Dia 10 no Tour du Mont Blanc: De Tre-Le-Champ (1.417m) a Refuge La Flegere (1.875m)

Esta noite tinha sido um pouco difícil com alguém roncando muito no quarto. Éramos apenas em 4 pessoas. Quais as chances não é mesmo? As memórias do dia mágico anterior faziam o coração vibrar e ajudavam a sair da cama quentinha. A sensação com misto de sentimentos bons e ruins crescia. Eu estava transbordando de emoção de tudo que eu estava conquistando, mas a sensação de que estava acabando não sabia ainda onde se encaixar de mim.

Mais uma manhã tradicional do Tour du Mont Blanc colocando as roupas geladinhas que ainda não terminaram de secar, fazer trancinhas, arrumar mochila, café da manhã, pegar bota na sala de botas… Algumas mudanças eram que eu estava mais confortável na presença das meninas nas trilhas, acho que elas aprenderam a entender um pouco do meu ritmo solitário e me davam um pouco mais de espaço. Isso tornava ainda mais difícil começar a caminhar e não ter mais a companhia da Chloe que já tinha ido embora com seus pais.

Nessa manhã tão repleta de emoções, o Mont Blanc voltou a fazer seu charminho e amanheceu não atrás do seu famoso chapéu, mas atrás de um grande aglomerado de nuvens. Não tinha imaginado, mas conforme iriamos ganhando altitude no dia, iriamos cada vez mais para dentro destas nuvens. Para variar, o dia não começava nada fácil com suas famosas subidas. Neste caso seriam quase 1.000m de aclive em menos de 6km.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

A subida começa mais fechada, mas logo ela se abre. Em um dia bonito, esta deveria ser uma das vistas mais marcantes do Tour du Mont Blanc, porém, eu mal via alguns metros na minha frente por causa das nuvens. Chegavam então as famosas escadas ou ate “vias ferratas” do Tour du Mont Blanc. Para muitas pessoas, este é como o dia mais técnico de todo o circuito, mas acho que eles não passaram pelas variantes dos dois anteriores. Ele realmente é mais técnico com muitas escadas e pequenos arames ajudando a ganhar a íngreme subida do dia, mas vale ressaltar que não eram tão técnicos ou expostos como as famosas vias ferratas brasileiras como a do Baú em São Bento do Sapucaí – SP.

Nós não tínhamos muita vista mesmo… Nem para cima, nem para baixo, muito menos para as lindas montanhas que nos disseram que havia ali então estava bastante tranquilo de passar. A companhia das meninas ajudava a não ficar entediante sem a vista e foi muito gratificante poder estar lá para ajuda-las. De qualquer forma, para aqueles com medo de altura, vertigem ou até aversão a pontos mais técnicos, existe a possibilidade de fazer uma variante pelo Col des Montets que será menos exigente tecnicamente, mas exigirá ainda mais do cárdio por ser uma subida ainda mais íngreme.

Próximo da altitude de 2.000m, as duas rotas se encontram e é o momento de tomar mais uma decisão: subindo um pouco mais está um dos pontos mais famosos da jornada, o Lac Blanc, ou então já é possível começar a descer em direção ao refúgio. Para minha sorte, as nuvens estavam dando uma aliviada. Apesar de ainda não ser possível ver como eram as tão famosas vistas, já era possível ver um pouco melhor os caminhos. Com isso foi possível escolher ir pela variante mais alta. Esta era a última variante e eu poderia completar o meu desafio pessoal de fazer todas as opções mais altas. Elas não dependiam apenas do meu preparo físico, mas de São Pedro cooperar. E ele estava ajudando.
A partir deste trecho, a parte técnica dá lugar a montanhas com bastante verde e começamos a cruzar com alguns lagos. Foi interessante perceber que, mesmo com a navegação visual boa, neste ponto a trilha não estava passando por onde eu achava que ela iria.

