Depois de uma queda um mosquetão deve ser descartado – Mito ou verdade?

O montanhismo possui muitos mitos que por não ocorrer um estudo mais profundo sobre o caso, acabam sendo aceitos como verdade. Este tipo de pensamento é quase um corolário da tática política do alemão Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Adolf Hitler na Alemanha Nazista. O político afirmava que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Este tipo de técnica vemos até hoje na política e rodas sociais. Exemplos não faltam.

É creditado a Goebbels uma outra frase, não tão conhecida como a primeira “Este homem é perigoso, ele acredita no que diz” (Der Mann ist gefährlich, er glaubt, was er sagt). Somente por estas duas frases é possível iniciar conversas intermináveis a respeito de como os mitos crescem na sociedade que vivemos.

Hoje com o Google é possível desmitificar muitas das lendas urbanas que habitavam o consciente coletivo.

Talvez um dos maiores mitos, que frequentemente é discutido sobre sua veracidade, seja sobre a necessidade de descarte do mosquetão de escalada após uma queda. Este tipo de prática é justificada por, em teoria, ter criado pequenas fissuras internas que comprometeriam a resistência do equipamento.

A realidade não é bem assim. Após vários experimentos (links para consulta ao final do artigo) notou-se que mesmo após quedas de vários metros, que não comprometeram a forma do equipamento, não houve fissura interna. Isso porque este tipo de raciocínio não vale para os mosquetões modernos. A explicação é que o “grão” do alumínio é disposto de forma paralela ao seu eixo principal, e não ficando perpendicular.

Em outras palavras, isso significa que fraturas capilares tão indetectáveis, capazes de espontaneamente causar uma ruptura no mosquetão, não acontece. Importante lembrar que um mosquetão não é uma bolacha, que se rompe sem deformar-se, e a sua deformação é a indicação de que a sua capacidade de resistir a uma determinada força foi comprometida.

O engenheiro de qualidade da rede de lojas americanas REI Steve Nagode realizou um experimento que submeteu 30 mosquetões coletados aleatoriamente, de vários tipos de funcionamento, a um experimento. Nagode arremessou ao chão seis vezes quinze mosquetões, a uma distância de 10 metros a um piso de concreto, deixando os outros para serem comparados.

Após estas quedas verificou qual a resistência de cada um em uma prensa (a mesma utilizada para testes em vergalhões de aço). Cada mosquetão resistiu a uma carga de 50 kN. O engenheiro obteve os seguintes resultados: nenhuma das peças sofreram diferença nos valores de ruptura, mesmo quando comparado a amostras que não sofreram nenhuma queda.

No ano de 2014 o engenheiro Richard Delaney realizou um teste com 100 mosquetões, semelhante ao que Steve Nagode realizou, e chegou à uma conclusão muito parecida. A queda a qual foi submetida os mosquetões foi de 240 metros.

De todos os mosquetões submetidos a teste apenas um apresentou ruptura abaixo da carga exigida para o equipamento (abaixo de 14%). Delaney concluiu que deve-se verificar que tipo de testes o fabricante realiza e em como está a inspeção visual do mosquetão, desaconselhando também o uso de mosquetões tortos ou gatilhos em funcionamento fora do padrão.

A Black Diamond realizou teste semelhante, mas com mais precisão científica, e afirmou que:

“É mais importante inspecionar mosquetões que sofreram quedas por afundamentos ou deformidades. Se apenas são visíveis arranhões e o gatilho do mosquetão funciona sem problemas, este mosquetão está apto para o uso.”

Chris Harmston, gerente de controle de qualidade da Black Diamond, afirma que:

“Eu realizado teste com centenas de mosquetões usados, os quais sofreram quedas significativas, algumas com mais de 1.000 m de altura em queda livre (a partir do topo da parede Salathé no El Capitan). Nunca notei qualquer problema com estes mosquetões que sofreram quedas a menos, claro, que exista danos visuais óbvios para o mosquetão. Embora seja reconfortante, isso não da carta-branca para usar mosquetões que sofrem quedas significativas. É necessário aposentar imediatamente qualquer mosquetão que tenha se deformado, apresente ranhuras profundas ou o gatilho não está fechando perfeitamente.”

