Denúncia : Hatun Machay o local mais emblemático de escalada em rocha do Peru está morrendo

O local mais emblemático de escalada em rocha do Peru está sofrendo uma depredação sem precedentes ou paralelos: devido a um conflito com a comunidade local, o ex-dono do refúgio local e administrador da licença de exploração turística da área, está retirando todas as chapeletas das mais de 300 vias do local.

A pouco menos de um mês, após a não renovação da licença, o referido proprietário – que há muitos anos construiu o refúgio e começou a equipar as vias e explorar comercialmente a escalada na região – retirou todas as mobílias do refúgio, equipamento de cozinha, serviços em geral e cancelou o serviço de eletricidade.

Até aí sem novidades: impedido de explorar seu investimento, é óbvio que um empresário não deixaria tudo por ali.

À esquerda "Rino", um dos boulders mais famosos do local. Foto: Cissa Carvalho

À esquerda “Rino”, um dos boulders mais famosos do local. Foto: Cissa Carvalho

O escândalo realmente é que desde já algumas semanas, as chapeletas das vias mais fáceis tem sido retiradas. Logo, também começaram a desaparecer as primeiras chapeletas de algumas vias de nível intermediário.

A depredação acontecia da noite pro dia, e chegavam relatos de alguns escaladores que em um dia estavam escalando num setor e na próxima manhã já havia chapeletas faltando.

A referida pessoa foi inclusive filmada por um casal de americanos retirando chapeletas das vias.

Nos últimos dias comprovei pessoalmente o tamanho do estrago: dos 24 setores de Hatun Machay, até o dia 14 de julho de 2016, apenas 4 tinham vias equipadas. Os setores mais próximos do refúgio estavam completamente desequipados, os seguintes tinham da primeira à segunda chapa retirada, e algumas ainda tiveram suas últimas chapeletas retiradas.

Edu Marin, entre tantos outros escaladores de elite, esteve no local abrindo vias em 2013. Foto: Cissa Carvalho

Edu Marin, entre tantos outros escaladores de elite, esteve no local abrindo vias em 2013. Foto: Cissa Carvalho

Uma ou outra via continua inteiramente grampeada, mas 95% da vias já não podem mais ser escaladas. De alguns chilenos que estavam aí havia 10 dias, escutei novamente que em questão de dois dias um dos setores foi desequipado.

Independente do que está acontecendo entre ex-dono e comunidade, o fato é que é extremamente anti-ético e egoísta depredar uma área inteira de escalada por motivos pessoais.

É desrespeitoso em relação ao trabalho, energia e dinheiro investidos pelas centenas de escaladores que colaboraram na abertura das vias, a todos os escaladores que frequentaram o lugar por tanto tempo e ajudaram a divulgar o potencial (e consequentemente capitalizar o negócio de exploração turística), e à comunidade de escalada em geral, esta sim como um todo, “dona das vias”.

Pode-se argumentar e discutir infinitamente a questão ética e de autoridade sobre as vias e chapeletas, como tem feito os escaladores estrangeiros com quem tenho encontrado em Huaraz e em Hatun Machay, mas infelizmente a discussão de pessoas de comunidades de escalada mais desenvolvidas não irá parar a delinquência que está acontecendo, que conta ainda com a apatia e vista grossa da comunidade de escalada peruana.

Hatun Machay, um dos locais mais mágicos de escalada esportiva e boulder do mundo, está morrendo.

É inegável que em poucas semanas, senão dias, não haverão mais vias pra se escalar por lá.

Apesar do acampamento cheio, os setores estavam vazios e o clima é, literalmente, fúnebre.

Vista do "bosque de pedra", área principal de escalada em Hatun Machay. Foto: Cissa Carvalho.

Vista do “bosque de pedra”, área principal de escalada em Hatun Machay. Foto: Cissa Carvalho.

Fica aqui um apelo para aqueles que estiverem a caminho se possível, trazerem chapeletas para reposição (no Peru é muito difícil comprar chapeletas). Um dúzia já poderia recuperar 1 setor inteiro, 50 já recuperariam vários setores. Uma força tarefa possivelmente será constituída em agosto para iniciar a recuperação do local.

Enquanto isso, resta assistir, incrédulos e tristes, a destruição de um trabalho que foi de muitos, por uns poucos com muito mais ganância do que vontade de escalar.

Foto do topo: “O que sobrou de Hatun Machay” | Foto: Gianci Salis.

Sobre o Autor

Cissa Carvalho

Cissa Carvalho

Cissa Carvalho é natural de São Paulo e praticante de esportes outdoor desde os 8 anos de idade. É alpinista fanática, e nas horas vagas tenta escalar em rocha, surfar e arranjar dinheiro para continuar viajando. Já esteve em todos os continentes e já escalou na América do Sul, África, Ásia e Europa

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