Subida atrás de subida. Não é um dia fácil e, apesar de não ter vistas bonitas, eu estava feliz de não estar enfrentando o calor de 38°C do segundo dia. Em uma dessas pequenas corcovas de montanhas que subíamos, cruzei com o primeiro “Ibex”. Não queria traduzir o seu nome porque não achei uma tradução que faça justiça ao animal. As “Cabras montanhesas” tem, na verdade, lindos chifres e são os responsáveis por diversas daquelas imagens onde vemos uma cabra/veado/ibex bem no meio de uma montanha rochosa e nos perguntamos como que ele chegou ali. Eles são naturalmente escaladores.

Continuamos a subida até o Lac Blanc (2.352m) que tem um refúgio que fica coladinho nele para termos uma vista bem sem graça. O lago era pequeno de uma cor que não surpreendia muito depois de tanta beleza já vista e nuvens… Nuvens… Nuvens… tirei la algumas fotinhos e fui para dentro do refúgio. Ainda era cedo, antes das 13h e o destino final estava próximo há menos de 2 horas de distância. O que fazemos então? Comer! Sempre a solução nos Alpes é com comida e como recusar mais uma fatia de pão com queijos e queijos gratinados? Fui ate um pouco audaciosa e tomei uma taça de vinho antes de terminar meu dia de trilha.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Quando estávamos lá dentro do refúgio comendo, ouvimos uma grande manifestação de gritinhos de felicidade e corremos para a janela: um pedacinho do cume do Mont Blanc tinha decidido aparecer por entre as nuvens. Eu não tinha ideia de como estávamos perto dele, era surreal. Rapidamente os ventos moveram mais um pouco das nuvens e puff, aquela montanha branca desaparecera novamente. Voltei para a mesa e terminei meu super gratinado e ficamos lá dentro jogando conversa fora enquanto passávamos o tempo. Como havíamos chego cedo no lago e o refúgio final do dia não estava longe, podíamos ficar ali.

Parecia que o Mont Blanc não queria aparecer de novo, mas outras partes do céu começavam a se abrir e até um sol tímido resolveu aparecer e fomos conhecer o lago de perto. Foi quando percebi que havia um segundo lago na parte de trás. Ele era maior e circundado por lindos cumes rochosos. Enquanto fazíamos algumas fotos percebi uma dupla seguindo por estas montanhas e bateu uma vontade tão grande de escalar. Aquela ali não seria possível, mas decidimos ir um pouquinho mais alto em uma pequena elevação que existe entre os lagos.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Sentada ali simplesmente admirando a linda dança que as nuvens faziam no céu, lembrei que a minha câmera tinha função de timelapse e comecei a gravar aquela sequencia de passos quase que formando uma coreografia. Aos poucos as nuvens bailarinas foram deixando o palco e mostrando porque aquele ponto era tão especial no Tour du Mont Blanc: nós estávamos MUITO, realmente, MUITO próximos do maciço do Mont Blanc e aqueles cumes nevados se refletiam na água. Era o conjunto de uma natureza, inclusive com as nuvens, tão linda que tornava difícil absorver tudo aquilo.

Desci então para perto do icônico Lac Blanc para registrar um pouco mais desse grande espetáculo de dança da natureza quando o Mont Blanc resolveu aparecer e pudemos continuar um pouco do nosso namoro do dia anterior. Realmente tornou-se muito especial poder ve-lo depois de dessa jornada tão especial onde ele era sempre a chave a ser encontrada. Restava entender, o que ele abriria agora que eu havia encontrado.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Decidimos então seguir para o refúgio que estaria a menos de duas horas de distância a apenas uma boa descida dali. Meu corpo ia melhor em descidas, a vista estava linda e a trilha fazia o coração sorrir. Já era um dia muito especial quando cruzamos com uma família de Ibex: mãe, pai e filhotinho curtindo o sol que havia aparecido. Assim como com as vaquinhas, tentei me aproximar lentamente para uma amizade, mas eles não me deram bola. Ficaram ali brincando e depois decidiram seguir mostrando para nós a resposta da famosa pergunta “Como essas cabras escalam para chegar ali?” Foi muito divertido.