A título de comparação, um outro experimento sobre o comprometimento de equipamentos de escalada que sofreram quedas acentuadas, foi realizado pelo Reverso Petzl (que possui o mesmo material com os quais são feitos os mosquetões). O teste em questão foi bem mais rígido do que os aplicados pela concorrente Black Diamond. Tratava-se de usar uma pistola .357 Magnum (sim isso mesmo, um revólver) sendo disparada (e acertando) um freio reverso a uma distância segura. O teste, que parece absurdo à primeira vista, equivale a jogar o equipamento até uma rocha a uma velocidade de 67 m/s (240 km/h). Isso equivale ao equipamento cair de uma altura de aproximadamente 240 m.

O reverso deformou-se várias vezes, obviamente, pois foi submetido a cinco tiros diretos antes de quebrar. Isto parece, mas não podemos afirmar com 100% de certeza, indicar que uma queda única e de pequena altura, um mosquetão, ou qualquer outro equipamento de escalada, acarreta em pouco ou nenhum dano.

Posso concluir o que?

Mesmo que grandes quedas não danifiquem um equipamento, é necessário ter bastante prudência quanto à sua manutenção. Toda e qualquer marca de equipamentos aconselham que além da inspeção visual, seja feita uma inspeção manual para procurar deformações no corpo de seu equipamento.

Desta maneira mesmo que uma grande queda não inutiliza seu mosquetão, evite que isso aconteça pois, como diria o compositor Jorge Benjor, prudência e canja de galinha não faz mal a ninguém.

A necessidade de procurar deformações tem uma explicação simples: mosquetão não é biscoito, que se rompe rapidamente sem deformar-se (ao menos visivelmente). Antes de romper há uma deformação visível a olho nu, bastando compará-lo com outros que não sofreram qualquer dano. Pelos vídeos abaixo é facilmente entendível a afirmação de que há uma deformação acentuada do material antes do rompimento (o que explica o aconselhamento da Black Diamond).

Via de regra se o seu mosquetão caiu, não importando a altura, e está com o gatilho em perfeito funcionamento, significa que está apto para continuar a ser utilizado como afirma a Black Diamond e Pit Schubert. Algumas outras empresas, especialistas em equipamentos de segurança em altura como a Petzl, aconselham descartar o mosquetão se existir qualquer sulco e/ou arranhão com mais de 1 mm de profundidade além da questão do funcionamento do gatilho.

Bibliografia

Engenheiro e Analista de Sistemas, começou a escalar em 2001 e escalou no Brasil, Áustria, EUA, Espanha e Argentina. É totalmente dedicado ao esporte de escalada em rocha e é apaixonado em filmes Outdoor. Para aproveitar melhor esta paixão fez curso de documentário na Escola São Paulo, além dos cursos de “Linguagem Cinematográfica” e “Crítica de cinema”. Foi jurado do Rio Mountain Festival. Já viajou de mochilão pelo Brasil, EUA, Áustria, República Tcheca, República Eslovaca, Hungria, Eslovênia, Itália, Argentina, Espanha, Uruguai e Paraguai, Holanda, Alemanha e Canadá.

There is one comment

  1. Moisés R. de Oliveira

    – Entre o certo é o incerto, eu pergunto quanto vale a sua vida???
    – Voo livre é todos os esportes de risco são assim, ninguém voa com uma vela vencida ou selete avariada que custa bem mais que uma corda dinâmica de escalada, agora imagine um mosquetão HMS de no máximo R$ 100,00!
    – Em uma emergência eu prefiro abandonar um cordelete velho em uma chapeleta, do que abandonar um mosquetão de uma expressa!
    – De novo quanto vale sua vida???

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