembrar que não sou nenhuma expert nisso.. nem amadora….

A borboleta não saiu voando, mas era hora de eu continuar e voltei com meu passado rápido pela descida quando recebi outro presente das montanhas: um dente-de-leão. É a minha flor favorita e ela me leva a um lugar muito especial dentro de mim mesma toda vez que um simples suspiro a faz voar por aí. Brinquei com ela… Segui caminho e encontrei mais uma! E mais uma! Foram 4 dentes-de-leão que eu encontrei solitários pela montanha até que veio o presente maior… Eu não precisei soprar a florzinha seguinte porque eu estava entrando em uma parte repleta das florzinhas e o vento já estava fazendo a função por mim. Eu estava rodeada de mini florzinhas voando ao meu redor. Foi um dos momentos mais mágicos que já tive na montanha.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Continuei descendo e descendo até que finalmente a trilha foi ficando menos íngreme e o glaciar já havia ficado para trás e agora eu chegava perto da margem do rio formado pelo seu degelo. Quando a descida parecia ter terminado, eu encontrei uma casinha, o Chalet Glacier. Ali tinham algumas bebidinhas, belisquetes, mas o mais legal era o sorvete! Não pude deixar de tomar um sorvete feito com leite das vaquinhas da Suíça. Tinha até uma vaquinha na embalagem. Não era assim um gelatto italiano, mas estava muito gostoso e foi uma ótima recompensa pelo dia puxado.

Sentei ali, decidi esperar pelas meninas e foi uma parte muito divertida! Este seria um dia que as pessoas dormiriam em lugares muito diferentes e, como eu fiquei bastante tempo parada em um mesmo lugar, pude cruzar com todas as pessoas que já haviam feito parte do meu Tour du Mont Blanc. Finalmente as meninas chegaram, tomaram um sorvete e seguimos por mais alguns minutos juntas, mas iriamos nos separar. No final do oitavo dia, o vilarejo para o pernoite tradicional seria Trient ainda uns 200 metros abaixo para dentro do vale, porém eu não iria dormir lá. Seguindo a minha estratégia de tentar todas as variantes mais altas, eu não desceria até Trient e dormiria no Hotel du Col de la Forclaz.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Me despedi das meninas e segui pela única parte realmente chata do dia. Foram aproximadamente 3 km planos em uma estradinha já pavimenta e sem vista pelas árvores. A parte interessante era informações sobre tratamento de água da região que apareciam em jogos interativos pelas paredes de rocha do caminho. Apertei o meu passo e ainda cheguei relativamente cedo ao Col de la Forclaz (1.526 m) que foi o col mais sem graça até então. Era refúgio ou hotel? Era uma mistura dos dois. As áreas comuns lembravam tudo que se pode esperar de um hotel suíço nos Alpes, mas o quarto que eu iria dormir era coletivo. Acredito que tinham mais de 10 beliches no mesmo quarto.

Para variar, eu não pude entrar no quarto com a bota e um dos pontos negativos deste hotel/refúgio era que a sala de botas ficava realmente em outra construção e precisava andar lá fora com o chinelo. Isso acontecia porque eles também tinham um camping e a saleta de botas era compartilhada. Aproveitei para tomar logo o banho já que o banheiro era individual e eu poderia curtir bastante a água quente. Após o banho tive um contra-tempo com o meu desodorante (um aerossol mini) que parou de funcionar. Ainda teria mais 3 dias de trilha… A roupa poderia ficar sem lavar, mas sem desodorante seria um desprendimento que eu ainda não estava preparada.

Logo ao lado do Hotel havia uma vendinha e eu corri para lá e encontrei algumas opções de desodorantes e comprei o roll on mais barato que tinha e, mesmo assim, foi o mais caro da vida. Porém, não foi só o desodorante que eu encontrei. Toda viagem que eu faço com o Zinho, ele traz para casa um novo amigo para a “Turma do Zinho” que já tem a Peruanita (boneca de pano tradicional do Peru) e o Pinguinito (pinguim da Patagônia), por exemplo, e eu não poderia abandonar ele nesse momento. Finalmente, achamos a companheira ideal para trazer do Tour du Mont Blanc, a Milky, uma vaquinha malhada que tem um sininho para tilindar por aí. Esse seria um peso extra que eu carregaria sem problemas.

Voltei para o hotel para o jantar e, como eu começava a me aproximar da região de Chamonix, era uma região com muitas outras trilhas e pessoas fazendo trilhas curtas, Haute Route, dentre outras e eu não conhecia ninguém ali. Foi uma sensação estranha porque não foi possível criar conexão com nenhuma das pessoas da minha mesa. Ao menos o jantar foi gostoso! De entrada teve uma sopa de legumes super saborosa que eles até ofereceram para repetir (eu aproveitei). Depois veio a coxa de frango com molho delicioso acompanhada de alguns legumes, couve-flor gratinada e batatas fritas. Era quase open bar de batatas fritas e eu fiz a festa. A sobremesa foi mais sem graça com duas bolas simples de sorvete. Estes eram industriais e não os rústicos da vaquinha.

Peguei uma taça de vinho e fiquei na varanda vendo um pouco as estrelas e comecei a refletir que depois de tantos meses sonhando com o Tour du Mont Blanc, ele já estava acabando. A barriga cheia de batatas fritas, uma taça de vinho e eu já estava completamente relaxada para dormir. Amanhã, se o tempo estiver bom, vai ser mais um dia de duas variantes. A última vez que eu ousei fazer duas variantes em um único dia resultou em dores na panturrilha. É melhor ir dormir.


Leia os relatos anteriores Tour du Mont Blanc

  • Chegando no Tour du Mont Blanc: De cirurgia no joelho a Les Houches


8º dia em números (valores aproximados)

Distância total 14 km
Aclive 1.100 metros
Declive 1.100 metros
Cols 1 (Fenetre d’Arpette)
Variantes 1
Duração 9h00 (Paradas extras: esperar e sorvete)
Fronteiras 0

Gastos

Descrição Valor
Sorvete € 3,00
Hospedagem (Dormitório + Café da Manha + Jantar ) € 65,00
Vinho € 5,00
Café da Manhã
Lanche € 5,00
Desodorante € 6,00
Total € 84,00
Total ACUMULADO € 696,00

Tradicional garota da cidade grande (São Paulo – SP) teve seu primeiro contato com trilhas em 2013 no Peru, mas só veio descobrir as belezas da sua vizinha Mantiqueira em 2015.

Apaixonou-se pelas montanhas e passou a se dedicar ao trekking e à escalada por diversos cantos do Brasil além de Peru, Chile, Venezuela, França, Itália e Suíça. Completou os 180 km do Tour du Mont Blanc sozinha após uma cirurgia no joelho.

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