Depois dessa grande reunião de família, continuamos seguindo pela trilha abaixo e cruzamos com uma marmota. Era realmente interessante como essa trilha que já fica bem próxima de Chamonix, muitas pessoas fazem hiking de um dia para fora do Tour du Mont Blanc, além dos Tour du Mont Blancristas que seguem daqui direto para Chamonix abortando o final da trilha, tinha a presença de tantos animais selvagens. Foi então que ganhei um dos grandes presentes das vistas do Tour du Mont Blanc: cruzei com mais uma família de Ibex, dessa vez posando para meus olhos (e câmera) em frente ao Mont Blanc. Não sei qual estava se exibindo mais, se os animais ou a montanha.

Foto: Thaís Cavicchioli Dias

Começamos a avistar o abrigo que ficava pouco depois de mais uma estação de bondinhos, ou seriam teleféricos… De qualquer forma, este é um ponto bastante importante porque é onde a maior parte das pessoas erra em relação ao Tour du Mont Blanc. Apesar da proximidade e da fama de Chamonix, esse é um vilarejo que o Tour du Mont Blanc não passa por ele. Muitas pessoas pela vontade de chegarem logo a Chamonix, acabam descendo direto de La Flegere (as vezes ate pelo teleférico) em direção ao vale onde esta a famosa cidade. Muitos que eu estava cruzando estavam fazendo isso. Pena… estavam tão perto e não iriam completar o circuito, talvez por puro descuido.

Chegamos no Refugio La Flegere (1.875m) que ficava magicamente perto e com uma vista deslumbrante do Tour du Mont Blanc e cruzei novamente com meu querido trio de franceses. Acho que faziam uns 2 dias que não os via e foi muito especial tê-los comigo na minha ultima noite do Tour du Mont Blanc. Esse foi o refúgio que realmente mais parecia com o conceito que eu tinha de refúgios no meio da montanha. Boa parte de sua estrutura era composta apenas de madeiras, quartos bem grandes e espaçosos. Sem muitos beliches fechando cada espaço. Eram apenas 2 chuveiros dentro do que parecia um vestiário feminino. O banho feito quentinho e tranquilo, mas eu me perguntava como deveria ser a espera quando o refúgio estivesse lotado.

Desci para o jantar e pedi uma taça de vinho sem saber que seria um dos mais memoráveis do Tour du Mont Blanc: começo com uma das saladinhas tradicionais que a fresca aqui tentava comer, mas acabava passando para o coleguinha. Veio então o prato principal que era composto de batatas com molho branco gratinadas acompanhadas de seleção de embutidos como o parma.

Era uma seleção de diversas coisas que eu adoro e estavam ajudando a não pensar melancolias sobre o dia seguinte. Foi quando chegou a sobremesa e era o melhor mousse de chocolate que eu já havia comido (não contem para a minha mãe). Eu devo ter devorado com a cara de uma criança de 5 anos porque pela primeira vez aceitaram me vender uma sobremesa extra. Cara, mas que valeu cada centavo de euro.

Fiquei tentando saborear aquela delícia beeemmm devagarinho, mas eu precisava ir dormir que o dia seguinte não seria exatamente fácil. Pegar no sono não foi fácil, mas ainda não sei se a culpa foi porque pelas madeiras, era o primeiro refugio que não era bem quentinho ou pelos sentimentos confusos que o dia seguinte seria o último.

10º dia em números (valores aproximados)

Distância total 9km
Aclive 950 metros
Declive 550 metros
Cols 0
Variantes 1
Duração 9h (Paradas extras: almoço e esperar mont blanc aparecer)
Fronteiras 0
Cume 0
Variantes 0

Gastos

Descrição Valor
Sorvete
Hospedagem (Dormitório + Café da Manha + Jantar ) € 58,00
Gratinado + Vinho € 15,00
Café da Manhã
Vinho € 5,00
Mousse de Chocolate extra € 8,00
Total € 86,00
Total ACUMULADO € 846,00

Leia os relatos anteriores Tour du Mont Blanc aqui

Tradicional garota da cidade grande (São Paulo – SP) teve seu primeiro contato com trilhas em 2013 no Peru, mas só veio descobrir as belezas da sua vizinha Mantiqueira em 2015.

Apaixonou-se pelas montanhas e passou a se dedicar ao trekking e à escalada por diversos cantos do Brasil além de Peru, Chile, Venezuela, França, Itália e Suíça. Completou os 180 km do Tour du Mont Blanc sozinha após uma cirurgia no joelho.

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